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Edir Macedo usa vídeo com informações falsas para minimizar pandemia do coronavírus

Por Luiz Fernando Menezes

16 de março de 2020, 15h09


O fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, bispo Edir Macedo, publicou um vídeo no domingo (15) no qual minimiza a gravidade do novo coronavírus e afirma que a pandemia é uma “tática de Satanás” e uma estratégia da mídia “para apavorar as populações e nações” (veja aqui). Para reforçar seus argumentos, o bispo compartilha na gravação um vídeo do médico patologista Beny Schmidt, que diz que o vírus não é patogênico nem letal. Essas informações, no entanto, vão contra evidências científicas e dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) que apontam que 3,9% dos casos já registrados da doença resultaram em morte. Segundo o Ministério da Saúde, o que o médico diz é "inverídico".

Em resumo o que checamos:

1. Não é verdade que o novo coronavírus não provoque doença ou sintomas. Segundo a Opas (Organização Pan-Americana de Saúde), a OMS e o Ministério da Saúde, ele causa a Covid-19, que tem como sintomas principalmente febre, cansaço e tosse seca.

2. Também é falso que o coronavírus não seja fatal. Até agora, cerca de 3,9% dos casos de Covid-19 registrados no mundo resultaram em morte, segundo a OMS.

Apesar de Edir Macedo ter apagado o vídeo de suas contas pessoais, as imagens foram replicadas por diversos perfis nas redes sociais e permanecem em circulação. No Facebook, todas as publicações que compartilham o vídeo foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona).


FALSO

O vírus não é patogênico, não é capaz de causar nem mesmo uma gripe — fala do patologista Beny Schmidt que aparece em vídeo de Edir Macedo.

No vídeo de Beny Schmidt compartilhado por Edir Macedo, o médico, que também é professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), afirma que o SARS-CoV-2 não é patogênico, ou seja, não provoca qualquer doença ou sintoma. Porém, segundo a Opas (Organização Pan-Americana de Saúde), o novo coronavírus causa a doença infecciosa Covid-19, cujos sintomas mais comuns são febre, cansaço e tosse seca. Contatada por Aos Fatos, a instituição afirmou "alguns pacientes podem ter dores, congestão nasal, corrimento nasal, dor de garganta ou diarreia. Esses sintomas geralmente são leves e começam gradualmente. Algumas pessoas são infectadas, mas não apresentam sintomas e não se sentem mal”.

Segundo o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, ainda é preciso mais investigações e tempo para a caracterização da doença. Mas, "segundo os dados mais atuais, os sinais e sintomas clínicos referidos são principalmente respiratórios.”. De acordo com a pasta, trata-se de um vírus “altamente patogênico e responsável por causar síndrome respiratória e gastrointestinal”.

Em artigo publicado no Journal of Autoimmunity, pesquisadores americanos apontaram que a Covid-19 eleva o número de leucócitos e de citocina pró-inflamatórias e causa anormalidades no aparelho respiratório. Ainda segundo o texto, o vírus pode levar ao desenvolvimento de pneumonia grave e de lesão cardíaca aguda.

Os sintomas mais comuns da infecção são febre (83% a 98%), tosse seca (76% a 82%), fadiga ou dor no corpo (11% a 44%), segundo revisão científica de pesquisas sobre pacientes chineses hospitalizados publicada na JAMA, revista da American Medical Association, no final de fevereiro. Em um dos estudos analisados, um paciente que morreu teve formações e inflamações semelhantes às da Sars (sigla em inglês para Síndrome Respiratória Aguda Grave) e da Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), doenças que também são causadas por microorganismos da família dos coronavírus.

O estudo, no entanto, aponta que mais pesquisas são essenciais “para definir melhor o espectro da doença, de assintomático a grave, e os fatores de risco para progressão e mortalidade [da COVID-19]”.


FALSO

De coronavírus a gente não morre. Esse vírus não é letal e não era necessário todo esse alarde (...) O coronavírus não é letal, não matou ninguém e não matará, porque não está na biologia dele matar — fala do patologista Beny Schmidt que aparece em vídeo de Edir Macedo.

Também não é verdade que o vírus não matou ninguém e que não é letal. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), 6.610 pessoas morreram em decorrência da infecção em todo o mundo até o dia 16 de março, 3,9% do total de 168 mil casos registrados.

Cientistas apontam que taxa de mortalidade real deve ser menor, em torno de 1%, porque muitos casos leves da doença provavelmente ainda não foram detectados. Usando dados de casos em Hubei, na China, e considerando possíveis casos não relatados, um grupo de pesquisadores da Universidade de Bern estimou a fatalidade em cerca de 1,6%. Já cientistas da LSHTM (London School of Hygiene & Tropical Medicine) calcularam 0,5%. A maioria dos estudos sobre a Covid-19 é preliminar e não foi revisada por outros acadêmicos — qualquer conclusão, portanto, precisa ser interpretada com cuidado.

O que já parece claro é que o vírus é muito mais perigoso para idosos e portadores de doenças crônicas do que para o resto da população. Segundo o estudo dos pesquisadores suíços, a taxa de mortalidade pode chegar a 18% nos infectados com mais de 80 anos, mas fica abaixo de 1% para as faixas de idade até 49 anos.

Outro lado. O Aos Fatos entrou em contato o bispo Edir Macedo por meio da assessoria da Igreja Universal na segunda-feira (17) para que pudesse se manifestar sobre a checagem. No dia seguinte (18), a assessoria da igreja enviou uma nota dizendo que " o Bispo Edir Macedo compartilhou o vídeo do Dr. Beny Schmidt porque, em princípio, deve ter crédito um especialista que possui as credenciais que ele apresenta".

A nota diz ainda que "o Bispo Macedo apagou o vídeo imediatamente, quando entendeu que as afirmações do médico não estavam alinhadas com as divulgações das autoridades".

A reportagem também entrou em contato com Beny Schmidt, médico professor de medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e que comanda o Programa Ciência Livre, mas não obteve resposta.

O vídeo de Schmidt com informações falsas sobre a gravidade do novo coronavírus tem circulado especialmente no WhatsApp desde o início da semana passada. O professor chegou a apagá-lo de suas redes sociais, mas ele foi republicado por outros usuários.

Referências:

1. Ministério da Saúde
2. Science Direct
3. JAMA
4. OMS
5. CMMID
6. Programa Ciência Livre


Esta checagem foi atualizada às 15h35 do dia 17 de março para acrescentar a nota enviada pela Igreja Universal.

De acordo com nossos esforços para alcançar mais pessoas com informação verificada, Aos Fatos libera esta reportagem para livre republicação com atribuição de crédito e link para este site.