Aos Fatos

Seja um apoiador

Checamos

Leia as últimas declarações checadas pela equipe do Aos Fatos

Mais

Explore todos os nossos conteúdos e checagens

Luiz Fernando Menezes/Aos Fatos

Desenhamos fatos sobre a cotação do dólar no Brasil

Por Ana Rita Cunha e Luiz Fernando Menezes

22 de novembro de 2019, 12h10


O dólar segue em trajetória de alta desde o começo de novembro. Na segunda-feira (18), a moeda norte-americana passou a ser negociada acima do patamar de R$ 4,20, a maior cotação desde o começo do Plano Real. Este, porém, é um recorde apenas nominal. Se levadas em conta as taxas de inflação do Brasil e dos EUA, o pico ocorreu em outubro de 2002: R$ 7,48 (em valores atualizados) ou R$ 3,95 (cifra da época), de acordo com o Banco Central.

Abaixo, desenhamos e explicamos fatos sobre a cotação do dólar que ajudam a entender como funciona o câmbio e porque o valor da moeda sobe e desce.

O câmbio é o preço que se paga para vender uma moeda e comprar outra. Regime cambial é como um país estabelece esse valor, a taxa de câmbio.

Quando o real foi criado em 1994, o governo adotou um regime cambial fixo em que R$ 1 valia US$ 1. Para manter esse patamar, no entanto, não bastava uma norma, mas também que o Banco Central atuasse no mercado vendendo as reservas de dólares do país nessa cotação.

Entre 1995 e 1998, o Brasil adotou a chamada banda cambial, em que o governo estabelecia um limite para alta e queda do câmbio. Quando o dólar extrapolava os limites para cima ou para baixo, o Banco Central interferia, comprando ou vendendo a moeda norte-americana.

Em 1999, após crises em países asiáticos e na Rússia, a moeda brasileira sofreu forte desvalorização e o regime cambial passou a ser flutuante. Nele, o Banco Central permite que o mercado cambial estabeleça o preço da moeda estrangeira.

Economistas classificam o regime cambial brasileiro como “flutuante sujo”, porque o Banco Central desempenha função importante no controle da oferta monetária. O BC não estabelece uma cotação para o dólar, mas intervém para tentar conter uma depreciação que considere excessiva ou para fornecer liquidez ao mercado em momentos atípicos.

As intervenções do Banco Central são feitas, normalmente, por meio de leilões no mercado de swaps (operação que equivale à venda ou compra futura de dólares com a função de evitar a volatilidade da moeda) e no mercado à vista (venda ou compra direta de dólares no mercado financeiro).

Em agosto desse ano, depois de dez anos, o Banco Central voltou a vender dólares no mercado à vista. A última vez que isso havia ocorrido foi em 2009, em meio à crise econômica mundial.

Ainda que o BC intervenha no câmbio, o principal fator de definição da cotação do dólar é a oferta e a demanda pela moeda estrangeira no Brasil. Quando há mais gente querendo comprar dólar do que pessoas dispostas a vender, a moeda norte-americana aprecia, ou seja, tornam-se necessários mais reais para adquirir a mesma quantidade de dólares.

No mercado cambial, convivem, de um lado, os agentes que demandam o real em troca do dólar que têm, e, de outro, os agentes que demandam dólar.

Comércio exterior. A balança comercial, o saldo entre exportações e importações, impacta na cotação do dólar. Quando há superávit (mais exportações do que importações), entram mais dólares do que saem do país. A oferta maior barateia o custo da moeda. O inverso ocorre quando há déficit comercial (mais importação do que exportação), quando há mais saída do que entrada de dólar no Brasil, levando a uma cotação mais alta. Esse ano, até outubro, a balança comercial brasileira registra superávit de US$ 1,2 bilhão, segundo o Ministério da Economia. O valor é inferior ao saldo positivo de US$ 5,8 bilhões registrados no mesmo período de 2018.

Turismo. A vinda de turistas estrangeiros para o Brasil também impacta no câmbio, pois aumenta a oferta da moeda no país. Por outro lado, turistas brasileiros viajando para o exterior aumentam a demanda por dólar, ação que aprecia o o câmbio.

Investidores estrangeiros. O aumento de investimento estrangeiro no Brasil amplia também a oferta de dólar. A entrada e saída de investimento estrangeiro depende tanto de fatores internos (desempenho da economia nacional e expectativa futura) quanto externos (situação da economia global). Um ambiente econômico externo ruim, por exemplo, leva os investidores a serem mais cautelosos e evitarem colocar dinheiro em economias emergentes, como a brasileira.

Pagamento de dívidas em dólar. Esse ano, o Brasil registra a maior saída de dólar desde 1999. Até outubro, segundo o Banco Central, o déficit no ano era de US$ 21,46 bilhões. O número é superior aos US$ 16,18 bilhões registrados em todo o ano de 1999, pior ano da série histórica do BC, iniciada em 1982. Um dos principais fatores para essa saída de dólar é a quitação de dívidas contraídas no exterior por empresas brasileiras. Só a Petrobras já gastou US$ 14,72 bilhões em pagamentos de débitos em moeda estrangeira, segundo a própria estatal.

Na segunda-feira (18), o dólar fechou em R$ 4,2061 e atingiu a maior cotação nominal da história do Plano Real. Até então, o recorde era do dia 13 de setembro de 2018, quando o valor foi de R$ 4,1957.

Porém, ao fazer comparações monetárias entre anos, é necessário levar em conta a inflação do período, que impacta no poder de compra. Ou seja, ela faz com que um R$ 1 hoje valha menos que em anos anteriores.

No caso do câmbio, é preciso considerar na conta ainda a inflação do país da moeda estrangeira. Desta forma, a maior cotação do dólar foi em outubro de 2002, entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial em que Lula (PT) foi eleito: R$ 7,48 (atualizado) ou R$ 3,95 (em valores da época), de acordo com o Banco Central.

Referências:

1. Bloomberg
2. Banco Central do Brasil (Fontes 1, 2, 3 e 4)
3. PUC-SP
4. BNDES
5. Ipea (Fontes 1 e 2)
6. Estadão
7. Valor