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Wilson Dias/ABr

Rede lança movimento por ficha limpa, mas não menciona suas pendências na Justiça

Por Luiz Fernando Menezes

4 de setembro de 2017, 17h30


O partido Rede Sustentabilidade lançou na última terça-feira (29) o movimento Lava Voto. A iniciativa incentiva eleitores a votarem apenas em candidatos que não possuem escândalos no currículo e que não rejeitaram a denúncia contra o presidente Michel Temer. No entanto, o que a sigla não menciona é que seus próprios integrantes enfrentam problemas na Justiça.

Aos Fatos checou algumas declarações feitas ao longo do programa partidário em que a sigla lançou a nova proposta. Veja abaixo o resultado.


EXAGERADO

No Brasil, 26 partidos estão envolvidos em escândalos. A Rede não faz parte dessa lista.

A afirmação segundo a qual 26 partidos estão envolvidos em escândalos encontra respaldo em um levantamento publicado pela revista Veja em abril a partir de dados que constam das delações da Odebrecht. De fato, a Rede não integra o time de legendas sob suspeita nesse caso.

Porém, existem sim políticos ligados à legenda mencionados em escândalos, inclusive no âmbito da Lava Jato: o senador Randolfe Rodrigues (AP), o sociólogo Pedro Piccolo Constesini, os prefeitos Audifax Barcelos (Serra-ES) e Clécio Luís (Macapá-AP) e o deputado distrital Chico Leite respondem a acusações ou mesmo já foram condenados por irregularidades.

Randolfe Rodrigues foi citado em 2016 na delação de Carlos Alexandre de Sousa Rocha, conhecido como Ceará, que diz ter ouvido que o doleiro Alberto Youssef tinha pago R$ 200 mil ao senador enquanto ele ainda era do PSOL em troca de evitar a instalação da CPI da Petrobras. Youssef negou conhecer o senador. O ministro Teori Zavascki, morto no início deste ano, arquivou a investigação por causa das contradições.

Mais tarde, porém, Randolfe apareceu mais uma vez nas delações: o ex-diretor da Odebrecht Ambiental Alexandre José Lopes Barradas disse, em abril deste ano, ter pago R$ 450 mil a um advogado para ser repassado, via caixa dois, para a campanha do atual prefeito de Macapá, Clécio Luís, na época vereador do PSOL. O advogado, conhecido apenas como “Rafael”, teria inicialmente organizado um encontro em Brasília com Randolfe Rodrigues, padrinho político de Clécio. Randolfe, que à época também estava no PSOL, nega qualquer envolvimento. Ainda não há inquérito aberto para investigar esse caso em específico.

Outro prefeito envolvido em escândalos é Audifax Barcelos: em 2012, ficou comprovado que fez propaganda eleitoral irregular quando era candidato à prefeitura de Serra (ES) pelo PSB e teve que pagar multa.

O deputado distrital Chico Leite foi, por sua vez, acusado pelo ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda de ter pedido R$ 1,6 milhão em 2008 para financiar sua campanha em um encontro com o procurador-geral do DF da época. Chico disse que o encontro ocorreu, mas que nunca pediu dinheiro e que a acusação era uma vingança de Arruda. As investigações foram remetidas pelo ministro do STF Edson Fachin para o Tribunal Regional Federal da 1ª Região.

Já Pedro Piccolo Constesini foi identificado pela polícia, em 2013, quando ainda era membro da Comissão Executiva Nacional Provisório do Rede, como uma das sete pessoas que comandaram atos de vandalismo no Itamaraty, em Brasília, nos protestos que ocorreram em junho daquele ano.


VERDADEIRO

Só 10% dos congressistas são mulheres.

A porcentagem exata de mulheres eleitas em 2014 para o Congresso é de 10,7%, de acordo com a pesquisa da União Inter-Parlamentar sobre Mulheres no Poder. No Senado, o número é um pouco maior: 16% dos senadores são mulheres. Na Câmara, os números de 2014 eram de 10,1%. Esses dados colocam o Brasil em 154º lugar no quesito representatividade feminina no poder numa comparação global, abaixo até de países do Oriente Médio.

Até agosto de 2017, 10,8% dos congressistas brasileiros eram mulheres: elas ocupam 9,95% dos assentos da Câmara e os mesmos 16% no Senado.

Em março deste ano, a União Inter-Parlamentar chamou a atenção para o número decrescente de ministras: enquanto em 2014 o país tinha 25,6% de representatividade feminina no Poder Executivo, em 2015 essa porcentagem caiu para 15,4% e, em março de 2017, chegamos em 4%. Hoje, contando as secretarias com status de ministério, das 28 cadeiras, só duas são ocupadas por mulheres (ou seja, 7%): o Ministério dos Direitos Humanos de Luislinda Valois (PSDB-BA) e a Advocacia Geral da União, ocupada por Grace Maria Mendonça.

Há projetos de lei que pretendem aumentar a representatividade feminina nos cargos políticos. A PEC 23/2015 é a principal: começou defendendo paridade de gênero (50%) nos assentos do Legislativo em todos os níveis mas, depois que caiu nas mãos da relatoria Simone Tebet (PMDB-MS), o número mínimo foi reduzido para 30%. Hoje, a PEC está parada na Comissão de Constituição e Justiça.


IMPRECISO

Foi a Rede e o PSOL que pediram a cassação de Eduardo Cunha enquanto os outros partidos grandes ficaram quietinhos de novo.

O pedido de cassação a que se refere a propaganda aconteceu no dia 13 de outubro de 2015, quando Rede e PSOL entraram com uma representação no Conselho de Ética da Câmara contra o então presidente da Casa, Eduardo Cunha, por quebra de decoro parlamentar.

A iniciativa de cassação, no entanto, veio do PSOL: foi a sigla que anunciou, cinco dias antes da entrada do pedido, que iria protocolar a representação diretamente no Conselho de Ética da Câmara, logo após receber o documento da Procuradoria Geral da República que confirmava que Cunha mantinha contas bancárias na Suíça. Até então, a Rede apoiava representações encaminhadas à corregedoria da Casa.

O pedido de representação endossado pela Rede foi procolado com 46 assinaturas — 32 de deputados do PT, três do PSB, duas do PROS e uma do PMDB. Embora se tratassem de iniciativas individuais, não é totalmente correto dizer que partidos maiores não fizeram nada.