Aos Fatos

Checamos cinco notícias falsas sobre o autismo

Por Luiz Fernando Menezes

18 de abril de 2019, 11h42


É verdade que vacinas ou o paracetamol causam autismo? O transtorno pode ser curado com dietas ou soros? Não são poucas as informações enganosas que circulam na internet acerca do TEA (Transtornos do Espectro Autista), e nem sempre é fácil identificá-las. No mês da conscientização mundial do autismo, o Abril Azul, Aos Fatos desmentiu cinco notícias falsas sobre o tema.



1

Autismo tem cura

O TEA (Transtornos do Espectro Autista) é um grupo de condições que têm como característica central a dificuldade de comunicação social, os comportamentos repetitivos e as estereotipias. A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que uma em cada 160 crianças no mundo têm algum transtorno do espectro.

Vale ressaltar que o autismo tem vários graus: algumas pessoas diagnosticadas com o transtorno vivem de maneira independente, já outras necessitam de cuidados especiais e apoio. Há casos em que a pessoa com o transtorno também apresenta condições concomitantes, como epilepsia, depressão e ansiedade.

Não há, ainda, uma cura para o TEA. Inúmeros tratamentos “milagrosos” podem ser encontrados na internet, como dietas especiais ou até soros. O livro “Healing the Symptons Known as Autism”, por exemplo, chegou a ser vendido em lojas virtuais. A obra instruía os pais a darem dióxido de cloro (chamada pelos autores “solução mineral milagrosa”) para seus filhos. A mistura não é cientificamente verificada como tratamento de nenhuma doença atualmente e pode causar náusea, vômito e até desidratação severa.

Cada caso de autismo tem particularidades e deve receber um tratamento planejado para as necessidades do paciente. De acordo com a Autism Speaks, organização americana de apoio a autistas, existem dezenas de tratamentos para indivíduos diagnosticados com TEA. É possível partir para terapias comportamentais, como a ocupacional e a da fala, e também para o uso de medicamentos.


2

Vacinas causam autismo

Talvez a maior notícia falsa acerca do TEA, a suposta ligação entre a vacinação em crianças e o autismo nasceu em 1998. Naquele ano, o médico Andrew Wakefield e outros pesquisadores publicaram na revista Lancet um estudo que descrevia 12 crianças que teriam desenvolvido, após a vacinação, comportamentos autistas e inflamação intestinal grave e levantaram a hipótese de que esses problemas teriam um vínculo causal com a vacina MMR, contra sarampo, rubéola e caxumba.

O estudo, no entanto, foi alvo de diversas polêmicas. Em 2004, o Instituto de Medicina dos EUA concluiu que não havia provas que sustentassem uma relação entre o autismo e os componentes da vacina. No mesmo ano, descobriu-se que Wakefield havia feito um pedido de patente para uma vacina contra o sarampo que concorreria com a MMR, o que seria um claro conflito de interesses com a pesquisa. Outro médico que participou do estudo também afirmou que Wakefield mentiu ao dizer que tinha encontrado o vírus do sarampo nas crianças. Graças a isso, a revista retraiu o artigo e Wakefield teve sua licença médica cassada.

Segundo especialistas, mesmo desmentido, o estudo e suas conclusões enganosas servem até hoje como prova para os movimentos anti-vacinação no mundo todo e acaba resultando em problemas sérios de saúde em escala mundial. O movimento anti-vacina é apontado pela OMS como uma das dez maiores ameaças à saúde em 2019 e é um dos fatores responsáveis pelo aumento dos casos de sarampo nos últimos anos.

Isso faz com que ainda existam pesquisadores que tentam fortalecer o desmentido com pesquisas que mostram a falta de vínculo entre a vacina e o TEA. O último estudo, publicado em março deste ano, foi feito por cientistas do Statens Serum Institut, na Dinamarca, e utilizou como amostra 657 mil crianças do país (uma amostra cerca de 55 mil vezes maior que a do estudo de Wakefield). Os estudiosos compararam a vacinação e o diagnóstico de TEA e não encontraram nenhuma associação, mesmo em indivíduos com maior risco.


