Aos Fatos

Carine Wallauer/UOL

Doria exagera ao falar de investimento em segurança e fila de exames

Por Ana Rita Cunha, Luiz Fernando Menezes e Judite Cypreste

12 de junho de 2018, 11h00


O pré-candidato do PSDB ao governo de São Paulo, João Doria, confundiu dados de estoque de medicamentos e considerou solucionado o problema das filas dos exames, que voltaram a crescer. As declarações foram feitas nesta segunda-feira (11) durante a sabatina que é promovida pelo UOL, pelo jornal Folha de S.Paulo e pelo SBT com os pré-candidatos ao Palácio dos Bandeirantes nas eleições deste ano.

Na entrevista, o ex-prefeito da capital paulista também exagerou ao comentar sobre investimento na Guarda Municipal. Ele também falou de doação de campanhas eleitorais. Em parceria com o UOL, checamos algumas declarações. Confira abaixo.


EXAGERADO

O problema [da fila] dos exames de imagens foi resolvido.

Com a promessa de zerar a fila de exames na capital paulista, a gestão de Doria criou o programa Corujão da Saúde que ficou responsável por realizar 485,3 mil exames remanescentes de 2016. De acordo com a Prefeitura de São Paulo, a fila foi zerada 83 dias após o início do programa. No entanto, a declaração foi considerada como EXAGERADA porque o tempo de espera por exames cresceu ao longo do mandato de Doria.

Em maio deste ano, um levantamento da Folha de S.Paulo apontou que, dos 163.473 exames na fila em fevereiro, 130.474 demoravam mais que 60 dias para serem realizados.

De acordo com a reportagem, três dos cinco diagnósticos realizados pelo programa apresentaram aumento nas filas de espera entre julho de 2017 e fevereiro deste ano. A mamografia passou de 18 para 42 dias, ecocardiografia transtorácica, de 43 para quase 75 dias, e a densitometria óssea foi de 45 para 46 dias.

Ainda de acordo com o levantamento, os exames da segunda fase do programa, designada para a realização de exames mais complexos, também possuem uma fila de espera maior que 60 dias. Um exame de monitoramento cardíaco passou de 89 dias de espera, em julho de 2017, para 105 dias em fevereiro deste ano. Vale ressaltar que a segunda fase do Corujão tem como objetivo a realização de exames mais demorados e que podem requerer a sedação dos pacientes.

Em 2017, o pré-candidato afirmou que as demandas seriam atendidas dentro de um prazo aceitável de 60 dias, sendo as mais urgentes no limite de 30 dias. No Programa de Metas, a previsão é reduzir o tempo médio de espera de exames prioritários para 30 dias até 2020. Atualmente, a espera é de 45 dias, em média.


IMPRECISO

Remédio rápido eliminou o déficit de medicamento nas UBS e nas AMAs, que era grotesco. Tínhamos 15% apenas de medicamentos nas prateleiras dessas farmácias e, hoje, a média é 94%.

A declaração de Doria é IMPRECISA porque o déficit de 15% não é referente ao estoque das farmácias das AMA (Unidade de Assistência Médica Ambulatorial) e UBS (Unidade Básica de Saúde), de acordo com a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo. Em nota enviada por e-mail, a assessoria informou a Aos Fatos que 15% era o déficit do almoxarifado central do município em fevereiro de 2017 -- antes do início do programa Remédio Rápido, que foi criado pela gestão de Doria para regularizar o abastecimento de remédio nas 570 farmácias da rede municipal.

Ainda de acordo com a assessoria, na época, a média de estoque nas farmácias era próxima a 40%, — esse número, no entanto, refere-se a todas as farmácias da rede, não apenas as presentes nas AMA e UBS.

Doria também é impreciso ao citar o dado da situação atual, pois o índice de abastecimento em torno de 94% para os principais medicamentos distribuídos hoje não diz respeito somente às UBS e AMA, mas a todas as farmácias da rede municipal, como informa a nota enviada pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo (leia a íntegra na checagem abaixo).


VERDADEIRO

Os problemas de cirurgias, o Corujão da cirurgia já realizou mais de 41 mil cirurgias de alta e média complexidade.

Lançado em maio do ano passado pela gestão de Doria, o Corujão da Cirurgia teve como objetivo zerar a fila de espera por intervenções médicas no município de São Paulo. De acordo com a prefeitura, 68 mil pacientes aguardavam por algum procedimento deste tipo em maio de 2017. O programa foi dividido em quatro fases, de acordo com a complexidade das cirurgias realizadas.

A Secretaria Municipal de Saúde não divulga em seu site nenhum dado oficial sobre o número de cirurgias. Por e-mail, a assessoria do órgão informou que foram realizadas 44,5 mil cirurgias até o dia 30 de maio. Atualmente, 121.958 pacientes aguardam por uma avaliação cirúrgica. Segundo a secretaria, a estimativa é de que 30% das avaliações resultem em alguma cirurgia.


EXAGERADO

Investimos fortemente para reequipar e melhorar a guarda civil.

De acordo com o balanço orçamentário da Prestação de Contas da Prefeitura de São Paulo, não houve gasto orçamentário nem na compra de armamentos e equipamentos em geral e nem em modernizações e reformas das instalações da GCM (Guarda Civil Metropolitana) em 2017. Todo o orçamento da prefeitura destinado à GCM no ano passado — cerca de R$ 25,1 milhões — foi empregado em operação e manutenção.

