Aos Fatos

Reprodução

Veja o que checamos no debate da Band com Freixo e Crivella no Rio

Por Alfredo Mergulhão, Bernardo Moura, Ana Rita Cunha e Tai Nalon

7 de outubro de 2016, 22h33


No primeiro debate do segundo turno da campanha municipal do Rio de Janeiro, promovido pela Band, os candidatos Marcelo Crivella (PRB) e Marcelo Freixo (PSOL) abordaram questões como população de rua, favelas, passagem de ônibus e quadras poliesportivas.

Em parceria com o UOL, Aos Fatos checou, em tempo real, as declarações de ambos os candidatos. A reportagem ainda está em atualização, mas veja o que checamos, por enquanto.


IMPRECISO

Você tem aí a seu lado partidos que protagonizaram os grandes escândalos dos últimos tempos na política. O escândalo do Petrolão é o maior da história. — Marcelo Crivella (PRB)

Crivella acusa Marcelo Freixo de ter, entre seus aliados, envolvidos na Operação Lava Jato. Nesta semana, o PP, partido com maior número de investigados na operação, declarou apoio ao senador na corrida à prefeitura do Rio.

O deputado Júlio Lopes (PP) confirma a informação. Em seu perfil no Instagram, o parlamentar afirma que “pelo entendimento de que estamos em novo momento e liderados pelo presidente Michel Temer para o resgate do país, seguiremos com o Senador Marcelo Crivella 10 para a prefeitura do Rio de Janeiro”.

O PP é o partido com o maior número de investigados na Operação Lava Jato, com 30 parlamentares sob investigação de um total de 66. O PT tem 12 investigados e o PMDB tem 24 (nove no Senado e 15 na Câmara).

Crivella também integrou o governo Dilma Rousseff, no Ministério da Pesca.

O PSOL, partido de Freixo, não integrou o governo federal. No entanto, recebeu o apoio nesta semana do diretório municipal do PT.


VERDADEIRO
É verdade que o orçamento proposto esse ano, que está em discussão na Câmara Municipal, é R$ 3 bilhões menor que o orçamento passado. — Marcelo Crivella (PRB)

Crivella afirmou que o orçamento Rio de Janeiro no próximo ano terá um corte de R$ 3 bilhões. A informação está correta.

Inicialmente, Aos Fatos havia considerado o dado incorreto, com base em consulta à proposta orçamentária do ano que vem. O Projeto de Lei Orçamentária Anual prevê um orçamento de R$ 29,5 bilhões para o município em 2017. A LOA começou a tramitar na Câmara do Rio na última terça-feira, 4 de outubro.

Em 2016, o orçamento da Prefeitura foi de R$ 30,8 bilhões. A diferença em relação ao ano anterior foi de R$ 1,3 bilhão em valores nominais, o que representa um corte de 4,2%.

No entanto, ao cruzar esses dados com um estudo da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Aos Fatos constatou que a redução no orçamento chega a R$ 3 bilhões, em valores corrigidos pela inflação.

“O levantamento evidencia um cenário desafiador para o próximo prefeito, reforçando a importância das escolhas públicas que priorizarão gastos em determinadas áreas em detrimento de outras”, diz o estudo.


VERDADEIRO
Eles estão gastando menos com motorista, eles estão gastando menos com combustível e, ainda assim, a passagem aumentou acima da inflação. — Marcelo Crivella (PRB)

A afirmação de Crivella está correta. Quando o prefeito Eduardo Paes (PMDB) assumiu o seu primeiro mandato, em 2009, a passagem custava R$ 2,20. Hoje, cada viagem de ônibus do transporte coletivo convencional no Rio custa R$ 3,80.

O aumento do preço da passagem nesse período equivale a 72%. Já a inflação no mesmo intervalo de tempo foi de 63,7%, segundo o IPCA, índice oficial do governo.


