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Alan Santos/PR

Em pronunciamento, Temer infla desempenho econômico do seu governo

Por Bernardo Moura e Luiz Fernando Menezes

24 de abril de 2018, 01h10


O presidente Michel Temer (MDB) fez um pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV na última sexta-feira (20) para defender seu governo. Ele listou uma série de ações positivas, sobretudo na área econômica, mas inflou algumas delas.

Aos Fatos checou algumas dessas declarações. Veja abaixo o resultado.


IMPRECISO

Falo da menor inflação [...] de todos os tempos.

Não é verdade que a inflação em seu governo é a menor de todos dos tempos. A série histórica do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) mostra que, entre agosto de 1998 e fevereiro de 1999, o país passou por um período com inflação abaixo dos 2,68% registrados em março deste ano. Em dezembro de 1998 e janeiro de 1999, o IPCA acumulado em doze meses ficou em 1,65%.

A declaração estaria correta se Temer tivesse dito que foi a menor inflação de todos os tempos no acumulado em doze meses registrados em março, como mostra o gráfico acima. Nesse caso, a inflação do mês passado (2,68%) fica abaixo da registrada em março de 2007 (2,96%), que antes detinha esse posto.

A íntegra da frase dita por Temer é esta: "Falo da menor inflação e dos menores juros de todos os tempos que protegem, o dinheiro do trabalhador, seu poder de compra, com mais crédito e mais tranquilidade". Ou seja, ele não delimita o período de tempo. Por isso, Aos Fatos classifica a afirmação como IMPRECISA.


VERDADEIRO

... dos menores juros de todos os tempos…

O presidente acerta ao afirmar que o atual patamar de juros é o menor “de todos os tempos” — ao menos no que diz respeito ao período em que há dados disponíveis. A série histórica começa em 26 de junho de 1996, ano em que foi criado o Copom (Comitê de Política Econômica), que regula o comportamento da taxa básica de juros Selic no país. Atualmente, a Selic está em 6,5% ao ano.

Vale ressaltar que o atual governo começou com a taxa Selic em 14,25% ao ano (dados de junho de 2016, primeiro mês do governo Temer disponível na série histórica). No fim daquele ano, os juros já tinham baixado para 13,75% ao ano e, em dezembro de 2017, para 7% ao ano.


IMPRECISO

... que protegem o dinheiro do trabalhador, seu poder de compra…

O saldo da crise econômica ainda está negativo em relação ao poder de compra dos brasileiros. Os baixos patamares de inflação e juros ainda não refletiram totalmente na recuperação do poder de compra do trabalhador, como afirma o presidente no pronunciamento. A renda per capita do brasileiro teve crescimento mais acentuado entre 2003 e 2014, quando o país saiu de US$ 9.790 anuais para US$ 16.310 anuais per capita, de acordo com dados do FMI (Fundo Monetário Internacional).

A renda per capita, porém, foi depreciada em 2015 e 2016, anos agudos da crise econômica, chegando a US$ 15.290 anuais. No ano passado, houve uma pequena recuperação, alcançando US$ 15.600, e o FMI projeta renda per capita anual de US$ 16.200 para 2018 — o que ainda não cobre as perdas desde 2014.

segundo a PNAD Contínua, do IBGE, a renda média do trabalhador brasileiro foi de R$ 2.186 entre janeiro e março deste ano - um recorde para a série histórica iniciada em janeiro de 2012. A soma é ligeiramente superior (R$ 5) ao recorde anterior, de R$ 2.181, aferido no trimestre janeiro-março de 2015 - quando o país passou a sentir com mais força os efeitos da crise financeira.


IMPRECISO

... com mais crédito…

Diferentemente do que sugere Temer em seu pronunciamento, a oferta de crédito ainda não retomou o patamar pré-crise, segundo o Banco Central. Em fevereiro deste ano, o saldo das operações de crédito do sistema financeiro do país chegou a R$ 3,062 bilhões — uma retração de 0,3% em relação ao mesmo período do ano passado.

No entanto, para pessoas físicas, o saldo das operações de crédito foi maior no mesmo período: 5,79%, passando de R$ 1,567 bilhão em fevereiro de 2017 a R$ 1,657 bilhão no mesmo mês deste ano, de acordo com o BC.

Ou seja, a afirmação do presidente só é válida para pessoa física — e, por isso, IMPRECISA. Empresas ainda têm dificuldade de acesso ao crédito.


VERDADEIRO

Falo da volta do crescimento econômico…

O PIB (Produto Interno Bruto) avançou 1% em 2017, após dois anos de retração. Para 2018, analistas do mercado ouvidos pelo Banco Central esperam crescimento de 2,7%, de acordo com o último boletim Focus — percentual este que já foi revisado para baixo por três vezes neste ano.


IMPRECISO

... e do projeto do maior salário mínimo da história.

Também foi tímida a contribuição do governo Temer para que o salário mínimo ultrapassasse a marca de R$ 1.000 — que, de fato, é o maior salário mínimo da série histórica. A questão é que, por força da lei, qualquer governo é proibido de diminuir o salário mínimo. A lei 13.152/2015 estabeleceu a política de valorização do salário mínimo para os anos de 2016 a 2019 e, conforme o texto, seu valor deverá de ser reajustado anualmente conforme fórmula baseada na inflação oficial do período medida pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) e no resultado do PIB de dois anos antes.

O que Temer também não diz é que, no ano passado, tentou aprovar no Congresso nova lei que autorizaria a redução do salário mínimo previsto para 2018 em R$ 10. Por se tratar de medida impopular, senadores e deputados rejeitaram analisar a matéria.

Em 2017, o emedebista autorizou o reajuste do mínimo nacional em 1,81% para vigorar em 2018. Este foi o menor reajuste dos últimos 24 anos, que fez o salário mínimo nacional passar de R$ 937 para os atuais R$ 954.


VERDADEIRO

... colhemos as duas maiores safras do Brasil...

De fato, segundo estima o IBGE, em julho de 2017 o Brasil registrou uma safra recorde de cereais, oleaginosas e leguminosas, tendo colhido 242,08 milhões de toneladas. O resultado foi o maior da série histórica iniciada em agosto de 2006. O recorde superou a marca batida em fevereiro de 2016, quando o IBGE verificou 211,345 milhões de toneladas colhidas no país. Já o último dado disponível, de março de 2018, estima colheita de 229,269 milhões de toneladas.


IMPRECISO

Os postos de trabalho estão ressurgindo. São quase 2 milhões nesses últimos tempos.

Mesmo não sendo claro em relação ao período referido, é fato que, desde o começo de seu governo, em maio de 2016, até fevereiro de 2018, último dado disponível, houve um crescimento de 1,92 milhão de pessoas na força de trabalho.

No entanto, os dados são da Pnad Contínua, do IBGE, que leva em consideração trabalhadores com carteira assinada, sem carteira e também os que trabalham por conta própria. Isso significa que é impreciso falar que houve a criação de quase 2 milhões de postos de trabalho, uma vez que os dados também contabilizam trabalhos precários.


A reportagem foi atualizada às 21h50 de 24 de abril de 2018 para acrescentar informações relativas à Pnad Contínua na checagem sobre poder de compra. O selo correspondente permanece inalterado.