Aos Fatos

Marcelo Odebrecht não disse que governos do PT enviaram dinheiro para traficantes

Por Luiz Fernando Menezes

22 de abril de 2019, 15h43


É falso que, em sua delação premiada, o empresário Marcelo Odebrecht teria afirmado que os governos do PT enviaram dinheiro para traficantes do Rio de Janeiro, para as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e para milicianos em outros países. A desinformação consta na legenda de um vídeo que circula nas redes sociais com reportagem da GloboNews de abril de 2017 onde ex-executivo da empreiteira admite que a empresa, não o governo ou o partido, tinha o costume de pagar a esses grupos para trabalhar em locais dominados por eles.

O conteúdo foi republicado por diversas páginas, como Anti Comunismo, e perfis pessoais no Facebook, e acumulava mais de 8.000 compartilhamentos até a tarde desta segunda-feira (22). Todas as publicações com o mesmo conteúdo foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona). Uma série de canais no YouTube também postou o vídeo com a legenda enganosa.


FALSO

Marcelo Odebrecht afirma em depoimento à justiça que governo PT mandou dinheiro para o narcotráfico do Rio, as Farc, sequestradores e traficantes internacionais.

A legenda acima acompanha um vídeo com reportagem da GloboNews veiculada em abril de 2017 sobre um dos depoimentos do empresário Marcelo Odebrecht. As informações contidas nela, porém, são FALSAS, pois não constam no depoimento do ex-executivo nem na narração da jornalista da emissora.

Odebrecht, na verdade, afirmou que a empreiteira tinha o costume de usar caixa dois para pagar traficantes, milicianos e guerrilheiros para conseguir atuar nas áreas sob seu controle, inclusive nas favelas do Rio de Janeiro. Segundo ele, a empreiteira pagou, por exemplo, uma quantia mensal que variava de US$ 50 mil a US$ 100 mil para as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em troca de uma permissão para atuar nos territórios dominados. Esses pagamentos começaram nos anos 1990, após a guerrilha sequestrar dois executivos da empresa.

No depoimento, Marcelo Odebrecht diz ter participado, em 2007, com os governos da Itália do Brasil, então sob o comando do ex-presidente Lula, de uma negociação com sequestradores para a liberação do corpo do engenheiro da Odebrecht João José Vasconcellos Júnior, sequestrado e morto enquanto trabalhava no Iraque.

“Você não entra em países com guerrilha e favelas no Rio sem pagar milícias. Então, tem muito dinheiro que corre, inclusive você paga sequestro. Pra trazer o corpo de um engenheiro nosso que foi sequestrado no Iraque, eu participei, junto com os governos brasileiro e italiano, de uma negociação. A gente deu, se não me engano, US$ 1 milhão, US$ 5 milhões de dólares, que foram pagos por fora”, disse o executivo. A menção, porém, não prova o que sugere a legenda enganosa do vídeo a respeito do envio de dinheiro por governos do PT.

A mesma legenda foi identificada em postagens que circulam no Facebook desde 2017.

Esta desinformação também foi checada pelo Boatos.org.

Outro lado. Procurados por Aos Fatos nesta segunda-feira (22), os responsáveis pela página de Facebook Anti Comunismo, uma das que disseminou a informação falsa, informaram que corrigiram a informação ao remover referência ao governo do PT de seu post.