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Luiz Fernando Menezes/Aos Fatos

Desenhamos fatos sobre a economia do Carnaval

Por Luiz Fernando Menezes

21 de fevereiro de 2020, 13h40


Considerado “o maior evento popular do país”, o Carnaval ainda é uma festa que divide opiniões. Ao mesmo tempo que muitas pessoas querem curtir o feriado, outras acreditam que a folia é um desperdício de dinheiro e argumentam que as prefeituras deveriam investir em outras áreas, como saúde e educação.

Mas o Carnaval é só folia? Aos Fatos buscou dados e entrevistou especialistas e, agora, pode afirmar que não. O feriado, além de atrair turistas, movimenta bilhões de reais todos os anos e gera milhares de empregos em diversos setores e cidades brasileiras.

Se você já cansou de ouvir quem pergunta “por que gastar dinheiro com Carnaval”, veja abaixo o resumo que Aos Fatos desenhou sobre os benefícios econômicos da festa:


Segundo levantamento do Ministério do Turismo, o Carnaval deste ano deve reunir cerca de 36 milhões de foliões nas seis cidades com as maiores festas no país (Belo Horizonte, Olinda, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo). Só na capital paulista, a expectativa da prefeitura é atrair 15 milhões de pessoas para o que ela mesma considera “o maior Carnaval de sua história”.

Já no Rio, o público esperado é de cerca de 7 milhões de pessoas, sendo 2 milhões de turistas. Apenas no último final de semana (15 e 16), a capital carioca teve a presença de 936 mil foliões em 95 desfiles de blocos de seu pré-carnaval.

O Carnaval movimenta, e muito, setores ligados ao turismo, como alimentação, transportes e hotelaria, e, por isso, costuma receber grandes investimentos do poder público. Nas seis cidades que concentram mais foliões, apenas Belo Horizonte tem o carnaval custeado integralmente pela iniciativa privada. Segundo a BeloTur, a capital mineira captou R$ 14,3 milhões por meio de edital de patrocínio.

Nas outras cinco, as prefeituras vão injetar R$ 86,7 milhões no Carnaval, seja em infraestrutura, seja em apoio a escolas de samba: no Rio de Janeiro, o investimento será de R$ 27 milhões; em Salvador, de R$ 20 milhões; em Recife, de R$ 18 milhões; em São Paulo, de R$ 14,7 milhões; em Olinda, de R$ 7 milhões.

No Rio de Janeiro e em Salvador, os governos estaduais também investem nas festas: o do Rio vai gastar R$ 9,2 milhões apenas na capital; o baiano não informou o valor destinado especificamente para Salvador, mas disse que investirá R$ 73 milhões na festa em todo o estado.

Além de verba pública, as cidades também recebem dinheiro por meio de patrocínios e parcerias com a iniciativa privada, como cervejarias. Em São Paulo, por exemplo, R$ 21,9 milhões destinados à folia vêm de uma empresa de bebidas. Já em Recife, R$ 7 milhões foram captados da iniciativa privada.

Segundo Marcelo Guedes, coordenador da Plataforma de Estudos do Carnaval da ESPM-RJ (Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro), algumas empresas privadas consideram a folia o seu “momento máximo”: “se eu sou uma cervejaria, eu vou patrocinar os blocos porque, você imagina a potencialidade, a exploração da imagem, a aderência ao público-alvo da minha cerveja”, disse ao Aos Fatos.

A oportunidade que o Carnaval gera para o investimento privado, no entanto, não significa que governos e prefeituras não devam contribuir com as festas. Para Luiz Felipe Ferreira, coordenador do Centro de Referência do Carnaval da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), o investimento público deveria ser redirecionado para a infraestrutura da cidade, a segurança, a organização do sambódromo, o receptivo de turistas e a decoração.

“Eu entendo que o poder público tem total prioridade em relação à educação, à saúde e à segurança. Mas a gente não pode se esquecer que o nosso país depende cada vez mais, por exemplo, de atividades econômicas que vão trazer receita para poder investir em todos os setores. Um deles é o Carnaval”, argumenta Guedes.

De fato, o Carnaval movimenta muito dinheiro. Segundo o último levantamento da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), a folia do ano passado teve um impacto de R$ 7,91 bilhões com atividades turísticas em todo o Brasil. Esse impacto vem aumentando desde 2017, quando as festas geraram um volume financeiro de R$ 7,73 bilhões.

A confederação estima, ainda, que neste Carnaval a movimentação financeira cresça 1% e chegue a R$ 7,99 bilhões. Mais da metade desse montante (R$ 4,8 bilhões) deve vir do setor de alimentação fora do domicílio, como bares e restaurantes. Outras áreas que devem lucrar com a folia são os transportes em geral (R$ 1,3 bilhão), serviços de hospedagem e alojamento (R$ 861 milhões), atividades artísticas e de lazer (R$ 691 milhões) e agências de viagens (R$ 270 milhões).

O livro Cadeia produtiva do Carnaval, organizado por Luiz Carlos Prestes Filho, aponta também que a data alimenta atividades fora do turismo, como bordadeiras, fabricantes de fantasias e atividades relacionadas aos desfiles de escolas de samba.

Para se ter uma ideia, na cidade do Rio de Janeiro, os eventos no sambódromo e o Carnaval de rua provocaram um impacto econômico de R$ 3,78 bilhões em 2019. Em São Paulo, a prefeitura estima que as comemorações ajudaram a injetar R$ 2,3 bilhões na economia da cidade em 2019, e espera que esse valor seja ainda maior em 2020.

O Carnaval também gera empregos. Segundo o levantamento da CNC, estima-se que, neste ano, 25,4 mil vagas temporárias sejam abertas para ocupações entre janeiro e fevereiro. Esse será o maior número registrado desde 2014, quando foram contratados 55,6 mil trabalhadores temporários. Naquele ano, além do Carnaval, o Brasil também recebia a Copa do Mundo.

A confederação considera que o setor alimentício será responsável pelo maior número de contratações: pelo menos 37% de todas as vagas abertas (cerca de 8,5 mil) serão de garçons, barmen, copeiros, cozinheiros e outros auxiliares de cozinha.

O maior evento popular do país também ajuda a aumentar o fluxo de turistas estrangeiros. Segundo dados da ANAC, em 2018, último dado disponível, cerca de 870 mil estrangeiros vieram ao país em fevereiro, mês do Carnaval naquele ano. Esse número representa 13,1% de todos os desembarques internacionais em 2018.

Ferreira lembra, no entanto, que as vantagens do Carnaval não só são econômicas. “O Carnaval é um momento em que você, de certa forma, sente-se pleno em disposição de brincar, de se divertir, e isso também ajuda a saúde das pessoas.”

Referências:

1. Ministério do Turismo (Fontes 1 e 2)
2. Veja
3. G1 (Fontes 1 e 2)
4. Governo Federal
5. Prefeitura de São Paulo (Fontes 1 e 2)
6. Prefeitura do Rio de Janeiro (Fontes 1, 2 e 3)
7. CNC
8. SPTuris

Obras consultadas:

1. Cadeia produtiva do Carnaval — Luiz Carlos Prestes Filho. E-Papers, 2009.