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UFRJ ainda não recebeu R$ 21 mi do BNDES para restaurar Museu Nacional; post distorce informação

Por Bernardo Moura

3 de setembro de 2018, 15h33


Um dia após o incêndio que consumiu o acervo e o prédio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, viralizou no Facebook nesta segunda-feira (3) uma postagem que traz informações distorcidas acerca de um contrato de investimento de R$ 21,7 milhões celebrado entre o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) e o museu, que é gerido pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Ao contrário do que afirma a postagem, feita pela página Ministério da Defesa dos Memes, a UFRJ não “recebeu uma grana forte do BNDES em junho para restaurar o museu”. Na verdade, naquele mês, foi apenas assinado o contrato de repasse do investimento do banco ao Museu Nacional, via Lei Rouanet. Nenhum valor foi desembolsado na ocasião.

Em nota publicada nesta segunda-feira, o BNDES afirmou que a primeira parcela do total que foi acertado, R$ 3 milhões, seria feita em outubro para justamente servir ao projeto executivo de combate a incêndios na instituição, que completou 200 anos em 2018. O valor restante seria repassado ao museu em parcelas ao longo de quatro anos.

Até a tarde desta segunda-feira, a postagem com informações distorcidas já tinha mais de 1.500 compartilhamentos. Denunciado por usuários do Facebook, o conteúdo foi marcado como DISTORCIDO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona).

Leia abaixo, em detalhes, o que verificamos.


DISTORCIDO

O mais irônico é que a UFRJ recebeu uma grana forte do BNDES em junho para restaurar o museu. Agora, pergunta à UFRJ para onde essa grana foi. Vai, pergunta.

Para embasar a suspeita que lança sobre a UFRJ, a imagem publicada pela página Ministério da Defesa dos Memes expõe também título de reportagem publicada pela Agência Brasil em 6 de junho deste ano: “Museu Nacional recebe R$ 21 milhões para revitalizar prédio e acervos”. Apesar do verbo “receber” em tempo presente, o texto original da reportagem trata apenas da assinatura de acordo entre o Museu Nacional e o BNDES para o repasse de R$ 21,7 milhões, como parte das comemorações do bicentenário da instituição, e não cita qualquer desembolso feito na ocasião.

A verdade é que esse dinheiro ainda nem chegou a ser repassado ao Museu Nacional. A primeira parcela do total, R$ 3 milhões, estava prevista para ser liberada em outubro, como esclareceu nota emitida pelo BNDES nesta segunda-feira. O desembolso do restante dos R$ 21,7 milhões seria feito em parcelas à Associação de Amigos do Museu Nacional e à UFRJ em até quatro anos.

O valor previsto no contrato celebrado em junho corresponde à terceira fase do plano de recuperação do museu. Nas etapas anteriores, seriam investidos mais de R$ 24 milhões, mas os valores também nunca foram repassados. Os recursos previstos para a primeira parcela seriam aplicados no sistema de incêndios do museu, de acordo com o BNDES — que afirma ter feito essa exigência para a liberação da verba.

O restante do dinheiro estava previsto para ser usado na remoção de toda a coleção armazenada em solução inflamável para uma edificação anexa ao prédio histórico, na reestruturação do sistema elétrico e na criação de um fundo patrimonial (endowments) para garantir a sustentabilidade financeira de longo prazo do Museu Nacional, de acordo com o BNDES.

Com incêndio deste domingo, o BNDES informou em sua nota que está “à disposição da direção do Museu Nacional e da Universidade Federal do Rio de Janeiro para redirecionar os recursos já aprovados aos esforços de reconstrução do prédio e, no que for possível, de restauração do acervo”.

O ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, endossou a informação do BNDES: “A previsão para o primeiro repasse era justamente agora o mês de outubro, seria repassada a primeira etapa de R$ 3 milhões. Infelizmente, o incêndio aconteceu antes disso (…). Não foi possível [fazer o repasse antes] porque ainda eram necessários ajustes no projeto”.

Esta reportagem foi atualizada às 19h20 de 3 de setembro de 2018 para acrescentar informações sobre repasses ainda mais antigos prometidos pelo BNDES, mas nunca efetuados.