Aos Fatos

Roger Waters não está envolvido em esquema de corrupção do PT

Por Alexandre Aragão

22 de outubro de 2018, 18h03


Um texto publicado no site Terça Livre afirma de maneira falsa que o músico britânico Roger Waters, fundador da banda Pink Floyd e atualmente em turnê pelo Brasil, está envolvido em um esquema de corrupção do PT. A publicação se baseia em um tweet do ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, que disse que Waters “recebeu cerca de R$ 90 milhões para fazer campanha eleitoral disfarçada de show ao longo do 2º turno”.

Sá Leitão não apresentou provas da acusação, e a T4F, empresa responsável pela turnê de Waters, não confirmou os valores citados. Questionado no Twitter pelo jornalista Tim Vickery, da BBC, o ministro respondeu: “As informações do post são verdadeiras. 1) Ele ganhou R$ 90 milhões para fazer shows/entrevistas no Brasil. 2) Ele está fazendo campanha contínua contra um candidato em shows/entrevistas, interferindo no processo eleitoral.” Em nenhum momento, porém, ele liga os pagamentos ao PT ou ao presidenciável Fernando Haddad, como fez o Terça Livre.

No Facebook, o texto do Terça Livre ligando Waters a um esquema de corrupção do PT recebeu mais de 8.000 compartilhamentos, dos quais 3.700 foram feitos a partir da página “Pau de Arara Opressor”. Denunciada por usuários, a publicação foi marcada por Aos Fatos com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona).


FALSO

Roger Waters envolvido em esquema de corrupção do PT

Na manhã de domingo (21), o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, escreveu no Twitter: “Roger Waters recebeu cerca de R$ 90 milhões para fazer campanha eleitoral disfarçada de show ao longo do 2º turno. Na Folha, chamou Bolsonaro de ‘insano’ e ‘corrupto’. Sem provas, claro. Disse aos fãs que não voltará ao Brasil caso ele ganhe. Isso sim é caixa 2 e campanha ilegal!”. Foi com base nesses tweets que o Terça Livre publicou as acusações contra Waters. O site adicionou ainda um suposto envolvimento do músico com PT e com Fernando Haddad, o que não foi mencionado pelo ministro.

No tweet, Sá Leitão faz referência a uma entrevista de Waters à Folha de S.Paulo, publicada na sexta-feira (19), em que o músico declarou: “Bolsonaro está na política brasileira há 30 anos e é totalmente corrupto! E é louco. Vingativo e insano.”

O ministro também faz referência a um fato ocorrido na semana passada: outra reportagem na Folha de S.Paulo revelou que empresários simpáticos ao presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) firmaram contratos com agências de marketing digital para disparar mensagens de WhatsApp anti-PT em massa. A prática é ilegal e pode ser enquadrada como caixa dois, pois, desde a reforma eleitoral de 2015, empresas são proibidas de doar dinheiro a campanhas e partidos.

Os R$ 90 milhões citados por Sá Leitão seriam o cachê que o ex-Pink Floyd teria recebido pelos oito shows no Brasil, mas os valores não foram confirmados ao Aos Fatos pela empresa T4F, que produz a turnê de Waters. Procurada nesta segunda-feira (22), a T4F também não quis se pronunciar sobre a declaração do ministro.

A atual turnê começou em São Paulo, no dia 9 de outubro, dois dias após o primeiro turno da eleição. Houve outro show no dia seguinte, na capital paulista, e apresentações em Brasília (13), Salvador (17) e Belo Horizonte (21). Ainda estão marcados shows no Rio de Janeiro (24), em Curitiba (27) e em Porto Alegre (30).

Desde o primeiro show, em São Paulo, Waters mostrou o nome de Bolsonaro em uma lista de líderes classificados por ele como neofascistas, e que inclui também Donald Trump (Estados Unidos), Marine Le Pen (França) e Vladimir Putin (Rússia), entre outros. A partir do segundo show da turnê, também em São Paulo — e após a repercussão das críticas a Bolsonaro —, Waters cobriu o nome do político com uma tarja vermelha em que aparece escrito “ponto de vista político censurado”, que desaparecia para revelar o nome do presidenciável.

No show em Salvador, no dia 17, Waters fez ainda uma homenagem ao capoeirista Moa do Katendê, assassinado na cidade a facadas por um apoiador de Bolsonaro após declarar que votou no PT.

No Twitter, o jornalista Tim Vickery, da BBC, questionou o ministro Sérgio Sá Leitão: “Sergio. Que diabos aconteceu com você?” Sá Leitão respondeu: “Sou o mesmo de sempre. Independente, íntegro e racional. As informações do post são verdadeiras. 1) Ele ganhou R$ 90 milhões para fazer shows/entrevistas no Brasil. 2) Ele está fazendo campanha contínua contra um candidato em shows/entrevistas, interferindo no processo eleitoral.” Em nenhum momento o ministro atribui os R$ 90 milhões ao PT ou ao candidato a presidente Fernando Haddad, como faz o texto no site Terça Livre.

Aos Fatos entrou em contato com o Terça Livre por e-mail na tarde desta segunda (22), mas ainda não obteve resposta. Após a publicação desta checagem, Allan dos Santos, que se identifica como jornalista e apresentador do Boletim da Manhã no canal Terça Livre TV, postou no Twitter: "Na justiça, (sic) veremos quem está falando a verdade. Cansei de ver minha empresa ser chamada de mentirosa".