IMPRECISO
Eu estava observando numa reportagem do jornal ‘O Globo’, alguns dias atrás, esse mapa da violência, e as áreas que mais contribuem para a população carcerária no Rio de Janeiro são realmente a zona oeste e a zona norte. — Marcelo Crivella (PRB)

Inicialmente, Aos Fatos classificou a declaração do candidato como INSUSTENTÁVEL. A informação sobre o endereço de origem dos presos do Rio de Janeiro não constava de qualquer das fontes oficiais checadas pela reportagem. Esse dado não consta do Atlas da Violência, desenvolvido pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP); nem do Mapa da Violência, da Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais; tampouco do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, produzido pelo Departamento Penitenciário Nacional e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

No Atlas da Violência e no Mapa da Violência, constam apenas dados sobre perfil dos homicídios cometidos no Brasil. Não há informações sobre a população carcerária.

No Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, existem informações mais detalhadas sobre os presos, porém nenhuma que aponte seu bairro de residência antes do encarceramento.

Procurada, a assessoria do candidato Marcelo Crivella não retornou as ligações de Aos Fatos nem respondeu mensagens de texto enviadas logo após o término do debate.

No entanto, Aos Fatos apurou que a provável fonte de informação do candidato é o estudo "Denúncia, Crime e Castigo", publicado pela FGV/DAPP no último dia 29. O levantamento cita dados carcerários do Rio distribuídos por bairro.

Segundo cruzamento de dados feito por Aos Fatos com base em dados da FGV, entre 1º de janeiro de 2015 a 31 de julho de 2015, 45% dos presos declaram residir na zona norte (incluindo Tijuca) e 33,8% declaram morar na zona oeste (incluindo Barra da Tijuca e Jacarepaguá). As zonas central e sul eram residência de 13,2% e 8% dos presos, respectivamente. Com isso, é possível afirmar que, em número absolutos, as zonas oeste e norte são o principal endereço de origem de apenados. A questão é que essas mesmas regiões abrigam quase 70% da população carioca; é lógico, portanto, que a maior quantidade de encarcerados tenha origem nesses locais.

O estudo da FGV utilizou informações da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária, do Instituto de Segurança Pública e do Disque Denúncia. Na pesquisa, são apresentados apenas os dados por bairro.

Para apresentar os dados por zona, Aos Fatos utilizou como critério a divisão das subprefeituras da Secretária Executiva de Coordenação de Governo. A informação segmentada por zona também não constava da matéria do jornal O Globo, mencionada na fala do candidato Crivella.

Aos Fatos tentou contato com a FGV, para que a reportagem tivesse acesso à análise dos dados de maneira relativa, isto é, para saber a taxa de crimes que levaram à prisão por habitante em cada zona da cidade. Somente dessa maneira, é possível afirmar categoricamente que as zonas norte e oeste têm maior participação na composição carcerária do Rio. Enquanto isso, Aos Fatos classifica a fala do candidato como IMPRECISA.


EXAGERADO
Hoje, as pessoas no Rio de Janeiro estão pagando R$ 200 milhões por ano de multas. — Marcelo Crivella (PRB)

De acordo com dados do Rio Transparente, até agora, o município arrecadou R$ 180.156.160,93 em multas neste ano. A previsão é chegar a R$ 190.209.558 até o fim de 2016.

No ano passado, as multas de trânsito renderam R$ 187.138.696 aos cofres da prefeitura — montante menor que o previsto pela administração (R$ 189.822.150). Já em 2014, o município arrecadou R$ 177.796.633 e a previsão era de R$ 179.325.792.


VERDADEIRO
Há um crescente número de furtos e assaltos na cidade do Rio de Janeiro. — Marcelo Crivella (PRB)

É verdade que há um aumento do número de furtos e assaltos no Rio, de acordo com os dados do ISP (Instituto de Segurança Pública). Em agosto de 2016, última estatística disponível, foram registradas 18.234 ocorrências de roubos e furtos na capital — um crescimento de 33% em relação ao mesmo período de 2015 (13.636).


