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Shealah Craighead/White House

Trump usa dados falsos ao falar de atos em Charlottesville e conflitos raciais nos EUA

18 de agosto de 2017, 19h30


Uma semana depois da manifestação de racistas e neonazistas que provocou uma morte em Charlottesville, nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump usou informações sem amparo na realidade para repercutir o caso. Além de minimizar a atuação de grupos brancos extremistas, o presidente ainda afirmou erroneamente que manifestações contra supremacistas não tinha licença para sair às ruas. Disse também que seu governo tem investido para diminuir desigualdades raciais.

Os checadores do jornal americano Washington Post, parceiros de Aos Fatos na IFCN (International Fact-Checking Network), encontraram equívocos em ambas as declarações. Veja, abaixo, o resultado da apuração.


FALSO

Havia um grupo de um lado que veio à carga sem permissão, e eles eram muito, muito violentos. Havia também muitas pessoas naquele grupo [de supremacistas] que estavam ali para protestar de modo inocente, de modo legal, porque, vocês sabem — não sei se vocês sabem — eles tinham uma autorização. O outro grupo não tinha. — Donald Trump, em 15.ago

Ao culpar ambos os lados nos protestos violentos de Charlottesville, Trump disse que os manifestantes contra o ato neonazista não tinham autorização, diferentemente daqueles que protestavam contra a retirada de uma estátua do general confederado Robert E. Lee. O problema é que não eram necessárias autorizações para esse tipo de protesto.

A coluna de checagem de fatos do Washington Post, assinada por Glenn Kessler e parceira de Aos Fatos na IFCN (International Fact-Checking Network), apurou que, segundo a porta-voz de Charlottesville, Miriam I. Dickler, só foi expedida uma autorização de manifestação para o Emancipation Park, onde ocorreu o ato contra a retirada da estátua. Essa permissão foi emitida para o protesto de nome Unite The Right, ou Direita Unida, em livre tradução.

“Tenha em mente que as pessoas não precisam de permissão oficial para entrar em uma área pública, mesmo que outro evento esteja acontecendo ali, nem é necessário ter uma autorização para estar nas ruas ou nas calçadas adjacentes ao parque", disse a porta-voz por e-mail.

Na última sexta-feira (11), 250 supremacistas brancos carregando tochas marcharam e cantaram hinos antissemitas no campus da Universidade de Virginia, onde eles se encontraram com outros 30 estudantes que faziam um cordão humano ao redor de uma estátua de Thomas Jefferson. Houve conflito e feridos. A universidade em questão é aberta, de modo que não eram necessários registros para esse tipo de protesto, segundo nota da própria instituição. A presidente da Universidade de Virginia Teresa A. Sullivan condenou a “conduta intimidadora de manifestantes da direita autoritária”.

No sábado, quando os maiores confrontos aconteceram, pessoas começaram a se reunir no Emancipation Park. O chefe de polícia de Charlottesville, Al S. Thomas Jr., disse ao Washington Post que os grupos racistas voltaram atrás num plano que os manteria separados dos manifestantes contrários à sua agenda. O conflito teve início pela manhã e, às 11h22, a polícia agiu.

Ou seja, até havia autorização expedida para manifestações no sábado, mas, para convocarem um ato dentro ou perto do Emancipation Park não era necessário. O mesmo dentro do campus da Universidade de Virginia.


FALSO

Vou dizer a vocês: estamos gastando muito dinheiro nas áreas pobres. Estamos melhorando as áreas pobres. Estamos fazendo muito mais do que qualquer um a respeito dessas localidades. É uma prioridade para mim. E é muito importante. — Donald Trump, em 15.ago

Não há qualquer indicativo de que Trump tem favorecido comunidades pobres e negras com incentivos governamentais. Os dados, na verdade, mostram o contrário.

Em resposta a uma pergunta relativa a questões raciais nos Estados Unidos, Trump disse que relações de raça “melhoraram ou estão na mesma” no país. Trump afirmou que sua administração está “gastando muito dinheiro em áreas pobres [em inglês, inner cities, que são regiões centrais de cidades muito degradadas]” e que “melhorar as áreas pobres” é uma prioridade.

Segundo a coluna de checagem de fatos do Washington Post, o uso da terminologia inner cities para especificar áreas ocupadas por americanos negros é um equívoco. Houve mudanças sociodemográficas nessas regiões nas últimas décadas, embora a degradação tenha permanecido. Além disso, ao especificar investimentos nessas áreas pobres, Trump também não menciona áreas rurais do sul dos EUA majoritariamente habitadas por negros.

“Usar o termo ‘inner city’ como referência a ‘negros’ é menos preciso do que usar a expressão ‘suburbano’ para se referir a ‘brancos,’” , disse o Washington Post durante a campanha presidencial.

Mesmo assim, dados apontam o contrário do que Trump disse. Seu orçamento previa reduções drásticas em programas sociais, sobretudo naqueles relativos a minorias, aos pobres, aos idosos e aos deficientes. O Congresso ainda não encerrou as discussões do orçamento de 2018, mas algumas agências do governo já tiveram seus repasses decididos. Algumas delas terão mais recursos que aqueles previstos na proposta original de Trump, mas as verbas serão inferiores ao do ano fiscal de 2017.

Exemplo disso é o do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano. Trump propôs cortar US$ 6,2 bilhões do seu orçamento — uma redução de cerca de 12%. Isso afetaria programas de revitalização para comunidades pobres e urbanas. Também atingiria programas de habitação popular. Seria a maior redução orçamentária sofrida pela agência desde a década de 1980.

Outros exemplos de redução orçamentária seriam as áreas educacionais: Trump planeja reduzir em 14% os repasses para o Departamento de Educação. Consequência disso seria a diminuição de bolsas de estudo, incluindo aquelas reservadas para estudantes pobres e de minorias.

O presidente dos EUA também prometeu mais recursos a universidades historicamente identificadas com o movimento negro. Seu orçamento, entretanto, impõe restrições a repasses para essas instituições.

Trump também propôs reduzir programas de incentivo ao emprego, segundo o Post.