Aos Fatos

Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Lula afirma que esquerda unida teria 60% dos votos, mas pesquisas mostram outro cenário

Por Luiz Fernando Menezes e Bárbara Libório

26 de março de 2018, 08h26


Enquanto o STF não julga o pedido de habeas corpus do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva — que foi adiado até a próxima sessão plenária do Supremo, no dia 4 de abril — o petista continua com sua caravana “Lula pelo Brasil”, que passa agora pela região Sul do país.

Na última sexta-feira (23), Lula usou seu perfil no Twitter para criticar o atual governo e compará-lo com seu mandato. Aos Fatos checou quatro de suas declarações.


FALSO

Com toda as divergências que tem a esquerda, temos mais de 60% dos votos juntos.

Em julho de 2017, na última pesquisa do Datafolha que separou o eleitorado de acordo com seu posicionamento em relação a questões que envolviam valores sociais, políticos, culturais e econômicos, os brasileiros se dividiram quase que igualmente entre esquerda e direita.

De acordo com o levantamento, a direita — considerando tanto a direita como a centro-direita — abrangia 40% da população, a esquerda — considerando tanto a esquerda como a centro-esquerda — abrangia 41% e o centro era a posição ideológica de 20% do eleitorado.

Em uma pesquisa mais recente, feita pelo Instituto Paraná Pesquisas a pedido do jornal Gazeta do Povo, as ideologias políticas do eleitorado também aparecem quase empatadas: 22,6% se dizem de direita, 23,5% de centro e 21,4% de esquerda. Vale ressaltar que, nesse levantamento, a metodologia utilizada foi perguntar qual posicionamento político o entrevistado considerava ter. Outro dado interessante é que 25,4% disse não ter posicionamento político.

Caso Lula esteja se referindo à soma das intenções de voto, ele também está errado. De acordo com as últimas simulações do Datafolha, em uma eleição na qual todos os candidatos de esquerda estejam concorrendo, eles teriam, juntos, 41% das intenções: Lula com 34%, Ciro com 6%, Manuela D’Ávila com 1% e Guilherme Boulos com 0%.

Já na pesquisa mais recente, feita pelo CNT/MDA, a soma seria ainda menor: 38%. Na simulação com todos os candidatos, Lula aparece com 33%, Ciro Gomes com 4% e Manuela D’Ávila com 1% (Guilherme Boulos não foi levado em consideração na pesquisa).


INSUSTENTÁVEL

[Os agricultores familiares são] responsáveis por 70% da produção que vai à mesa do brasileiro.

O dado citado pelo ex-presidente já foi reproduzido diversas vezes por autoridades. Em 2011, o site do governo federal publicou uma reportagem afirmando que a agricultura familiar produz 70% dos alimentos consumidos no Brasil. Em outra matéria, de 2017, da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário, os números são creditados ao Ministério do Desenvolvimento Social. Não há, no entanto, estudos que corroborem a afirmação.

Em 2015, o estatístico Rodolfo Hoffman, doutor em economia agrária pela Universidade de São Paulo, se debruçou sobre o dado. Em seu artigo “A agricultura familiar produz 70% dos alimentos consumidos no Brasil?”, ele aponta algumas falhas. “Falar em ‘70% dos alimentos’ torna necessário definir o total de alimentos. Somam-se toneladas de soja com toneladas de uva e toneladas de açúcar? Toneladas de açúcar ou toneladas de cana-de- açúcar? Toneladas de trigo, de farinha de trigo ou de pão? Toneladas de soja ou de óleo de soja? Dada a grande heterogeneidade dos alimentos, é um absurdo somar as quantidades físicas”.

