Aos Fatos

Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Site copia e distorce reportagem para favorecer Bolsonaro

Por Tai Nalon

20 de julho de 2018, 19h25


O Portal Veja Agora publicou na última quinta-feira (19) um texto cujo título sugere, de maneira enganosa, que o pré-candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) não conseguiu consolidar alianças para a sua chapa "por este não aceitar se associar a partidos envolvidos em corrupção".

O conteúdo da postagem conta outra história, porém: o site copia trechos de reportagens de sites jornalísticos profissionais, como o do jornal El País, para narrar o fracasso nas negociações para a organização da chapa presidencial de Bolsonaro.

Diz, por exemplo, que "as negociações com o PR (que é dono de 45 segundos do horário eleitoral) naufragaram nesta terça-feira, o que jogou por terra a única esperança que os aliados do militar nutriam para ter um tempo significativo na propaganda de rádio e televisão — o nanico PSL dá a Bolsonaro míseros oito segundos". Este trecho inteiro é cópia de uma reportagem assinada pelo jornalista Ricardo Della Coletta. Já o material do Veja Agora não tem qualquer atribuição de autor.

A postagem, que foi denunciada por usuários do Facebook como potencialmente enganosa (entenda como funciona), acumulava ao menos 2.800 compartilhamentos até a tarde desta sexta-feira (20). Veja, abaixo, o que checamos.


DISTORCIDO

Políticos rejeitam Bolsonaro por este não aceitar se associar a partidos envolvidos em corrpução

Quem lê apenas o título do texto entende que o fracasso na articulação de alianças para conseguir mais tempo de propaganda eleitoral na TV tem a ver com algum princípio ético por parte de Jair Bolsonaro: ele não aceitaria se associar a partidos como, por exemplo, o PR, que tem deputados federais investigados na Operação Lava Jato. Mas não é nada disso.

Segundo o texto do Portal Veja Agora, "o entusiasmo de seus eleitores não tem se materializado nas parcerias políticas necessárias. Nas últimas 24 horas, o capitão reformado do Exército levou dois nãos de potenciais candidatos a vice-presidente, o que deve colocá-lo na corrida eleitoral em condições muito desfavoráveis em relação a outros candidatos".

Este trecho é rigorosamente igual ao primeiro parágrafo da reportagem do El País reproduzida abaixo. A diferença é que a apuração do jornal espanhol não afirma, em momento algum, que foi Bolsonaro quem rejeitou partidos envolvidos em corrupção.

A postagem do site Veja Agora é DISTORCIDA porque se utiliza de um expediente comum de sites de notícias falsas: usa a apuração factualmente correta de veículos jornalísticos profissionais, mas altera ou omite seus detalhes. No caso do Veja Agora, a reprodução do texto do El País é integral: "As negociações com o PR (que é dono de 45 segundos do horário eleitoral) naufragaram nesta terça-feira, o que jogou por terra a única esperança que os aliados do militar nutriam para ter um tempo significativo na propaganda de rádio e televisão — o nanico PSL dá a Bolsonaro míseros oito segundos. No mesmo dia, o pré-candidato ofereceu a vaga de vice na sua chapa ao general Augusto Heleno, mas a cúpula do PRP, partido ao qual o ex-comandante das forças brasileiras no Haiti está filiado, vetou o acordo".

As informações que constam da reportagem do El País são verdadeiras. Bolsonaro esperava compor uma chapa com o senador Magno Malta (PR-ES), mas suas demandas não foram atendidas pelo partido do congressista capixaba. Informa o El País: "'O Bolsonaro queria que nós não nos coligássemos com ele no Rio de Janeiro e que deixássemos de apoiar o PT na Bahia e em Minas Gerais', diz um político que acompanhou as tratativas".

A Folha de S.Paulo tem apuração semelhante: " Até a semana passada, o comandante do PR, Valdemar Costa Neto, negociava com Bolsonaro, quando um dos filhos do presidenciável criou barreiras para uma coligação proporcional no Rio. O objetivo de Valdemar era eleger uma bancada maior de seu partido no Congresso e o entrave no Rio e em São Paulo bloqueou as conversas".

Nesta quinta-feira (19), o PR anunciou apoio ao pré-candidato à Presidência pelo PSDB, Geraldo Alckmin (SP).

O que se seguiu foi uma tentativa de emplacar o general Augusto Heleno, do PRP, como vice na chapa encabeçada por Bolsonaro. Isso também fracassou. O El País e o próprio Veja Agora — copiando o primeiro — relatam que o presidente do partido, Ovasco Resende, recusou a aliança por conta de compromissos previamente acertados em nível estadual.

O texto do Portal Veja Agora, que já publicou outras notícias falsas desmentidas por Aos Fatos, foi compartilhado no Facebook pelas páginas Jair Bolsonaro Presidente 2018, Bolsonaro Minas Gerais e APOIO AO JUIZ SÉRGIO MORO E A OPERAÇÃO LAVA JATO.