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Veja o que é verdade e o que é mentira no discurso de posse de Trump

publicado em: 20 de janeiro de 2017, às 18h30


Em parceria com o PolitiFact, plataforma de verificação de fatos americana vencedora do Pulitzer, Aos Fatos checou e traduziu partes do discurso do presidente americano, Donald Trump, que tomou posse do cargo nesta sexta-feira (20) em Washington.

Dentre os pontos já verificados, estão afirmações com vários graus de equívocos a respeito da quantidade de votos que o republicano recebeu nas eleições, do impacto da criminalidade nos Estados Unidos nos últimos anos e dos investimentos norte-americanos em suas forças armadas.

Aos Fatos e PolitiFact fazem parte da International Fact-Checking Network e assinaram, em setembro do ano passado, um compromisso comum de transparência e cooperação.

Esta matéria ainda está em atualização e poderá sofrer alterações até sábado (21). A versão em inglês com as checagens do PolitiFact está aqui.


Dezenas de milhões de pessoas tornaram-se parte de um movimento histórico que o mundo nunca viu igual.

FALSO. Depois de agradecer aos Obama, Trump dedicou seu discurso aos seus apoiadores. Segundo ele, seus eleitores constituíram um grupo "nunca antes visto pelo mundo".

A vitória de Trump realmente trouxe perplexidade à maioria dos cientistas políticos e estatísticos. No entanto, sua vitória não foi um evento sem precedentes, ao menos em termos de votos no colégio eleitoral (e ele perdeu o voto popular para Hillary Clinton numa diferença de mais de 3 milhões).

Trump levou quase 57% dos votos disponíveis no colégio eleitoral, o que o coloca entre os 25% presidentes com menos votos da história americana — e entre o terço com menos votos dentre aqueles que lideraram os EUA depois da Segunda Guerra Mundial.

Ronald Reagan ganhou 98% dos votos no colégio eleitoral em 1984. Trata-se do resultado mais alto desde a Segunda Guerra. Bill Clinton levou 70% dos votos em 1996. Barack Obama teve 68% dos votos em 2008.

Quanto ao tamanho do público para a posse, até a última atualização desta reportagem, ainda não havia estimativas oficiais. No entanto, por meio de fotos, sugere-se que mais pessoas foram à posse de Obama em 2009 A organização da posse de Trump esperava um público de 700 mil a 900 mil pessoas.


Mães e crianças estão condenadas à pobreza nas cidades interioranas.

IMPRECISO. Em outubro de 2016, durante um comício no estado americano de Ohio, Trump disse que aproximadamente a metade das crianças negras estão na pobreza extrema. Essa afirmação esteve correta se for considerado o período mais crítico da recessão, mas a taxa de pobreza nos EUA estava em 37% em 2015.

Conforme outro método de medir a pobreza extrema, a afirmação de Trump é imprecisa. Dentre aqueles que estão na faixa intermediária dos níveis de pobreza, 20,4% são crianças negras com menos de cinco anos de idade.

Nacionalmente, a taxa de pobreza entre os negros em 2015 era de 24,1% — muito superior àquela verificada entre brancos, de 9,1%.


Um sistema educacional rico, mas que priva nossos jovens estudantes de conhecimento.

VERDADEIRO. Trump está correto ao afirmar que os EUA investem mal em educação básica.

Dos 34 membros da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), os EUA ficam em terceiro lugar em gastos por aluno no ensino básico. Em 2012, gastava US$ 11,7 mil, contra US$ 15,5 mil da Suíça.

No entanto, ao analisar avaliações de desempenho, estudantes americanos apresentam performance medíocre. Em matemática, adolescentes americanos ficaram na 26ª colocação das 34 possíveis dentre os países membros da OCDE.


O crime, as quadrilhas e as drogas roubaram muitas vidas e potencial do nosso país.

EXAGERADO. Durante a campanha, Trump prometeu ser um presidente inclinado à lei e à ordem, frequentemente citando estatísticas imprecisas e equivocadas sobre criminalidade. Nesta sexta, ele não citou números, mas sua mensagem de criminalidade crescente e desordenada não encontra amparo em dados oficiais.

Criminalidade e imigração ilegal estão em queda há décadas. Anuário do FBI (a polícia federal americana) mostra declínio constante desde o início da década de 1990, ainda que tenha havido oscilação em 2015. A quantidade de apreensões na fronteira do país também está em queda há 20 anos.


Defendemos as fronteiras de outras nações enquanto nos negamos a defender as nossas.

EXAGERADO. Nesta sexta, essa foi a declaração mais próxima de sua principal bandeira de campanha — a de construir um muro entre EUA e México e fazer o país vizinho pagar por isso. Para Trump, a vigilância na fronteira está sobrecarregada. Por isso, prometeu triplicar o tamanho das tropas anti-imigração.

A fala de Trump, entretanto, é uma hipérbole, já que nem a alfândega americana nem o serviço de imigração se recusaram a defender as fronteiras nacionais durante o governo Obama.

É verdade também que Trump tem razão ao apontar que há desafios em fiscalizar algumas partes da fronteira com o México.

Um relatório de 2011 da U.S. Customs and Border Protection, serviço alfandegário da Receita Federal dos EUA, diz que 873 milhas das 2 mil milhas de fronteira estavam sob "controle operacional". Dos outros 56%, 2/3 eram monitorados, mas com recursos limitados. A agência considerou ainda que o restante da fronteira apresenta "baixo nível de monitoramento".


Gastamos trilhões de dólares no exterior.

VERDADEIRO. Estimativas de custo das guerras no Iraque e no Afeganistão para a economia americana vão de US$ 1,6 trilhão até US$ 6 trilhões até o momento. O valor máximo inclui obrigações futuras, como gastos com assistência médica a veteranos. Projeções ajustadas pela inflação e que já incluem juros estimam gastos básicos de US$ 7,9 trilhões até 2053.


Subsidiamos as forças armadas de outros países enquanto permitimos o esgotamento do nosso exército.

FALSO. Recuperar os militares é uma grande prioridade para Trump, mas seu argumento de que as forças americanas foram desguarnecidas é equivocado.

Os gastos com militares diminuíram durante o governo Obama, sobretudo por conta da decisão de retirar tropas do Iraque e do Afeganistão — decisão parcialmente apoiada por Trump. Ainda assim, o orçamento militar dos EUA é maior que os outros sete maiores orçamentos de defesa do mundo juntos.

Os números de tropas terrestres e navios diminuíram, mas especialistas dizem que, apesar disso, o Exército e a Marinha são atualmente mais eficientes do que décadas atrás.


Vamos seguir duas regras simples: comprar de americano e contratar americanos.

CONTRADITÓRIO. Além de levar de volta empregos, defender a fronteira e recuperar a infraestrutura, Trump prometeu revitalizar os EUA com "mãos americanas e trabalho americano".

O republicano, no entanto, não seguiu esse princípio como empresário. Camisetas com a marca Trump são feitas em Bangladesh, na Ásia; vodca é feita na Holanda; cristais são fabricados na Eslovênia; e abotoaduras, na China. Seu icônico boné com o escrito Make America Great Hats, porém, são feitos na California.

Trump contratou 200 imigrantes poloneses sem documentação para trabalhar na obra de construção das torres Trump e requisitou centenas de vistos para contratar trabalhadores estrangeiros para a sua casa noturna Mar-A-Lago Club, na Florida.