O orçamento destinado à GCM pela gestão de Doria foi menor do que o repassado na gestão anterior. Em 2016, ainda no governo Fernando Haddad (PT), foram repassados para a GCM R$ 27,4 milhões (valores ajustados de acordo com a inflação). No ano anterior, as despesas com a GCM foram de R$ 29,5 milhões.

Pela a lei orçamentária de 2018, a prefeitura pretende repassar R$ 56 milhões para a autarquia até o final do ano: além de uma quantia maior destinada à operação e à manutenção da GCM, também estão previstos cerca de R$ 4,5 milhões em modernização e reforma das instalações. O valor é maior do que o orçamento aprovado para o órgão em 2017. No entanto, o valor previsto para a GCM costuma ser bem maior do que o gasto. Em 2017, por exemplo, a quantia aprovada foi de R$ 39,4 milhões, sendo R$ 2 milhões apenas para modernização das instalações da GCM e R$ 600 mil para aquisição de armas e equipamentos. O valor efetivamente repassado para despesas da GCM, no entanto, foi 36% menor e nenhum valor foi gasto na modernização e nem na aquisição de armas e equipamentos.

Vale lembrar que, em sua gestão, Doria lançou programas que visavam a modernização da GCM: o City Câmeras, que colocou em operação um sistema de “integração das imagens que serão transmitidas para o Comando da Guarda Civil Metropolitana e compartilhadas com os demais órgãos de segurança (Polícia Militar e Civil)” e o Dronepol, criado para a GCM monitorar locais que apresentam dificuldades de acesso, como ocupações em áreas ambientais ou de risco e eventos com grande afluxo de pessoas. Os equipamentos — drones e kits de câmeras — foram doados pela iniciativa privada, sem investimento da prefeitura.

Portanto, mesmo que a gestão Doria tenha apresentado dois programas de modernização da GCM, não houve investimento por parte da prefeitura (os drones e câmeras foram doados). Logo, é EXAGERADO dizer que investiram no reequipamento e na melhoria da Guarda.


IMPRECISO

Até então [em 2014], não havia nenhum tipo de problema que pudesse conferir ao Rodrigo [Rocha Loures] qualquer tipo de desconfiança.

Ao ser questionado pela doação de R$ 50 mil reais que fez à campanha a deputado federal de Rodrigo Rocha Loures, Doria afirmou não ser “uma pitonisa” capaz de prever o futuro, referindo-se ao fato de o deputado afastado ter aparecido em imagens recebendo uma mala de dinheiro com R$ 500 mil de um executivo da JBS, no ano passado. Doria disse ainda conhecer Rocha Loures e sua família.

A operação Lava Jato, no entanto, não foi a primeira vez em que Rodrigo Rocha Loures esteve envolvido em irregularidades. Em 2004, quando era presidente da Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná) ele foi alvo de uma representação no TCU (Tribunal de Contas da União) por irregularidades nas contas da entidade. O processo investigava a denúncia de que as entidades IEL, Sesi e Senai tinham repassado R$ 827 mil ao Instituto Paraná de Desenvolvimento (que também era dirigido por Loures) sem apresentar comprovação de despesa ou missão institucional.

Também foram apontados como indícios de irregularidades pagamentos para viagens ao Canadá em nome do irmão de Loures, despesas pessoais de sua filha e pagamentos a título de prestação de serviço para outros familiares. Na época, em nota à imprensa, Rocha Loures afirmou que as acusações contra sua gestão eram “equivocadas e ofensivas” e que confiava “na serenidade e na sensibilidade do tribunal e de seu presidente para o rápido esclarecimento desta situação inadmissível”.

Em julho de 2017, os ministros do tribunal concluíram que houve irregularidade nas contas do Sesi e Senai. Como Rodrigo Rocha Loures acumulava o cargo de presidente da Fiep, presidente do IEL/PR e dos conselhos do Sesi/PR e do Senai/PR, o envolvimento dele no desvio de dinheiro está sendo avaliado em um processo separado no TCU, ainda em andamento.

Como o processo ainda corre e a sentença não foi proferida, Aos Fatos dá o selo de IMPRECISO à declaração.


IMPRECISO

Não recebi recursos da JBS, nem da Odebrecht, nem de nenhuma construtora.

Na eleições municipais de 2016, João Doria não recebeu — e nem poderia receber — doações de construtoras. Desde 2015, entrou em vigor a Resolução nº 23.463 que é responsável, entre outras coisas, por proibir as doações de pessoas jurídicas aos candidatos. Apesar disso, a campanha do político contou com doação de empresários do setor de construção, por isso, a declaração de Doria foi considerada IMPRECISA.

Doria arrecadou R$ 12,5 milhões para a campanha à prefeitura de São Paulo. Além do autofinanciamento (ele doou R$ 4,4 milhões para a própria campanha), o tucano também contou com apoio de empresários, incluindo os do setor de construção civil. Um deles é o empresário sírio Elie Horn, que, em 2015, deixou a presidência da construtora Cyrela Brazil Realty. O empresário doou R$ 100 mil, o equivalente a 8% do total da campanha. Além de ex-presidente, Horn é fundador da Cyrela.

Outros empresários da construção que doaram dinheiro para campanha de Doria foram Emilio Rached Esper Kallas, presidente da Construtora Kallas, que doou R$ 50 mil e Antranik Kissajikian, que doou R$ 20 mil para a campanha do ex-prefeito.