FALSO
Metade das escolas públicas não têm quadra poliesportiva. — Marcelo Freixo (PSOL)

Freixo errou ao afirmar que metade das escolas públicas do município não têm quadra poliesportiva. Relatório do TCM (Tribunal de Contas do Município), feito por amostragem, mostra que 87,1% da rede municipal de ensino são equipadas com quadras.

O percentual de escolas sem quadra corresponde a 11,7%. Durante as visitas dos auditores do TCM, 1% das unidades estavam com as áreas esportivas em obras.

O relatório também apresenta a avaliação das condições estruturais das quadras nas escolas: 32,9% estavam em condições boas de utilização, 28,2% em condições razoáveis, 14,2% razoáveis com risco e 24,7% em condições precárias para uso.

O levantamento do TCM foi feito por amostragem em 195 escolas do município. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, existem 1.524 escolas municipais no Rio.


EXAGERADO
Para você ter uma ideia, o Rio de Janeiro hoje arrecadou em torno de R$ 150 milhões [em multas]. — Marcelo Freixo (PSOL)

Não é verdade que a Prefeitura do Rio arrecada hoje em torno de R$ 150 milhões em multas. A cifra é 20% maior, de acordo com dados do Rio Transparente. Neste ano, o município arrecadou R$ 180.156.160,93 em multas até agora. A previsão é chegar a R$ 190.209.558 até o fim de dezembro.


IMPRECISO

Um terço da população do Rio vive nas favelas. — Marcelo Freixo (PSOL)

A afirmação do candidato é imprecisa, de acordo com os dados disponíveis sobre a população total do Rio de Janeiro e sobre os moradores de favelas da cidade. São informações divergentes.

O Censo 2010, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), contou 6.323.037 moradores na cidade. Destes, 1.393.314 pessoas vivem em favelas — 22,03%.

Já levantamento realizado pelo Instituto Data Favela publicado pelo G1 concluiu que as comunidades abrigavam 2 milhões de moradores em 2014 — 30% da população total da cidade. O dado é mais próximo daquele citado por Freixo, mas permanece distante do número oficial.


IMPRECISO

Os efeitos da redução da velocidade das vias foram contundentes e imediatos na cidade de São Paulo. — Marcelo Freixo (PSOL)

Os dados do governo estadual de São Paulo mostram, de fato, queda desde o período em que teve início a política de redução da velocidade, na comparação com o ano anterior. No entanto, as oscilações entre os meses não permitem determinar uma tendência geral de queda. Há, ainda, outros dados, como o da CET, que apontam ritmo de queda diferente.

Pelo relatório mensal divulgado pelo governo do Estado, chamado Infosiga SP, houve uma queda 16,7% no total de mortes de trânsito na capital considerado o total de janeiro a agosto, se comparado o mesmo período de 2016 a 2015. Foram 775 nos oito meses do ano passado, ou média de 97 por mês, ante 645 neste ano, ou 81 por mês.

Em todos os meses, isoladamente, sempre comparados ao mesmo mês do ano anterior, houve queda em 2016, à exceção de agosto, quando o número de mortes no trânsito somou 103, ante 90 no mesmo mês em 2015 (alta de 14,5%). Há também oscilações para cima e para baixo entre um mês e outro. Estes dados isolados, no entanto, ainda são insuficientes para apontar mudança na tendência geral de queda.

Já segundo dados da CET, o número de mortes em acidentes de trânsito na capital paulista caiu: de 2014 a 2015, a queda foi de 20,6%. Nas principais vias da cidade foram 262 acidentes com mortes em 2014 e 203 em 2015. Os números contrastam com o do governo estadual.


VERDADEIRO
Há quase 6.000 moradores de rua no Rio. — Marcelo Freixo (PSOL)

De acordo com censo divulgado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social em fevereiro de 2014, são 5.580 moradores de rua na cidade. A pesquisa foi feita em 2013 em 96 pontos da capital.