Aos Fatos

Paulo Pinto/Fotos Públicas

O que realmente se sabe sobre as queimadas no Brasil

Por Bruno Fávero e Amanda Ribeiro

23 de agosto de 2019, 19h41


A consternação pelo aumento das queimadas no Brasil neste ano veio acompanhada de uma série de desinformações que se espalhou rapidamente alimentada pelas redes sociais.

O governo Bolsonaro tentou explicar o fenômeno ora culpando ONGs sem apresentar provas, ora sugerindo que o aumento dos incêndios era efeito do clima seco — o que também não é sustentado pelos dados.

Nas redes sociais, usuários reproduziram dados manipulados que tentavam menosprezar o tamanho do problema, e celebridades publicaram fotos antigas ou de outros lugares para tentar chamar atenção para as queimadas na Amazônia.

Pensando nisso, Aos Fatos preparou uma reportagem com o que realmente se sabe sobre as queimadas no país.

Veja abaixo:

1. A área da Amazônia queimada neste ano foi 74% maior do que a média dos últimos dez anos

Até julho deste ano, uma área de 18.629 km² foi queimada na Amazônia brasileira, segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Isso é 74% mais do que a média dos dez anos anteriores para o mesmo período (2009 a 2018), que foi de 10.665 km².

A área também é a segunda maior desde 2006, perdendo apenas para 2016, quando 19.220 km2 foram queimados, também segundo o Inpe.

O número de incêndios na região também disparou. Até esta sexta-feira (23), o Inpe havia registrado 40.341 incêndios na Amazônia neste ano, número 41% maior do que a média dos dez anos anteriores. O aumento é subestimado porque os dados disponíveis consideram todo o mês de agosto dos anos anteriores, enquanto contempla, neste ano, os números até 23 de agosto.

Em todo o Brasil, foram 76.720 focos de fogo até esta sexta, 33% a mais do que a média 2009-2018 e o maior número desde 2010, ano da seca mais drástica da história na Amazônia, segundo o Inpe, quando houve 111.561 episódios. Neste caso, a comparação considera exatamente o mesmo período em todos os anos (1º de janeiro a 23 de agosto).

Embora a maior parte da atenção esteja voltada para a Amazônia, o Cerrado também sofre com as queimadas e teve uma área 45% maior incendiada neste ano. Foram 27.149 km² até julho, também segundo o Inpe.

Diferentemente da Amazônia, porém, esse número está abaixo da média entre 2009 e 2018, que foi de 34.719 km².

2. Cientistas apontam para relação entre queimadas e desmatamento

Há fortes evidências de que o desmatamento esteja por trás do surto de incêndios no país.

O Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) divulgou uma nota técnica mostrando que, no geral, os municípios onde mais aconteceram queimadas foram também aqueles onde mais se desmatou. O estudo não encontrou relação da ausência de chuvas com os focos de queimada, o que poderia sugerir causas espontâneas para os eventos.

No documento, os técnicos afirmam que “a Amazônia está queimando mais em 2019, e o período seco, por si só, não explica este aumento”.

Em gráfico, o órgão mostra as possíveis correlações dos focos de incêndio com o tempo seco e o aumento do desmatamento. Observando a visualização à esquerda, percebe-se que é possível relacionar o corte raso da floresta ao aparecimento dos focos de calor. Nele, os pontos pretos indicam os municípios onde foram registrados os maiores focos de calor. No sentido vertical, mede-se a ocorrência de queimadas; no horizontal, a área desmatada. Pelo gráfico, é possível observar que municípios mais desmatados foram também os que tiveram o maior número de focos de calor.

Sobre essa correlação, o instituto afirma que “A ocorrência de incêndios em maior número, neste ano de estiagem mais suave, indica que o desmatamento possa ser um fator de impulsionamento às chamas, hipótese testada aqui com resultado positivo: a relação entre os focos de incêndios e o desmatamento registrado do início do ano até o mês de julho mostra-se especialmente forte”.

Quando novas áreas são desmatadas, os resíduos das árvores, como folhas, galhos e restos de troncos, são queimados para limpar a região e fazer com que as cinzas nutram o solo. Por isso, a falta de correlação entre a estiagem e o aumento das queimadas também corrobora a versão de que os focos de calor são causados pelo desmatamento.

