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PT e PSDB travam batalha de dados errados na TV

Por Luiz Fernando Menezes

16 de outubro de 2017, 14h00


Com menos de um ano para as eleições presidenciais, partidos já experimentam vender em propaganda na TV suas principais vitrines para 2018. No final de agosto, foi ao ar o programa da Rede Sustentabilidade — que Aos Fatos checou. Nas últimas semanas, foi a vez do PSDB e do PT veicularem programas e inserções televisivas.

Enquanto o PSDB fez inserções regionais promovendo suas ações com Geraldo Alckmin, João Doria e outros integrantes do partido, o PT usou os dez minutos de seu programa partidário com Lula como personagem principal.

Aos Fatos checou algumas declarações feitas nas propagandas dos dois partidos e verificou que, independentemente do posicionamento no espectro político, ambos os partidos tentam pintar a realidade conforme sua conveniência. PT e PSDB distorceram números de patrimônio, segurança pública, desmatamento e representatividade feminina. Veja abaixo o resultado.


IMPRECISO

Nos governos do PT, o Brasil mais que dobrou o número de vagas nas universidades e quadruplicou o número de escolas técnicas. — Programa do PT

Quando o partido fala em “número de vagas”, refere-se ao número de matrículas realizadas em universidades públicas e particulares. De acordo com o Censo da Educação Superior de 2014 do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), o número de matrículas em cursos de graduação saltou de 4 milhões em 2003 para 7,8 milhões em 2016. Trata-se de um aumento de 96,5%— quase o dobro, mas certamente não mais que o dobro.

Já em relação às escolas técnicas, segundo o Ministério da Educação, o número aumentou 360%: em 2002, um ano antes de Lula assumir, o Brasil tinha 140 unidades; depois de seus dois mandatos, em 2010, o número aumentou para 356, e, após o governo Dilma Rousseff, em 2016, para 644 instituições federais. Ou seja, o número mais que quadruplicou.


FALSO

Diferente de outros políticos, Lula não enriqueceu. — Programa do PT

Durante as eleições de 2002, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva declarou à Justiça Eleitoral que tinha aproximadamente R$ 422 mil em bens. Já na eleição seguinte, em 2006, o montante quase dobrou de tamanho: chegou a R$ 839 mil reais. Entre as diferenças, constam aplicações e uma troca de carro: Lula, ao longo dos quatro anos, vendeu seu Blazer DLX 1998 e comprou uma S10 1998/1999.

Além disso, de acordo com o jornal Folha de S.Paulo, quando Lula deixou a Presidência, no final de 2010, e apresentou seus bens ao fisco, seu patrimônio era de R$ 1,9 milhão (um aumento de 116% em relação a 2006). Sendo assim, desde o começo do primeiro mandato e o final do segundo, Lula aumentou seu patrimônio em 360%.

Já em 2017, o ex-presidente também foi condenado em primeira instância em desdobramentos da Operação Lava Jato. Ele é acusado de receber R$ 3,7 milhões de forma ilegal da empreiteira OAS correspondentes ao valor de um apartamento tríplex no litoral paulista. Lula recorre da decisão em segunda instância.

O ex-presidente também é acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro por meio do recebimento de propinas no caso do sítio de Atibaia. O ex-presidente nega as acusações e diz que não há provas de que a propriedade dos dois imóveis sejam dele.

Procurada por Aos Fatos, a assessoria de imprensa do ex-presidente argumenta que a afirmação feita pelo programa do PT se referia a enriquecimento ilícito: “todas as contas do ex-presidente antes, durante e depois da presidência da República foram extensamente analisadas e não foi encontrado nenhum valor ilícito nelas”, afirmou por e-mail. Em curso, as investigações, no entanto, não comprovam isso.


EXAGERADO

Nos governos do PT, o Brasil reduziu o desmatamento da Amazônia em 79%. — Programa do PT

O desmatamento da Floresta Amazônica é medido, desde 1988, pelo Projeto de Monitoramento da Floresta Amazônica por Satélites, o Prodes. De acordo com suas tabelas de taxas anuais, foram desmatados 21.651 km² em 2001 e 7.893 km² em 2016. Trata-se de uma diminuição de 64%.

Além de ter exagerado na porcentagem, a declaração da propaganda também desconsidera todo o histórico de desmatamento durante os anos analisados. No acumulado de 1988 a 2016, foram desmatados 421.775 km².

