Aos Fatos

Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Outros partidos receberam dinheiro de envolvidos na Lava Jato, diz Lula

Por Tai Nalon

21 de janeiro de 2016, 06h26


O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reclamou nesta quarta-feira (20), durante entrevista a um grupo de blogueiros em São Paulo, do tratamento dado ao PT durante as investigações da Operação Lava Jato e sua divulgação na imprensa. Segundo ele, os empresários dão dinheiro para todos. "Agora, propina só o PT. É como se o PT fosse imbecil. Os outros só iam no honesto e o PT só ia no errado?", disse.

Lula é citado por réus da Lava Jato, segundo os quais as campanhas petistas para a Presidência em 2006, 2010 e 2014 teriam recebido propina. Ao queixar-se de tratamento distinto entre a sua sigla e as demais, o ex-presidente afirmou que "todos os partidos receberam dinheiro da mesma fonte".

Aos Fatos checou se, de fato, PT, PSDB e PSB, concorrentes ao Planalto em 2014, receberam doações de empresas envolvidas no escândalo de corrupção da Petrobras. Também apurou se há outras empresas citadas no caso cujas doações não foram contabilizadas pela Justiça Eleitoral. Ao confirmar as duas suposições, deu o selo IMPRECISO ao ex-presidente.


IMPRECISO
O que eu acho grave é que todos os partidos receberam dinheiro da mesma fonte. Os empresários dão dinheiro para todos os partidos.

Lula está correto ao dizer que os empresários dão dinheiro para todos os partidos. Levantamento de Aos Fatos nas prestações de contas dos candidatos à Presidência em 2014 ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) mostra que nove empresas envolvidas na Lava Jato fizeram doações para os então candidatos Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (ex-PSB, atual Rede).

Porém, um dos pontos que fragiliza a argumentação do ex-presidente é o fato de Dilma ter recebido dessas empresas mais que o dobro que o seu adversário principal levantou no mesmo período. Como mostra o quadro abaixo, as firmas investigadas na Lava Jato foram mais generosas com a campanha petista do que com suas concorrentes. Isso Lula não mencionou.

Fonte: TSE

A escolha pelo selo IMPRECISO também ocorre porque as investigações buscam não só eventuais fraudes em doações de campanha, mas, sobretudo, desvendar como funcionários da Petrobras, ligados ou não a partidos, embolsavam dinheiro em troca de favorecimento em contratos da estatal. Uma das vias, segundo os investigadores, seria por meio de doações, legais ou ilegais, maiores ou menores, às campanhas eleitorais.

Exemplo disso é o caso SBM Offshore, empresa holandesa do ramo de aluguel de plataformas de produção de petróleo. Acusada de pagar propina à campanha de Dilma em 2010 para firmar contratos com a Petrobras,poderá pagar até R$ 1 bilhão ao governo brasileiro em acordo de leniência.Suas irregularidades podem se estender até 1997, quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso presidia o país.

Aos Fatos checou nas prestações de contas encaminhadas ao TSE se a empresa, por meio de subsidiária ou pessoa física — como, por exemplo, o empresário Julio Faerman — , doou para as campanhas em questão. Não há qualquer registro, de modo que não é possível dizer, por vias oficiais, se a empresa de fato deu dinheiro para o PT e para o PSDB de forma tão equânime quanto Lula afirma.

Dessa forma, por mais que algum dinheiro tenha saído das contas de investigados na Lava Jato, não se trata apenas de doações declaradas à Justiça Eleitoral. Trata-se do avesso disso.