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Wilson Dias/Agência Brasil

Na Jovem Pan, Doria infla números de seu programa de policiamento por drones

Por Luiz Fernando Menezes

18 de julho de 2018, 19h30


O ex-prefeito de São Paulo e pré-candidato ao governo do Estado de São Paulo, João Doria (PSDB), inflou números do programa de policiamento por drones na capital paulista e citou informações sobre atendimento a dependentes químicos que não foram encontradas nas bases de dados oficiais nem confirmadas pelos órgãos públicos responsáveis. As declarações do tucano foram colhidas em sabatina na rádio Jovem Pan na última sexta-feira (13).

Confira abaixo o que checamos.


EXAGERADO

Colocamos aqui a Dronepol, a primeira polícia de drone do país. Oito drones de alta tecnologia vigiam a cidade 12 horas por dia e enviam imagem para o COPOM.

A declaração de João Doria recebeu o selo EXAGERADO porque, na verdade, o programa citado conta hoje com apenas quatro drones para policiamento, e não oito. Esses equipamentos vigiam a cidade de São Paulo apenas três vezes por dia, em turnos que, somados, não chegam a 12 horas, como afirmara o tucano na sabatina.

Lançado em abril de 2017, o Dronepol é um programa da Prefeitura de São Paulo para que, com auxílio de drones, a GCM (Guarda Civil Metropolitana) e a Defesa Civil possam monitorar áreas de difícil acesso, ocupações em áreas de risco e grandes eventos. No início, foram empregados cinco drones e 15 kits de câmeras doados pela iniciativa privada.

Entretanto, diferentemente do que foi dito por Doria à Jovem Pan, hoje estão em operação seis drones, segundo a Secretaria Municipal de Segurança Urbana. Destes, somente quatro são usados no policiamento, especialmente na localização de esconderijos de drogas e de pontos de tráfico. Os outros dois, equipados com boias salva-vidas, auxiliam em trabalhos de salvamento. Atualmente, são 11 os operadores da Guarda Civil licenciados na ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) para manejar as aeronaves.

Além disso, a secretaria informou que os drones são usados três vezes ao dia. Somadas, essas três ocasiões não perfazem 12 horas diárias, segundo o órgão, o que contraria a declaração do pré-candidato tucano ao Palácio dos Bandeirantes.

Ao verificar o trecho em que Doria diz ser essa a “primeira polícia de drone do país”, Aos Fatos não encontrou programas similares lançados antes de abril de 2017 nos demais estados do Brasil. Porém, a reportagem identificou experiências feitas por órgãos públicos que são anteriores à iniciativa paulistana.

No final de 2012, por exemplo, a Polícia Federal utilizou um drone para seguir uma embarcação na tríplice fronteira do Brasil com o Paraguai e a Argentina. Já em 2013, a Polícia Civil de Santa Catarina lançou mão deste tipo de equipamento para auxiliar na prisão de um casal suspeito de tráfico de drogas no município Santa Cecília. Essas ações foram realizadas antes mesmo da regulamentação dos drones pela Anac, que aconteceu somente em maio de 2017.

Segundo reportagem do jornal O Estado de S.Paulo de maio último, 36 órgãos de segurança pública e defesa civil do país já utilizam drones hoje. Em São Paulo, fazem uso de aeronaves não tripuladas, além da GCM, a Secretaria da Administração Penitenciária — para varreduras em presídios — e o Tribunal de Contas do Município — que contratou uma empresa para registrar imagens em três fiscalizações de obras.

Como já foi mostrado por Aos Fatos, o Dronepol é um dos projeto lançados pela gestão Doria com intuito de modernizar a segurança pública da capital. Além dele, o prefeito também colocou em operação o programa City Câmeras, que integra as imagens captadas pelas câmeras de segurança da cidade e as transmite para o Comando da GCM, que as compartilha com os outros órgãos de segurança pública da cidade.


INSUSTENTÁVEL

Mais de 13 mil atendimentos foram feitos em 12 meses nessa área [tratamento de dependentes químicos]. Mais de 1.400 foram internados e estão em tratamento clínico agora.

Essa declaração foi classificada como INSUSTENTÁVEL por três motivos: 1. Aos Fatos não identificou dados oficiais públicos e acessíveis que pudessem corroborar ou refutar a afirmação do tucano sobre o número de atendimentos e internações de dependentes químicos; 2. os órgãos responsáveis por essas informações não responderam às solicitações da reportagem para confirmar ou negar a versão apresentada pela assessoria do ex-prefeito; 3. o número de 13 mil atendimentos foi encontrado apenas em uma publicação do G1 de maio do ano passado em referência à quantidade de exames realizada pela prefeitura paulistana nos últimos quatro anos e meio, e não só em 12 meses.

Na entrevista à Jovem Pan, João Doria citou tais dados para defender que, em sua gestão à frente da Prefeitura de São Paulo, houve uma forte ação contra o crime organizado na cracolândia e também no tratamento de dependentes químicos.

Questionada por Aos Fatos, a assessoria do ex-prefeito afirmou que a informação de 13 mil “diz respeito ao número total de atendimentos realizados, que não compreende apenas internações, mas também atendimentos” feitos no CAPS AD III Prates (Unidade Avançada do Centro de Atendimento Psicossocial Álcool e Drogas III Prates), inaugurado em 26 de maio de 2017. Segundo a assessoria, nos últimos 12 meses encerrados em 10 de abril deste ano, teriam ocorrido 8.155 atendimentos e mais 5.534 internações voluntárias, somando 13.689 atendimentos na cidade de São Paulo.

Para confirmar essas informações, Aos Fatos entrou em contato com o CAPS AD III Prates e com a Secretaria Municipal de Saúde, mas não obteve respostas dos órgãos até a publicação desta checagem.

Vale lembrar que o tratamento dos dependentes químicos na capital foi alvo de polêmicas na época: a Justiça paulista autorizou a prefeitura a levar os usuários de drogas compulsoriamente para uma avaliação médica, mas, poucos dias depois, o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) cassou a decisão. Segundo a Folha de S.Paulo, entretanto, a maioria dos moradores da cidade defendia a internação compulsória dos usuários.


VERDADEIRO

São Paulo tem os melhores índices de segurança do país [em relação aos homicídios].

O levantamento nacional mais atual é o do Atlas da Violência de 2018, com dados de 2016. Segundo a pesquisa, São Paulo registrou naquele ano o menor índice de homicídios do Brasil: 10,9 mortes a cada 100 mil habitantes.

Mais adiante na entrevista, Doria citou índice de 7,4 homicídios para cada 100 mil pessoas. Nesse caso, ele provavelmente se referia à taxa de homicídios dolosos de 2017, que, segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, foi de 7,54. No entanto, esse dado ainda não foi comparado com o de outros estados em levantamentos nacionais, como o Atlas da Violência.

Outro lado. Procurada para comentar as checagens, a assessoria de João Doria não respondeu até a publicação desta reportagem.