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Sites de fake news foram os mais populares em grupos de WhatsApp nas eleições

Por Amanda Ribeiro

1 de agosto de 2019, 10h00


Sites conhecidos por difundir desinformação estão entre os que mais circularam nas eleições de 2018 em grupos de WhatsApp alinhados à direita e à esquerda, segundo estudo da Northwestern University, nos Estados Unidos. O Jornal da Cidade Online, que o Aos Fatos revelou usar perfis apócrifos para atacar políticos e magistrados, e o Plantão Brasil, ligado a uma série de páginas que veiculam notícias falsas, foram dois dos veículos mais populares identificados no estudo.

Os pesquisadores Victor Bursztyn e Larry Birnbaum, do departamento de Ciências da Computação da universidade americana, analisaram 232 grupos de WhatsApp dos dois lados do espectro político e que somavam um total de 45 mil usuários. Eles coletaram cerca de 2,8 milhões de mensagens em formato diversos (texto, imagem, vídeo e outros conteúdos multimídia) entre 1º de setembro e 1º de novembro de 2018. Cerca de 12% das mensagens compartilhadas continham links.

“Sabendo que o Brasil é o segundo maior mercado do WhatsApp, atrás apenas da Índia, pudemos antecipar que essa rede seria usada como arma eleitoral, uma vez que permite que milhares de grupos pequenos e opacos se conectem com enorme abrangência e relativa sensação de anonimidade”, afirmou Bursztyn ao Aos Fatos.

À direita. Com textos compartilhados 3.075 vezes, o Jornal da Cidade Online foi o site mais popular nos grupos de WhatsApp identificados com ideias e políticos de direita. No dia 4 de julho, o Aos Fatos mostrou que esse portal usou perfis falsos em publicações com ataques e desinformação a respeito de políticos, desembargadores e até ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).

O site também teve quatro publicações checadas por Aos Fatos como falsas desde as eleições. Em uma delas, de setembro de 2018, era dito que TSE (Tribunal Superior Eleitoral) havia entregado códigos de segurança das urnas eletrônicas a uma empresa venezuelana por meio de licitação.

Após a checagem, o Jornal da Cidade Online se limitou a modificar o título para dizer que o TSE “quase entregou” os códigos à Venezuela. Também fez um texto em que afirma que a publicação foi “violentamente atacada por agências de checagem de fatos e por diversos veículos da mídia corporativista tradicional, sendo classificada como ‘distorcida’ e como ‘falsa’ na plataforma do Facebook” e que, por isso, teve seu alcance reduzido.

À época, a publicação com a informação falsa foi compartilhada cerca de 60 mil vezes no Facebook. Hoje, o conteúdo já acumula cerca de 80 mil compartilhamentos. Uma das últimas interações de usuários na rede social com o texto ocorreu em 12 de julho de 2019.

Já durante o segundo turno da campanha eleitoral, o Jornal da Cidade Online voltou a ser checado pelo Aos Fatos em 26 de outubro, quando afirmou que o candidato a presidente derrotado Ciro Gomes (PDT) havia declarado voto em Jair Bolsonaro (PSL). O texto é assinado por Otto Dantas, um dos perfis apócrifos utilizados pelo site e revelado por Aos Fatos. Antes com 3.600 compartilhamentos no Facebook, a publicação alcança hoje ao menos 12.000 compartilhamentos.

Outro site conhecido por disseminar desinformação, o República de Curitiba teve seus conteúdos compartilhados 807 vezes entre os grupos de direita no período analisado pelo estudo. Um deles, na reta final da campanha eleitoral, afirmava que o então candidato à Presidência pelo PT, Fernando Haddad, havia prometido libertar criminosos que haviam cometido pequenos delitos. Checada à época por Aos Fatos, a publicação distorcia uma declaração do petista, que, ao falar de suas propostas para segurança pública, mencionou o desencarceramento de pessoas que cometem pequenos delitos — jovens, em sua maioria.