De acordo com o órgão, os dez municípios amazônicos com maiores taxas de desmatamento são também os responsáveis pela maior parte dos focos de calor. Responsáveis por 43% do desmatamento registrado até o mês de julho, os locais registram 37% dos focos de incêndio da região.

Clima não é causa. Ainda segundo apontam os gráficos, não se pode estabelecer uma correlação entre os focos de incêndio e a falta de chuvas na região. Analisando-se os dados, é possível perceber que a probabilidade de a seca ser a causa das queimadas é bastante baixa. Isso é confirmado pelo fato de o próprio Ipam afirmar, na nota, que há mais umidade na Amazônia hoje do que o que foi observado nos últimos três anos.

Um cientista da Nasa também concorda que os incêndios têm relação com o desmatamento. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Douglas Morton, chefe do Laboratório de Ciências Biosféricas do Centro Goddard de Voo Espacial da Nasa, agência espacial americana, afirmou que a análise das imagens de satélites que indicam os focos de incêndios na região da Amazônia indicam que as queimadas têm correlação com o corte raso de floresta na região, e não outros tipos de atividades que não causam desmatamento, como preparo para novas plantações e limpeza de pastos.

De acordo com o cientista, as nuvens avistadas na região por meio das imagens de satélites têm um padrão de “pirocúmulo”, associado ao fogo ou à atividade de vulcões. Combustíveis usados na queima de pastos, segundo ele, não seriam capazes de causar colunas de fumaça tão grandes. O pesquisador ainda ressaltou que cenários parecidos com o atual só foram captados pela Nasa na região Amazônica entre 2002 e 2004, quando as taxas de desmatamento giravam em torno de 20 mil km² por ano.

3. As idas e vindas do governo Bolsonaro

Na última terça-feira (20), um dia depois de o céu de São Paulo escurecer e voltar a atenção da opinião pública aos incêndios na Amazônia, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, postou em sua conta do Twitter que as queimadas seriam causadas pelo “tempo seco, vento e calor”. Os dados apresentados por ele, no entanto, foram refutados pelo Ipam, que afirma que a umidade na região amazônica é a maior dos últimos três anos e que as queimadas estão sendo causadas pela alta dos índices de desmatamento.

O ministro alterou sua versão sobre a causa dos incêndios em entrevista à rádio Jovem Pan na quinta-feira (22). Ali, afirmou que as queimadas se deviam a um hábito da população da região Norte de atear fogo a objetos dos quais querem se livrar. Segundo ele, isso causaria incêndios de proporções inesperadas. “Ontem eu estive na Amazônia. Sobrevoamos a Chapada dos Guimarães, por exemplo, onde uma queimada de 3 mil hectares foi iniciada por um senhor que colocou fogo em folhas, em um lixo no fundo do seu terreno”.

O presidente Jair Bolsonaro também apresentou narrativas que beiram teorias da conspiração sobre as possíveis causas do problema. Em um primeiro momento, atribuiu o avanço do fogo ao corte de verbas imposto às ONGs da região pelo Fundo da Amazônia. Em discurso durante o Congresso do Aço na última quarta (21), Bolsonaro afirmou que a floresta poderia ser vítima de um ato de retaliação das organizações. “agora, está sendo quase o dobro [de queimadas] do registrado em anos anteriores. Por que isso? Aquele dinheiro que vinha da Noruega, da Alemanha, para o Fundo Amazônico, onde 40% ia diretamente para ONGs (...). Cortamos essa grana deles”.

A teoria voltou a ser defendida no dia seguinte, na quinta-feira (22), quando disse que os maiores suspeitos pelas queimadas eram as ONGs. Em entrevista a jornalistas, afirmou que “Pode estar havendo, pode, não estou afirmando, a ação desse ongueiros para chamar atenção para minha pessoa”.

Além de não apresentar nenhum tipo de material que comprove suas acusações, o presidente erra ao afirmar ter cortado os repasses de verba do Fundo da Amazônia às ONGs. Isso porque, para que isso ocorra, é necessário que seja editado um decreto que ainda está sendo elaborado.

