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Médicos não indicaram vitamina C e chá de erva-doce contra coronavírus

Por Bruno Fávero

29 de janeiro de 2020, 17h57


Não é verdade que médicos do Hospital das Clínicas e do Hospital São Domingos recomendaram o consumo de vitamina C, sucos, chá de erva-doce e fígado de boi para evitar a contaminação pelo novo coronavírus, como afirma uma corrente que circula em redes sociais (veja aqui). Também não há evidência científica que comprove as supostas propriedades antivirais desses alimentos.

Versões dessa desinformação circulam pelo menos desde 2018 associadas ao vírus H1N1 e já foram desmentidas pelo Ministério da Saúde, pelo hospital São Domingos e por vários veículos de imprensa como Folha de S. Paulo, G1 e Boatos.org.

As mensagens enganosas têm sido compartilhadas principalmente no WhatsApp, por onde foram enviadas ao Aos Fatos como sugestão de checagem (inscreva-se aqui). Não há como medir com precisão o alcance do conteúdo na plataforma. Publicações que somam mais de 300 compartilhamentos também foram encontradas no Facebook e marcadas com o selo FALSO na ferramenta de monitoramento da rede social (entenda como funciona).

Veja abaixo o que checamos:


FALSO

É falso que médicos do Hospital das Clínicas e do Hospital São Domingos tenham recomendado o consumo de vitamina C e de alimentos como sucos de laranja e acerola, chá de erva doce e fígado de boi como forma de se prevenir contra novo coronavírus, que já causou mais de 100 mortes na China. O Ministério da Saúde desmentiu correntes similares no ano passado que indicavam as mesmas substâncias como tratamento para o H1N1. O hospital São Domingos também publicou comunicado em que refuta a recomendação.

Além dos produtos não terem sido indicados por médicos desses hospitais, não há evidências científicas de eles que atuem contra o coronavírus –aliás, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), não há vacinas ou tratamentos específicos para a nova doença.

Os potenciais benefícios da vitamina C, substância abundante na acerola e na laranja, têm sido estudados há décadas. Uma ampla revisão de literatura feita pela Cochrane em 2013 concluiu que a substância não ajude a evitar resfriados comuns, embora haja indícios de que possa reduzir a duração da doença. Não há, entretanto, estudos sobre seus efeitos em infecções novo coronavírus.

Também não é verdade que o chá de erva doce tenha propriedades antivirais e nem que contenha a mesma substância que o Tamiflu, um antiviral usado no tratamento de doenças respiratórias. O princípio ativo desse medicamento é o oseltamivir, que pode ser sintetizado a partir do ácido chiquimico, encontrado no anis estrelado, uma especiaria produzida principalmente na China.

Isso também não significa que o anis seja eficaz contra doenças, já que o ácido chiquimico passa por reações químicas complexas até se transformar no medicamento. Segundo pesquisadores da Universidade de Bristol, no Reino Unido, o processo de sintetização do Tamiflu demora de seis a oito meses e 30 quilos de anis estrelado geram apenas 1kg do ácido.

Em 2009, médicos da Universidade Federal do Mato Grosso desmentiram que o anis estrelado e a erva doce teriam efeitos antivirais. "Fazendo uma analogia seria como afirmar que a água ardente provinda da cana de açúcar teria os mesmos benefícios do seu precursor".

Aos Fatos também não encontrou evidências de que a ingestão de fígado de boi tenha efeitos sobre o novo coronavírus ou qualquer outro agente infeccioso.

Por outro lado, duas das dicas que circulam na peça de desinformação são respaldadas por especialistas: lavar as mãos e usar álcool gel (desde que com concentração acima de 60%) podem ajudar a evitar que a doença se espalhe, segundo o Ministério da Saúde, o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) e a OMS (Organização Mundial da Saúde).

Referências:
1. Ministério da Saúde 1 e 2
2. Hospital São Domingos
3. Folha de S. Paulo
4. G1
5. Boatos.org
6. Aos Fatos
7. ONU 1 e 2
8. Cochrane Library
9. NPR
10. University of Bristol
11. UFMT
12. CDC