Aos Fatos

Vídeo de índia sobre incêndio em reserva não é atual e foi gravado em Minas Gerais

Por Luiz Fernando Menezes

23 de agosto de 2019, 14h09


Um vídeo de julho deste ano em que uma índia afirma que “baderneiros” atearam fogo em sua aldeia, em Minas Gerais, tem circulado nas redes sociais fora do contexto original, como se tivesse sido gravado em uma reserva indígena na Amazônia nos últimos dias.

As publicações enganosas analisadas por Aos Fatos, porém, divergem ao apontar culpados pelo incêndio: uns corroboram a versão do presidente Jair Bolsonaro e acusam organizações não governamentais (veja aqui), outros dizem que seria resultado da omissão do governo (veja aqui). Na verdade, segundo o Ministério Público e a Polícia Federal, as investigações do crime em Minas Gerais estão em andamento e ainda não é possível apontar culpados.

Em posts no Facebook, o vídeo descontextualizado e com informações falsas já reunia ao menos 20 mil compartilhamentos na manhã desta sexta-feira (23). As publicações foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (saiba como funciona). O material também foi enviado por leitores do Aos Fatos no WhatsApp como sugestão de checagem (inscreva-se aqui).


FALSO

Índia confirma suspeitas de Bolsonaro e diz ‘baderneiros estão tacando fogo em tudo’.

Pessoas estão deliberadamente ateando fogo para desmatar ilegalmente para criação de pastos para gado. Presidente Bolsonaro está deixando isso passar!!

Pouco após o presidente Bolsonaro afirmar que ONGs estariam por trás do avanço de queimadas na Amazônia, nesta quarta-feira (21), um vídeo de uma índia acusando "baderneiros" de atearem fogo em sua aldeia passou a circular nas redes sociais como se comprovasse a suspeita do presidente. As imagens, porém, não foram gravadas na Amazônia nos últimos dias, mas em uma aldeia na Grande Belo Horizonte, em Minas Gerais, no dia 6 de julho deste ano. A mulher também não atribui o crime a ONGs, citando apenas “baderneiros”.

O incêndio mostrado no vídeo atingiu a área de reserva Pataxó Naô Xohã, em São Joaquim de Bicas (MG). A aldeia fica em uma área de 370 hectares coberta com Mata Atlântica e, no começo do ano, também foi afetada pelo rompimento da barragem de Brumadinho.

Segundo o MPF (Ministério Público Federal), foi relatado pelos indígenas ao procurador que “pessoas desconhecidas teriam rondado a aldeia, efetuado alguns disparos de arma de fogo e provocado incêndio em mata próxima àquela aldeia”. O MPF, no entanto, disse não ter informações sobre os supeitos do incêndio. A Polícia Federal informou que não comenta investigações em andamento.

Segundo o Instituto Socioambiental, foi encontrada na aldeia uma garrafa plástica com cheiro de combustível. Uma filha do cacique da aldeia, em depoimento ao Mídia Ninja, disse que homens estavam retirando madeira da reserva na manhã do incêndio e, ao serem impedidos pelos indígenas, teriam dito que voltariam à noite para continuar a extração ilegal. O MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) afirmou que a aldeia, um dia antes do incêndio, foi ameaçada por homens encapuzados que entraram no local disparando tiros para o alto.

As imagens da índia foram divulgadas no dia 8 de julho no telejornal local da TV Record. Outro ângulo do incêndio aparece ainda em vídeo do Mídia Ninja.

Nesta sexta-feira (23), Aos Fatos identificou ainda publicações nas redes sociais que, apesar de também descontextualizarem a época e o local do vídeo, apontam um culpado diferente para o incêndio: o governo Bolsonaro. De acordo com esses posts, o que as imagens mostrariam seria resultado da omissão dos órgãos ambientais em conter queimadas de fazendeiros para abertura de novas áreas de pastagem, o que também não pode ser comprovado.

Referências:

1. UOL
2. R7 (Fontes 1 e 2)
3. Estado de Minas
4. Instituto Socioambiental
5. MAB