Em um segundo momento, Bolsonaro citou uma teoria da conspiração que usa, ao menos desde 2015, como argumento para afirmar que outros países pretendem usurpar do Brasil a soberania sobre a Amazônia. “É só estudar um pouquinho a questão do triplo A na Amazônia que, no começo, eu fui ridicularizado, mas que continua sendo tratado na soma desses grandes encontros que tratam do clima”, disse, na quarta-feira (22).

A ideia do Triplo A, no entanto, foi criada por um ambientalista e defende a ideia de se estabelecer um grande corredor ecológico, que atravessaria oito países e passaria pela região amazônica. Por falta de adesão, no entanto, o plano nunca foi adiante.

Na noite de quinta (22), o presidente convocou uma reunião de emergência para decidir um plano emergencial para conter os incêndios. Em despacho assinado, determina que todos os ministros atuem no “"levantamento e o combate a focos de incêndio na região da Amazônia Legal". O objetivo, segundo o documento, é preservar a floresta, “patrimônio nacional”.

Na sexta-feira (23), o presidente editou um decreto autorizando a participação das Forças Armadas no combate às queimadas. De acordo com o documento, o emprego de militares para a GLO (Garantia da Lei e da Ordem) na Amazônia Legal só deve ocorrer caso haja requerimento dos governadores dos Estados.

Nesta segunda-feira (26) todos os nove Estados compreendidos pelo bioma — Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins — já tinham feito o pedido.

4. Desmatamento na Amazônia está em forte alta

As notícias sobre as queimadas vêm logo depois de um mês de dados negativos sobre o desmatamento na Amazônia (entenda como isso é medido aqui).

Nos últimos 12 meses (de agosto de 2018 a julho de 2019), o sistema Deter, do Inpe, detectou 6.245 km² de desmatamento na Amazônia, 48% a mais do que os 4.197 km² do período 2017/2018.

Analisando o mesmo período, o Sad, sistema da ONG Imazon, detectou um aumento de 15% no desmatamento – número menor, mas também significativo.

A divulgação dos dados foi fortemente criticada pelo presidente, que afirmou que os números deveriam ter sido primeiramente apresentados ao Ministério do Meio Ambiente. A crise culminou com a demissão do presidente do Inpe, Ricardo Galvão.

Embora o Deter não seja o método ideal para medir desmatamento, ele pode antecipar tendências. Um estudo de 2015 com dados de março a setembro apontou uma correlação de 83% entre os alertas do sistema e as informações apuradas pelo Prodes, sistema mais preciso usado pelo governo para consolidar dados anuais de destruição da floresta.

Durante coletiva de imprensa no começo do mês, o ministro Ricardo Salles admitiu que o desmatamento está em alta, mas afirmou que essa tendência vem desde 2012.

Embora isso seja verdade, os dados preliminares de desmatamento sugerem uma forte aceleração desse processo. De 2013 a 2018, o Prodes, sistema que consolida os dados anuais de desmatamento, registrou um aumento de 28% na taxa anual de destruição da Amazônia. Se os números preliminares do Deter forem confirmados e o desmatamento tiver aumentado 48% nos últimos 12 meses, será, em apenas um ano, um crescimento maior do que o dos últimos cinco.

5. O que pode acontecer agora

Uma das primeiras reações concretas da comunidade internacional veio do G7, grupo das sete maiores economias do mundo, que anunciou uma ajuda emergencial de US$ 20 milhões para ajudas a reduzir as queimadas na Amazônia. Parte do dinheiro, disse o presidente da França, Emmanuel Macron, será usado em aviões de combate ao fogo.

Mas a repercussão negativa da destruição da floresta também pode ter consequências negativas para o comércio exterior para o Brasil. A principal pode ser a rejeição do acordo comercial firmado entre o Mercosul e a União Europeia.

A conclusão das negociações foi anunciada no fim de junho, mas ainda precisa ser ratificada pelos parlamentos nacionais dos países europeus. Irlanda e França ameaçam votar e usam a política ambiental de Bolsonaro como justificativa.