Ele atenta ao fato de que os agricultores familiares não produzem 70% de cada alimento que vai à mesa do brasileiro, ou seja, 70% do arroz, do feijão, da carne, da batata, etc. Segundo o último Censo Agropecuário, realizado em 2006, a participação da agricultura familiar foi de 83,2% da produção de mandioca, 69,6% da produção de feijão — se agregarmos todos os tipos do grão —, 33,1% da produção de arroz em casca, 14% da produção de soja, 45,6% do milho em grão, 21% do trigo e 38% do café em grão. Em resumo, o único alimento em que a participação da agricultura familiar excede os 70% é a mandioca. Ainda assim, segundo ele, trata-se da participação na produção total dessa lavoura, e não da contribuição para a alimentação dos brasileiros. Na pecuária, a participação também foi menor: os agricultores familiares tinham 29,7% do número de cabeças de bovinos, 51,2% das aves e 59,0% dos suínos.

Um outro caminho poderia ser a análise econômica: o valor de mercado da agricultura familiar. Mas dados do Censo mostram que o valor anual da produção da agricultura familiar é de R$ 54,5 bilhões, 33,2% do total, enquanto o da agricultura não familiar é de R$ 109,5 bilhões, 66,8% do total. Ele também mostra que nem no total da despesa com alimentação das famílias a participação da agricultura familiar excede os 70%: em 2009, estaria em 21,4%.


VERDADEIRO

Quando deixei a Presidência tinha 87% de bom e ótimo…

O dado citado pelo ex-presidente vem da pesquisa do CNI/Ibope de 2010. Em seu último mês de mandato, Lula tinha 87% de aprovação, batendo o próprio recorde de popularidade (85%, em 2003).

O Datafolha também divulgou, na mesma época, resultados semelhantes: no final de seu mandato, 83% dos brasileiros consideravam o governo petista como ótimo ou bom, 13% como regular e 4% como ruim ou péssimo.


IMPRECISO

... diferente do "presidente" de hoje, que tem 93% de rejeição.

Em relação à desaprovação de Temer, se levarmos em consideração a mesma fonte — CNI/Ibope —, em dezembro do ano passado, 74% da população considerava seu governo como ruim ou péssimo.

No entanto, provavelmente o dado ao qual se refere Lula vem do Barômetro Político Estadão Ipsos: atualmente, a taxa de rejeição pessoal está em 94%. O ex-presidente, porém, omite que sua desaprovação, mesmo sendo uma das menores, segundo a mesma pesquisa, é de 57%.

Já de acordo com a última pesquisa feita pelo Datafolha, em janeiro, o governo de Michel Temer é ruim ou péssimo para 70% da população brasileira. É verdade que a aprovação do presidente é de apenas 6%, mas não se pode afirmar que o restante desaprove Temer: 22% consideram o governo regular e 2% preferiram não opinar sobre o assunto.

Como o ex-presidente não explicitou qual seria a fonte das informações, Aos Fatos classificou a declaração como IMPRECISA.

Outro lado. De acordo com sua assessoria, a declaração completa foi dada em entrevista à Rádio Super Condá e contava os votos válidos: “Com toda a divergência que possa ter a esquerda, se você pegar uma somatória dos votos do Ciro, dos votos da Marina, dos votos dos outros partidos e pegar os meus, nós temos mais de 60% dos votos no primeiro turno”. Entretanto, nem o Datafolha nem o CNT/MDA realizaram esse cálculo com os votos válidos. Vale ressaltar que, mesmo somando as intenções de voto da pré-candidata, ainda não chegaria aos 60% citados pelo ex-presidente: de acordo com o Datafolha, o total seria 49%, e segundo o CNT/MDA, 46%.

Sobre o dado da desaprovação de Temer, o ex-presidente queria dizer “rejeição pessoal” e não “rejeição do governo” e, por isso, se referia à pesquisa do Barômetro Político Estadão Ipsos. Já em relação à porcentagem dos agricultores familiares, sua assessoria disse que “o questionamento do dado parece ser baseado nos resultados de primeira página de uma pesquisa do Google, onde aparece o artigo do estatístico”.

Este texto foi atualizado em 27.mar.2018, às 18h16, para acrescentar uma informação que a reportagem, por erro, não publicou no Outro Lado: que o presidente se referia aos votos válidos em sua conta.