No primeiro mandato de Lula, a floresta perdeu 86.468 km² e no segundo 39.026 km². Durante a gestão Dilma, foram desmatados 21.892 km² no primeiro mandato e 14.100 km² nos dois anos do segundo, interrompido em 2016. Pode-se dizer, então, que a Amazônia perdeu 161.486 km² durante os governos do PT (ou seja, 38% de todo o desmatamento ocorrido entre 1988 e 2016).

A partir disso, é possível afirmar que o desmatamento foi menor durante o governo Dilma e que, em 2004, segundo ano de mandato de Lula, foram desmatados 27.772 km² de floresta, o segundo maior registrado pelo Prodes.

Ainda de acordo com os dados oficiais, é possível perceber que o desmatamento voltou a aumentar nos últimos dois anos: 5.012 km² em 2014, 6.207 km² em 2015 e 7.839 km² em 2016 (a maior taxa desde 2008).


CONTRADITÓRIO

Nós, mulheres do PSDB, estamos organizadas em todo o país, garantindo os nossos espaços. — Programa do PSDB

A afirmação da vereadora de Piracicaba (SP) parece sugerir que as mulheres têm presença no PSDB. Porém, ao observar a composição das instâncias de comando do partido, a reportagem verificou que isso não se sustenta.

Nos 27 diretórios estaduais, apenas duas mulheres ocupam cargos de direção: Myrian Nunes é secretária-geral do partido no Piauí e Fernanda Freitas é secretária-geral em Roraima.

A situação não muda muito nos cargos executivos da central do partido. Dos 17 membros, só dois são mulheres: a deputada estadual por Rondônia Mariana Carvalho, vice-presidente, e a prefeita de Chapada dos Guimarães (MT), Thelma de Olveira, que desempenha a função de tesoureira adjunta.


FALSO

O Brasil sofre com a violência, mas em São Paulo os índices caem a cada ano. Hoje, temos três vezes menos homicídios que a média do Brasil. — Programa do PSDB

Se o governador de São Paulo Geraldo Alckmin quer dizer que a taxa de homicídios por cem mil habitantes do Estado de São Paulo é três vezes menor do que os números nacionais, é possível verificar a partir dos números oferecidos pelo Atlas da Violência, publicado em 2017 com dados de 1996 a 2015. De acordo com a pesquisa, a taxa nacional de homicídios é de 28,89 a cada cem mil habitantes.

Filtrando por Estado, percebe-se que o governador superestimou os números da segurança pública ao afirmar que a média de São Paulo é três vezes menor do que a nacional: de acordo com o documento, a taxa do Estado é de 12,22 a cada cem mil habitantes, ou seja, pouco menos que a metade dos dados nacionais.

A afirmação de que os índices caem a cada ano também não é completamente verdadeira: apesar de os índices terem caído muito entre 2003 — quando o Estado registrou taxa de 36,2/100 mil — e 2015 — quando o índice foi 12,22 — os números têm oscilado para cima e para baixo nos últimos dez anos. Em 2013, por exemplo, a taxa foi 13,8; em 2014, subiu para 14,06, e, em 2015, caiu para 12,22, número mais baixo dos últimos 21 anos.


EXAGERADO

Ampliamos rapidamente o número de crianças acolhidas nas creches e, nesse ritmo, vamos zerar essa fila muito em breve. — Programa do PSDB

De acordo com dados divulgados pela Secretaria Municipal de Educação, em março de 2016, eram 88.356 crianças esperando uma vaga nas creches da cidade de São Paulo. O número aumentou nos dois trimestres seguintes: em junho, eram 103.496 e em setembro 133.005. Já em dezembro do ano passado a demanda baixou para 65.040.

Neste ano, a demanda voltou a subir em março para 87.906, em junho para 104.268 e em setembro, últimos dados disponíveis, para 132.365. Já que a demanda só vem aumentando, é difícil de estimar que a gestão Doria, como ele mesmo disse, conseguirá zerar a fila da creche, muito menos “em breve”.

Em relação ao número de matrículas, os números realmente aumentaram: em março do ano passado foram 270.540 crianças matriculadas, em junho o número subiu para 277.899, em setembro para 283.556 e em dezembro, 284.179. Ou seja, foram criadas 13.639 matrículas ao longo de 2016.

Já em 2017, foram 287.122 mil crianças matriculadas em março, 288.294 em junho e 289.962. Ou seja, desde que assumiu a Prefeitura, Doria registrou 5.783 matrículas a mais em creches da prefeitura e credenciadas, conforme os números oficiais.