Aos Fatos

Tânia Rêgo/Agência Brasil

Não é verdade que 94% dos brasileiros apoiam intervenção militar

Por Tai Nalon

25 de maio de 2018, 19h40


Não procede a informação publicada pelo site Jornal do País de que "94% da sociedade brasileira quer uma intervenção militar". O texto, que tem apenas dois parágrafos sem muitos detalhes, foi marcado como falso na ferramenta de checagem do Facebook (entenda como funciona). Aos Fatos investigou do que se trata.


FALSO

Clamor: 94% da sociedade brasileira quer uma intervenção militar

Sem atribuição de autor, data e metodologia de pesquisa, o link foi publicado pela página Pensa Brasil nesta sexta-feira (25) no Facebook e apresentava, às 19h30 do mesmo dia, mais de 1.800 compartilhamentos. Anteriormente, já havia sido postado pela mesma página em 21 de agosto de 2017. O post se limita a trazer informações infundadas a partir de uma enquete de 1 de agosto de 2017 do site NBO Quiz. Uma busca por essa enquete nesse site, por sua vez, traz apenas a seguinte informação: "Uma pesquisa em andamento, realizada pelo Noticias Brasil Online aqui no NBOquiz aponta que 94% da população quer uma Intervenção Militar no Congresso Nacional".

Já o Jornal do País registra, assim mesmo, em caixa alta: "QUANDO ACONTECER VAI SER A MAIOR ALEGRIA, POSSO ATÉ VER AS PESSOAS ABRAÇANDO OS SOLDADOS PELAS RUAS DO BRASIL, AS MULHERES ENTREGANDO FLORES AOS NOSSOS BRAVOS SOLDADOS. SONHO TODAS AS NOITES COM O FECHAMENTO DO CONGRESSO NACIONAL E UM NAVIO ANCORADO CHEIO DE POLÍTICOS AGUARDANDO".

Não fica claro se é um texto de opinião, já que não há sequer informação de autoria. O site Jornal do País não tem formulários de contato em funcionamento nem expediente. Nos links relacionados a esse mesmo texto, há chamadas para outras notícias falsas, como, por exemplo, "Ministra Carmen Lucia está prestes a convocar as Forças Armadas e fechar o Congresso, diz senador".

No entanto, não há qualquer pesquisa de opinião confiável que dê amparo a esses números. Além disso, não é possível medir a opinião da população sobre uma eventual intervenção militar por meio de enquetes digitais. Em certas sondagens desse tipo, sequer há garantia de que a mesma pessoa votou uma ou mais vezes.

Institutos de pesquisa costumam fazer esse tipo de levantamento com rigor estatístico, de modo que a quantidade de pessoas ouvidas seja representativa não apenas geograficamente, mas também em relação à instrução, renda e idade. Por isso, essa é a melhor maneira de averigar a opinião da população como um todo a respeito dos mais variados temas — o endosso a um regime ditatorial é um deles.

É o caso, por exemplo, de uma pesquisa Datafolha publicada em 3 de outubro de 2017. A partir desse levantamento, o instituto identificou que, para 56% dos brasileiros adultos, a democracia é "sempre melhor que qualquer outra forma de governo". Para 21% dos entrevistados, tanto faz se o governo é uma democracia ou uma ditadura. Porém, para 17%, "em certas circunstâncias", é melhor uma ditadura do que uma democracia. Uma parcela de 5% não opinou.

De acordo com a pesquisa, conforme aumenta o grau de escolaridade e a renda familiar mensal dos entrevistados, aumenta o apoio à democracia. Houve registro, porém, de oscilação para baixo no apoio ao regime democrático e para cima no apoio ao regime autoritário em relação a sondagem anterior: 62% apoiavam a democracia em julho de 2016 e 14% apoiariam uma ditadura em certas circunstâncias em julho de 2016.

O Datafolha foi a campo nos dias 27 e 28 de setembro de 2017, quando realizou 2.772 entrevistas presenciais em 194 municípios do país. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O nível de confiança da pesquisa é de 95%.