O termo do acordo prevê que Mercosul e União Europeia devem promover "a conservação e o manejo sustentável de florestas, mirando reduzir o desmatamento e a extração ilegal de madeira".

O texto também exige que os signatários implementem os compromissos assumidos no Acordo de Paris em 2015. No documento, o Brasil traçou como um de seus objetivos zerar o desmatamento ilegal e restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030.

Também pode haver consequências mais imediatas para as exportações brasileiras. O ministro da Economia da Finlândia, Mika Lintila, ainda sugeriu que a União Europeia considere parar de importar carne do Brasil, segundo a Reuters.

O acordo com do Mercosul com a União Europeia vem sendo negociado oficialmente desde 1999. Ele prevê zerar as tarifas de importação sobre mais de 90% dos produtos comercializados entre os dois blocos. A União Europeia é o segundo maior mercado de produtos brasileiros, atrás apenas da China. Em 2018, o Brasil exportou US$ 42,1 bilhões para o bloco europeu, segundo o Ministério da Economia.

6. Famosos estão compartilhando fotos antigas e de outros lugares em postagens sobre a Amazônia

Em meio à comoção internacional pelas queimadas na Amazônia, celebridades têm compartilhado fotos antigas ou mesmo de outros lugares ao se manifestar sobre o assunto no Facebook e no Instagram.

A modelo Gisele Bundchen, o ator Leonardo de Caprio, o presidente francês Emmanuel Macron, a cantora Madonna e o jogador de futebol Cristiano Ronaldo estão entre as personalidades que compartilharam fotos fora de contexto.

Uma imagens que mais circulou fora de contexto foi tirada pelo fotógrafo americano Loren McIntyre, morto em 2003, e está no banco de imagens Alamy. A fotografia foi publicada pelo presidente francês Emmanuel Macron no Facebook (20 mil compartilhamentos) e no Instagram (159 mil curtidas) acompanhada de um texto que chamava outros países do G7 para discutir a questão.

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) reagiu à postagem criticando Macron e sugerindo que o francês estaria interessado em "ter um espaço na região amazônica" e que debater o problema sem os países amazônicos mostrava uma "mentalidade colonialista".

A mesma imagem foi compartilhada no Instagram de celebridades como o ator Leonardo Dicaprio (3,7 milhões de curtidas), da modelo Gisele Bundchen (460 mil curtidas), da atriz Cara Delavigne (1 milhão de curtidas), da cantora Ivete Sangalo (250 mil curtidas), entre outros.

O primeiro ministro canadense, Justin Trudeau, também compartilhou a foto em seu perfil no Twitter ao retuitar a postagem de Macron.

A cantora Madonna foi outra que compartilhou uma foto antiga no Facebook (5,7 mil compartilhamentos) e no Instagram (307 mil curtidas) é de 1989, segundo o site do banco de imagens RexFeatures. Os créditos indicam que a imagem pertence à agência de fotojornalismo Sipa, mas não identifica o fotógrafo que tirou a foto.

Já jogador de futebol Cristiano Ronaldo publicou uma foto de um incêndio de 2013 na Estação Ecológica do Taim, no Rio Grande do Sul. A fotografia foi tirada por Lauro Alves, da agência RBS, como explica reportagem do Gaúcha ZH.

No Facebook do jogador, a postagem foi compartilhada mais de 37 mil vezes e, no Instagram, atingiu mais de 9 milhões de curtidas.


Esta reportagem foi atualizada às 17h45 do dia 26 de agosto para acrescentar as informações de que o governo Bolsonaro editou um permitindo o emprego das Forças Armadas na Amazônia e de que o G7 anunciou um fundo emergencial de US$ 20 milhões para o combate ao fogo na região.

Referências:
1- Inpe 1, 2 e 3
2- Ipam
3- Folha
4- O Globo 1 e 2
5- G1 1, 2, 3 e 4
6- Jovem Pan
7- Twitter de Jair Bolsonaro
8- IEEE
9- Poder 360
10- Itamaraty 1, 2 e 3
11- Reuters
12- Estadão
13- MDIC
14- Alamy
15- Instagram 1, 2, 3, 4 e 5
16- UOL
17- Twitter
18- RexFeatures
19- Sipa