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Shealah Craighead/Casa Branca

Drogas, emprego e petróleo: os erros de Donald Trump no discurso do Estado da União

6 de fevereiro de 2019, 17h21


Para defender a construção de um muro na fronteira com o México, o presidente dos EUA, Donald Trump, lançou mão de informações falsas no discurso anual do Estado da União sobre o fluxo de entrada de drogas no país e sobre crimes violentos em cidades fronteiriças. Nos quase 90 minutos de sua fala à Câmara dos Representantes na noite desta terça-feira (5), Trump também inflou impactos do governo no mercado de trabalho e na produção de óleo e gás.

Os checadores do jornal The Washington Post e das plataformas Politifact e Factcheck, parceiros de Aos Fatos na IFCN (International Fact-Checking Network), verificaram o discurso e identificaram uma série de equívocos entre as declarações do presidente. Aos Fatos reproduziu algumas dessas checagens. Confira abaixo.


FALSO

Dezenas de milhares de americanos inocentes são mortos por drogas letais que cruzam nossa fronteira e inundam nossas cidades — incluindo metanfetamina, heroína, cocaína e fentanil.

De acordo com o FactCheck, especialistas sobre tráfico de drogas, incluindo os que trabalham no governo de Trump, afirmam que a maior parte das substâncias ilícitas oriundas do México entra nos Estados Unidos em carros e caminhões, em portos, não pela fronteira terrestre, como declarou o presidente.

Isso acontece principalmente com os opióides letais — heroína e fentanil — que o presidente destacou em seu discurso. “A maior parte do fluxo de [heroína ilegal] se dá através de [veículos de propriedade privada] entrando nos Estados Unidos em portos, seguidos por reboques, onde a heroína é misturada com bens legais”, segundo o relatório Avaliação Nacional de Ameaças às Drogas de 2018, produzido pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. O relatório também afirma que os cartéis mexicanos “costumam contrabandear os carregamentos de vários quilogramas de fentanil escondidos em veículos de propriedade privada através dos portos legais de entrada”.

Em entrevista ao FactCheck, Peter Reuter, professor de justiça criminal da Universidade de Maryland que fundou e dirigiu Centro de Pesquisa em Política de Drogas da organização RAND de 1989 a 1993, afirmou que, além da maioria das drogas chegarem ao país por meio de portos legais, contrabandistas têm um histórico de adaptação às tentativas da polícia de impedir o fluxo de substâncias ilegais.


FALSO

A fronteira da cidade de El Paso, Texas, costumava ter altos índices de crimes violentos — uma das maiores do mundo e considerada uma das cidades mais perigosas da nossa nação. Agora, com uma poderosa barreira construída, El Paso é uma das nossas cidades mais seguras.

Ao contrário do que afirma Trump, a cidade norte-americana de El Paso nunca esteve entre as mais violentas do país nem houve queda brusca de violência após a construção da cerca de 92 km de extensão na divisa com Ciudad Juárez, no México.

Barreiras entre El Paso e Ciudad Juárez existem há décadas, embora Trump parecesse estar se referindo à cerca que foi concluída em meados de 2009. Ela foi autorizada pelo então presidente norte-americano George W. Bush em 2006, mas a construção só começou em 2008, de acordo com informações do jornal El Paso Times, citado pelo The Washington Post.

Na checagem do discurso de Trump, o FactCheck destaca que El Paso teve a menor taxa de homicídios entre as seis maiores cidades do estado em quase todos os anos, desde 1985, segundo o UCR (sistema de registros criminais do Departamento de Justiça dos Estados Unidos). Além disso, a cidade registrou a terceira menor taxa de criminalidade violenta em 35 cidades dos EUA com população superior a 500 mil em 2005, 2006 e 2007 — antes da construção da cerca. Entre 1993 e 2006, o número de crimes violentos caiu mais de 34%, passando de 6.500 ocorrências anuais para 2.700 crimes violentos registrados. De 2006 a 2011 — dois anos antes de a cerca ser construída e dois anos depois de sua instalação — a taxa de criminalidade violenta em El Paso aumentou 17%.


IMPRECISO

No passado, a maioria das pessoas nesta sala votou a favor do muro, mas ele nunca foi efetivamente construído. Eu vou conseguir construir.

A afirmação de Trump está descontextualizada e com dados errados, segundo o Politifact.