3

Paracetamol causa autismo

Em 2016, diversos jornais afirmaram que um estudo publicado na International Journal of Epidemiology teria sugerido que o uso de paracetamol durante a gravidez teria associação com sintomas de autismo e déficit de atenção e hiperatividade em bebês. No entanto, como lembra o Ministério da Saúde, os resultados não foram conclusivos e o próprio estudo recomendou a realização de novas pesquisas baseadas em dados.

A dúvida acontece porque o paracetamol é utilizado para tratar sintomas e complicações da gravidez que estão associadas ao risco do TEA, ou seja, ele é empregado para tratar sintomas geralmente ligados a fatores de risco do autismo. Segundo as últimas pesquisas, o principal fator de risco é genético: mudanças em certos genes aumentam as possibilidades de crianças desenvolverem autismo. Logo, se os pais possuírem esses genes, os filhos têm chances maiores de desenvolver o transtorno.

A Autism Speaks também cita fatores externos e ambientais que já foram apontados: pais com idade avançada, complicações na gravidez (como nascimento prematuro ou gravidez de gêmeos) e gravidez muito próxima da anterior (menos de um ano entre uma gestação e a outra).

Logo, é importante ressaltar que não existe uma “causa” para o TEA, apenas fatores de risco que aumentam a probabilidade de o indivíduo desenvolver autismo.


4

Má educação pode levar a criança a desenvolver autismo

Outra desinformação que circula há muitos anos na internet é a de que pais e mães ruins poderiam fazer com que os filhos desenvolvessem TEA. A hipótese surgiu na década de 1950 e era chamada de “mãe-geladeira”. Esse mito nasceu com um dos primeiros pesquisadores do TEA, Léo Kanner (durante algum tempo, o autismo foi, inclusive, chamado de Síndrome de Kanner), que defendeu a hipótese de que o transtorno seria atribuído à “genuína falta de calor maternal”.

Essa hipótese só foi refutada em 1964, com a publicação do livro Infantile Autism: The Syndrome and its Implications for a Neural Theory of Behavior, de Bernard Rimland. Em 1969, durante um encontro da National Society for Autistic Children, o próprio Kanner voltou atrás, absolveu os pais de culpa e disse que a condição do autismo era inata, ou seja, uma condição em que o indivíduo nasce com o transtorno. Como dito antes, hoje a ciência considera que o autismo está ligado a fatores genéticos e ambientais.

Como lembra o Autism Awareness, nada que os pais digam ou façam a seus filhos pode causar o desenvolvimento de algum transtorno relacionado ao autismo.


5

Herbicida glifosato causa autismo

Um das notícias falsas mais recentes sobre o transtorno apareceu em 2014 durante um congresso, quando uma pesquisadora do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) chamada Stephanie Seneff disse que o herbicida glifosato estaria relacionado ao autismo e que, até 2025, 50% das crianças teriam TEA por causa da substância.

Assim como mostra uma checagem da DROPS, iniciativa de verificação do site do dr. Dráuzio Varella, não há evidências científicas que relacionem o herbicida com o TEA: a pesquisadora fez correlações sem apresentar dados para comprovar sua tese. Em sua palestra, Seneff apresentou gráficos que, segundo ela, demonstravam que o aumento do uso do glifosato estava diretamente ligado ao avanço da incidência de autismo. Ou seja, não é porque dois eventos acontecem ao mesmo tempo que um seja a causa do outro.

Vale ressaltar, no entanto, que o número de crianças e jovens diagnosticados com TEA vem crescendo nos últimos anos. As principais causas apontadas pelos cientistas, no entanto, são de que a taxa de TEA aumentou porque também aumentaram a conscientização e os diagnósticos.


Fontes:

1. OMS (Organização Mundial da Saúde)

2. Wired

3. Autism Speaks (Fonte 1 e 2)

4. Briandeer

5. Vox

6. O Globo

7. G1 (Fonte 1 e 2)

8. Medical News Today

9. Ministério da Saúde

10. Autism Watch

11. Autism Awareness.au

12. DROPS