Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Por Sérgio Spagnuolo
Design e gráficos por Volt Data Lab
Maio/2016

O governo do presidente da República interino, Michel Temer, se propõe a controlar as contas públicas, a dívida nacional, o desemprego e a inflação. O objetivo, segundo sua equipe, é retomar o crescimento econômico e atrair investimentos.

Enquanto isso, em meio a uma severa crise política, o país viu a inflação crescer, o desemprego aumentar, a dívida pública avançar e o PIB (Produto Interno Bruto) diminuir. Mas, se as coisas estão ruins por aqui, como está o restante do mundo nas mesmas questões?

Aos Fatos, em parceria com o Volt Data Lab, preparou uma série de gráficos para mostrar onde o país se encaixa no cenário mundial, a partir de alguns dos indicadores mais importantes da economia: crescimento do PIB, relação da dívida sobre o PIB, desemprego e taxa de inflação.

A reportagem concluiu que, em que pese o precário cenário macroeconômico brasileiro, ainda há fôlego para recuperação. A dívida pública do país (de 66,2% do PIB), por exemplo, embora tenha se distanciado da média mundial, ainda é bem menor que a de grandes economias como a Itália (132,7%), a do Japão (229,2%) e a da França (95,8%).

No entanto, quando o quesito é crescimento econômico, o desempenho brasileiro em relação ao restante do mundo é grave. Se a economia brasileira viu retração de -3,8% em 2015, apenas países pobres, com crises internas e em guerra como Iêmen (-28,1%), Serra Leoa (-21,5%), Ucrânia (-9,9%) e Líbia (-6,4%) registraram rendimento pior.

Veja, abaixo, o que checamos.

A trajetória do PIB está fora da curva mundial, com o país atualmente imerso em uma profunda recessão. De acordo com projeções do FMI (Fundo Monetário Internacional), o país só voltaria a crescer 1% e ficaria estagnado em 2% no triênio 2019-2021, dadas as condições atuais. (Gráfico abaixo.)

No cenário global de 2015, as coisas não foram nada boas. O Brasil faz parte de um seleto e infeliz grupo de países com retração econômica, composto por: Brunei Darussalam -0.2 Grécia (-0.2), Micronésia (-0.2), Sudão do Sul (-0.2), Botswana (-0.3), Vanuatu (-0.8), Moldova (-1.1), Porto Rico (-1.3), Trinidad e Tobago (-1.8), Rússia (-3.7), Brasil (-3.8), Belarus (-3.9), Burundi (-4.1), Dominica (-4.3), Venezuela (-5.7), Líbia (-6.4), Ucrânia (-9.9), Guiné Equatorial (-12.2), Macau (-20.3), Serra Leoa (-21.5), Iêmen (-28.1).

Os dados de PIB anual de 2015 foram obtidos na ferramenta Data Mapper, no site do FMI, assim como as previsões de crescimento econômico até 2021.

Com o enfraquecimento da atividade econômica, o desemprego no Brasil cresceu significativamente frente aos patamares alcançados em 2014, quando o país registrou taxa de 5%, considerado baixo pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). O percentual de pessoas sem emprego agora está no pior nível desde 2012, em torno de 11% no primeiro trimestre, totalizando mais de 10 milhões de desocupados. Embora seja uma taxa alta, não chega a ser uma anomalia mundial, inclusive se comparado a certos países desenvolvidos.

O Brasil está próximo do combinado de países da zona do Euro (10,2%), da França (10,3%) e de Portugal (12,2%), e bem abaixo da Espanha (21%). Mas, ainda assim, figura bem à frente dos 7,7% da mediana mundial.

A fonte principal foi o site Trending Economics, que compila centenas indicadores econômicos mundiais atualizados de uma maneira de fácil acesso. A depender da medição oficial dos indicadores de cada país, os dados divulgados podem ser relativos a períodos ligeiramente diferentes. Por exemplo, os dados do Brasil são relativos a março de 2016, enquanto os EUA possuem dados mais atuais, de abril do mesmo ano. Isso não impede a comparação entre eles. Já para alguns poucos outros países, como o Djibouti, onde a mensuração é mais difícil, os dados não são atualizados há alguns anos.

Atualizado em 19/05: Os dados utilizados entre os países não estão ajustados para serem comparados entre si. O objetivo é visualizar a taxa de desemprego reportada de cada país e onde o Brasil se situa, não mostrar comparação de grandeza entre os países. Para uma comparação de ordem de grandeza, acesse esta página da OIT (Organização Internacional do Trabalho).

A inflação está em torno de 10% ao ano no Brasil, frente a cerca de 3% da mediana mundial. A inflação não apenas torna produtos mais caros, mas também afeta o poder de compra das famílias, o comércio, a política de juros, a oferta de crédito, os investimentos.

O centro da meta inflacionária do governo tem sido, tradicionalmente , 4,5% ao ano, com teto de 6,5%.

A boa notícia, se é que existe uma, é que o FMI prevê uma queda gradual (gráfico abaixo) nos próximos anos, assim como o mercado estima leve melhora ainda neste ano.

Apesar da inflação bem fora da curva mundial, o Brasil está bem longe de patamares como os verificados no Sudão do Sul (52,8%) ou na Venezuela (121,7%). Tampouco está perto dos níveis da época da chamada hiperinflação, no início dos anos 1990, quando chegou perto de 3.000% ao ano, de acordo com dados do FMI.

Os dados do gráfico principal são relativos a 2015. O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), considerado a inflação oficial do país, foi 9,28% para 12 meses em abril de 2016.

Embora a contração de dívida seja uma necessidade para financiar o governo e cobrir o déficit público, quando excessiva, pode comprometer as finanças do país.

A dívida pública no Brasil é uma preocupação, porque, dentre vários efeitos, exige recursos do governo para pagamento de juros. Isso acaba afetando investimentos que poderiam ser feitos em outras áreas.

A dívida pública bruta brasileira sobre o PIB não chega a ser tão grande quanto a de diversos países desenvolvidos, como a dos Estados Unidos (104%) ou a dos que integram a União Europeia (85,2%, no geral), mas está mais de 20 pontos percentuais à frente da mediana global (40,6%).

Em meio a problemas econômicos e políticos pelos quais o Brasil vem passando, o crescimento da dívida pública levanta dúvidas sobre a capacidade do governo de pagar juros para investidores. Agências de classificação de risco, como Moody's, S&P e Fitch, rebaixaram a nota de crédito brasileira, ou, em outras palavras, o chamado "selo de bom pagador" que o país tinha.

A Agência Brasil tem uma boa reportagem sobre possíveis caminhos para a dívida pública, e você pode ver aqui, no site da Secretaria do Tesouro Nacional, mais detalhes sobre o assunto.

Neste caso, foram utilizados dados mais recentes da Trending Economics, e a dívida bruta (não a líquida) foi utilizada por ser utilizada em diversos comparativos internacionais, embora muitos economistas questionem que a dívida líquida é um melhor indicador.