Aos Fatos

Ex-guerrilheiro não confessou em entrevista que matou pai de presidente da OAB

Por Luiz Fernando Menezes

31 de julho de 2019, 13h00


Não é verdade que o ex-guerrilheiro Carlos Eugênio Paz confessou, em entrevista à GloboNews, que matou Fernando Augusto Santa Cruz, pai do presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz (veja aqui). No depoimento, Paz diz que participou da execução do colega Márcio Leite Toledo. O nome de Fernando não é citado durante a entrevista nem ele integrava a mesma organização de Paz, a ALN (Aliança Nacional Libertadora).

Conforme já checado por Aos Fatos, documentos da CNV (Comissão Nacional da Verdade) e da Comissão de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos mostram que Fernando foi preso e morto pelo Estado durante o regime militar.

A peça de desinformação foi publicada em diversas redes sociais por perfis pessoais. No Facebook, ela acumulava até a tarde desta quarta-feira (31) cerca de 12 mil compartilhamentos no Facebook. As publicações foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (veja como funciona). A informação enganosa também foi enviada por leitores do Aos Fatos no WhatsApp como sugestão de checagem (inscreva-se aqui).


FALSO

#BOLSONAROTEMRAZAO ‘Eu participei sim da execução do pai do presidente da OAB!’ confessou o ex-guerrilheiro [Carlos Eugênio Paz].

Sabem quem era esse? Carlos Eugênio Paz, vulgo Clemente, guerrilheiro comunista da ALN e era um sujeito sincero, apesar de comunista. Morreu dia 29/06/2019 e deixou uma entrevista onde conta como ele e outros guerrilheiros executaram o Santa Cruz, pai do presidente da OAB, por traição ao movimento.

Após vários jornais e sites terem desmentido a informação que Fernando Augusto Santa Cruz, pai do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, teria sido morto por colegas de militância no regime militar, passou a circular nas redes uma entrevista do ex-guerrilheiro Carlos Eugênio Paz supostamente confessando o assassinato do militante. O vídeo, no entanto, foi cortado e editado para suprimir o nome da vítima.

Na entrevista original, veiculada na GloboNews em julho de 2012, Paz confessa que participou da execução de Márcio Leite de Toledo no dia 23 de março de 1971, em São Paulo. Na ocasião, o comando da ALN (Ação Libertadora Nacional) formou uma expedição punitiva para executar, a tiros, o colega. O depoimento começa no minuto 39 do vídeo:

Carlos Eugênio Paz, sob o codinome “Clemente”, foi o último comandante da ALN. Além de ter sido um dos quatro homens que executaram o colega Márcio Leite de Toeldo, foi responsável pela morte do empresário Henning Albert Boilesen em 1971. Paz morreu em junho deste ano, aos 69 anos.

Para além da edição do vídeo, há outra informação falsa nas publicações: Fernando Augusto Santos Cruz não era integrante da ALN, mas da APML (Ação Popular Marxista-Leninista).

Na última segunda-feira, o presidente Jair Bolsonaro disse que o pai do presidente da OAB teria sido morto pelos colegas da Ação Popular. A informação se propagou pelas redes sociais em diversas peças de desinformação. Segundo a Comissão Nacional da Verdade e a Comissão de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, Fernando foi morto pelo Estado.

Além dessa informação falsa, também circula nas redes uma foto de José Dirceu ao lado de um homem armado que vem sendo identificado como Fernando. Aos Fatos também mostrou que se trata de um boato: o homem que segura uma arma é um policial que participou da prisão de Dirceu, então líder estudantil, em Ibiúna (SP), em 1968.

O Fato ou Fake e o Boatos.org também checaram esta desinformação.

Referências:

1. G1 (Fontes 1 e 2)
2. Estadão
3. Aos Fatos (Fontes 1 e 2)