O Secure Fence Act foi aprovado em 2006 com mais apoio dos democratas no Senado do que dos da Câmara dos Representantes, onde Trump discursou. Além disso, ao contrário do que Trump afirma, mais de 90% da cerca foi construída, de acordo com relatório do governo. Em 2006, os parlamentares autorizaram a construção de 1.130 km de cercas na fronteira sudoeste, não um muro de concreto, como proposto pelo atual presidente.

Na campanha eleitoral de 2016, Trump prometeu um muro de "concreto endurecido", de "95 andares" com uma "porta muito grande e muito bonita". Também durante a campanha, Trump ridicularizou a cerca de 2006 por ser “muito modesta” e poder ser “escalada com uma escada”.

A lei de 2006 ganhou o apoio de pouco mais da metade dos democratas do Senado, mas muitos democratas da Câmara, incluindo a atual presidente da Casa, Nancy Pelosi, votaram contra.


FALSO

Criamos 5,3 milhões de novos empregos e, mais importante, adicionamos 600 mil novos empregos na indústria.

Como explica a checagem do The Washington Post, de janeiro de 2017 a dezembro de 2018, foram criados cerca de 4,9 milhões de empregos, 436 mil deles na indústria, de acordo com o BLS (Departamento de Estatísticas de Trabalho, na sigla em inglês).

Trump costuma inflar o número de empregos criados no seu governo, contando a geração de postos de trabalho a partir da sua eleição em novembro de 2016, e não a partir do dia da posse. No caso do número citado por ele no discurso, o presidente americano está querendo crédito por empregos gerados antes mesmo dele anunciar a candidatura à Presidência. Para atingir o ganho de 600 mil empregos na indústria é preciso levar em conta a geração de emprego desde 2014, como aponta a checagem do FactCheck.


FALSO

Nós desencadeamos uma revolução na energia americana. Os Estados Unidos são hoje o maior produtor de petróleo e gás natural do mundo.

A noção de que "uma revolução" na energia começou sob a administração Trump está errada, explica a checagem do The Washington Post. Os Estados Unidos lideram a produção mundial de gás natural desde 2009, segundo dados da dados da EIA (Administração de Informação de Energia, na sigla em Inglês). A produção de petróleo no país tem crescido rapidamente desde 2010, superando os maiores produtores globais — Rússia e Arábia Saudita — em setembro de 2018, também segundo dados da EIA.

Em 2012, a Agência Internacional de Energia previu no relatório World Energy Outlook que os EUA assumiriam o primeiro lugar na produção de petróleo até 2020, impulsionado por fraturamento ou fracking, em inglês, como lembra a checagem do FactCheck.


FALSO

Todos os americanos podem se orgulhar de termos mais mulheres no mercado de trabalho do que nunca.

Em número absolutos, o número de mulheres no mercado de trabalho atingiu recorde em dezembro de 2018, recuando um pouco em janeiro de 2019, segundo dados do BLS, citados na checagem do Politifact. Além disso, como explica a plataforma de checagem, o número absoluto de mulheres — ou de homens — presentes no mercado de trabalho é um dado que reflete principalmente o aumento da população do país.

Uma medida mais apropriada seria a taxa de participação de mulheres na força de trabalho, que se refere à porcentagem de mulheres que estão trabalhando ou procurando emprego. Essa taxa está em alta desde o final de 2015, mas o nível atual — de 57,5% — está abaixo do nível de 1995 — 59% — e de antes da recessão de 2007 — quando chegou a 60%, de acordo com dados do FED (Banco Central Americano).


FALSO

Portanto, recentemente impusemos tarifas de US$ 250 bilhões em produtos chineses e agora nosso Tesouro está recebendo bilhões de dólares.

Os dados do Tesouro norte-americano mostram que houve um aumento de US$ 6,7 bilhões em taxas alfandegárias cobradas no ano fiscal que terminou em setembro, e a maior parte está relacionada ao aumento de impostos sobre os importadores de produtores chineses, como afirma a checagem do The Washington Post. Segundo o estudo do Conselho de Assuntos Internacionais, no entanto, o valor arrecadado com o aumento tarifário não cobre o que está sendo pago aos agricultores americanos como compensação parcial por suas perdas com a retaliação tarifária chinesa.

Em resposta aos aumentos tarifários de produtos chineses, a China aumentou os impostos de importação de 128 produtos americanos. De acordo com o Conselho de Assuntos Internacionais, 115% do valor arrecadado com as tarifas está sendo repassado pela administração de Trump para ajudar agricultores afetados pela guerra comercial com a China.


Tradução de Ana Rita Cunha