Nem todos os portais que ocupam o topo da lista, no entanto, são sites especializados em disseminar desinformação. Há também veículos como O Antagonista (quarto colocado do ranking), comandado pelos jornalistas Diogo Mainardi, Mario Sabino e Claudio Dantas, que fizeram carreira na imprensa brasileira — os dois primeiros na Veja e o segundo na Istoé. Essas duas revistas semanais, aliás, também integram o rol dos sites mais populares à direita, ocupando a 18ª e a 10ª posições, respectivamente. O portal R7, da Rede Record, aparece em destaque, na segunda posição da lista compilada pelos pesquisadores.

À esquerda. Entre os grupos de WhatsApp identificados com a ideologia e políticos de esquerda, o site mais popular durante as eleições foi a versão brasileira do Sputnik News, do conglomerado de mídia russo Rossiya Segodnya. A agência de notícias, que tem escritórios em cerca de 30 países, geralmente publica notícias curtas que não apresentam viés ideológico.

Não é o caso, no entanto, do Plantão Brasil, portal notadamente de esquerda que integra uma rede de diversos outros sites com alinhamentos ideológicos diversos e que gera lucro com desinformação. A rede chegou a se apropriar do nome do Aos Fatos para espalhar notícias falsas com o domínio aosfatos.com.

Nos grupos de Whatsapp analisados, três links do Plantão Brasil foram compartilhados 139 vezes. Um deles é um texto de 2017 que traz dados falsos sobre a Previdência Social, então alvo de proposta de reforma pelo governo Michel Temer. De acordo com o título do conteúdo, as dívidas com o INSS de empresas como Globo, Friboi e Itaú poderiam dobrar o valor das aposentadorias.

Apesar de não ter sido checada, à época, por Aos Fatos, a informação não procede. De acordo com dados do Ministério da Fazenda, em 2017, dos R$ 427,4 bilhões devidos por empresas, apenas cerca de R$ 160 bilhões (37%) seriam considerados recuperáveis.

Tendências. Segundo o estudo, os usuários de direita aparecem mais conectados entre si e compartilham mais conteúdos multimídia (fotos, vídeos e mensagens de áudio) do que aqueles de esquerda. Também é notável a tendência entre esses grupos — também percebida nos Estados Unidos — de consumo de informação por meio de canais do YouTube: 56,3% dos links compartilhados pelos grupos de direita foram vídeos da plataforma. Nos grupos de esquerda, os conteúdos de YouTube representaram 44,2% dos links no período analisado.

Já as publicações oriundas do Facebook e do Twitter são mais expressivas na esquerda, onde representam 20% e 6,2% das mensagens, respectivamente — na direita são 10,8% e 2%.

Para chegar aos grupos, os pesquisadores vasculharam as redes em busca de convites para integrar chats abertos no WhatsApp. Dentre os encontrados, foram localizados 232 grupos partidários — identificados a partir do nome, da foto de perfil e da descrição —, sendo 175 deles de direita e 57 de esquerda. De maneira mais específica, os chats de direita apoiavam o então candidato Jair Bolsonaro (PSL), enquanto os de esquerda se dividiam entre Fernando Haddad (PT), Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede).

Os pesquisadores também fizeram uma comparação dos códigos de área dos celulares registrados com os resultados das eleições por estado para que a análise da amostra dos usuários nos grupos se aproximasse o máximo possível da distribuição regional de eleitores.

São Paulo, estado em que tanto Haddad quanto Bolsonaro receberam mais votos, foi usado como base para definir a distribuição das outras áreas. Por isso, segundo os autores do estudo, esse é o estado que concentra a maior quantidade relativa de participantes, seguido por Minas Gerais e Rio de Janeiro. As duas últimas colocações são ocupadas por Roraima e pelos números internacionais.

Referências:

1. Research Gate
2. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3 e 4)