Aos Fatos

Tania Rego/ABr

Relatos de falta de verba e abandono do Museu Nacional remontam à década de 1950

Por Ana Rita Cunha e Judite Cypreste

3 de setembro de 2018, 18h15


Contingenciamento de verbas e um longo histórico de abandono mostram que os problemas do Museu Nacional não começaram com o incêndio que consumiu acervo e prédio da instituição neste domingo (2). Aos Fatos identificou registros de autoridades que já alertavam para o risco de incêndios no museu, vinculado à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), desde os anos 1970. As reclamações de cortes de verbas e de falta de manutenção adequada são ainda mais antigas e datam da década de 1950.

Com 20 milhões de peças no acervo, o Museu Nacional foi palco de eventos históricos nacionais, como a assinatura da carta de independência do país, e tinha um acervo que incluía o crânio de Luzia, considerado um dos fósseis humanos mais antigos encontrados na América do Sul, com 11.500 anos. Dados do Portal da Transparência, no entanto, demonstram que a manutenção desse acervo estava à míngua: os dados mais recentes, de julho deste ano, mostram que o museu recebeu em 2018 R$ 33,2 mil de R$ 204 mil autorizados.

Orçamento apertado. A realidade orçamentária do Museu Nacional é de contingenciamento de recursos desde 2014 — primeiro dado da série histórica disponível no Portal de Transparência do Governo Federal. Aos Fatos entrou em contato com a UFRJ para pedir dados orçamentários de anos anteriores, mas, até a publicação desta reportagem, não havia recebido retorno. Procurada, a assessoria de imprensa do Ministério da Educação informou por e-mail que a UFRJ é quem tem as informações sobre recursos destinado aos museu por ser a "responsável pela gestão do espaço" . Os sistemas orçamentários do governo federal, como o Siga Brasil, não apresentam nível de detalhamento tão específico.

Diferente da maioria dos museus públicos, que são vinculados ao Ministério da Cultura, a verba do Museu Nacional é oriunda do Ministério da Educação. A pasta repassa a verba orçamentária destinada à UFRJ, que, como unidade autônoma, define o valor que é repassado ao Museu Nacional.

Em 2014, dos R$ 1,3 milhão empenhados, ou seja, o dinheiro planejado para ser gasto com o museu, menos da metade (R$ 571,9 mil) foram efetivamente destinados ao Museu Nacional. Em 2015, essa diferença foi ainda maior: dos R$ 805,5 mil comprometidos, apenas R$ 134,5 mil foram pagos. Em 2016 e 2017, a diferença entre o valor empenhado e o pago caiu, mas o Museu Nacional continuou recebendo menos do que R$ 520 mil, mínimo necessário orçado pela diretoria do museu para a manutenção da instituição (veja gráfico abaixo).

Linha do tempo. Sem dados detalhados de anos anteriores a 2014, Aos Fatos foi à caça de informações sobre o estado de conservação do Museu Nacional. Encontrou vestígios de queixas e relatos de condições precárias desde a década de 1950. Veja, abaixo, o resultado da pesquisa.

janeiro de 1958

Um patrimônio histórico ameaçado

Esse foi o título da matéria do jornal O Estado de S. Paulo, que, há 60 anos, já retratava o descaso com o Museu Nacional. "O Museu Nacional sem recursos para atender aos seus programas de pesquisas e exposições - Lixo, desordem e jogatina é o resultado da incompreensão e do desleixo das autoridades do Distrito Federal", afirmava a reportagem. É possível ver, em arquivo, aqui.

abril de 1967

O Brasil é espoliado pelo desprezo ao seu maior museu

O jornal O Globo relatou as dificuldades enfrentadas pelo Museu Nacional, como a queda de um caibro de sustentação do teto da biblioteca do museu, que, desgastado pelos cupins, não suportou um temporal e ruiu. Em novembro do mesmo ano, reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, às vésperas dos 150 anos do museu, mostrou que a falta de verba não é notícia nova. À época, a reportagem apontou que a instituição não tinha dinheiro "nem para a troca das legendas dos 1.200 objetos expostos".

julho de 1978

Museu da Quinta é alvo fácil para incêndio

Uma reportagem do jornal O Globo mostrou que o risco de incêndio já rondava o prédio décadas antes da fatalidade deste último 2 de setembro. Em junho de 1978, à ocasião do aniversário de 160 anos do museu, o jornal carioca publicou um artigo que denunciava a falta de verbas do museus: “Uma casa sem verbas, foi ali que nasceu a ciência do Brasil”.

junho de 1980

Patrimônio histórico e cultural às moscas

Ainda no regime militar, a reportagem que abria o caderno de Cultura do jornal O Globo, em 1980, alertava para a falta de recursos no Museu Nacional.

Outubro de 1991

Condições do prédio põem acesso em risco

"Universidade vai lançar o SOS Museu Nacional" foi o título da reportagem do jornal O Globo que relatava as dificuldades de manutenção do museu com a falta de verbas.

maio de 2004

Não há sistema contra incêndio, apenas alguns extintores

Em maio de 2004, o museu já havia passado por outra situação relacionada à sua segurança. Na ocasião, pelo menos 24 livros raros foram roubados do acervo do Museu Nacional. Do século 17 a 20, desapareceram obras como um livro em latim de Hans Staden sobre índios do Brasil e da América do Sul, datado de 1592, e um livro de 1860 de Charles Ribeyrolles com fotos de D. Pedro II e da família imperial. O roubo foi descoberto por acaso: após uma solicitação de pesquisa foi dada a falta dos exemplares. Segundo o então diretor do museu na época, Sérgio Alex Azevedo, o museu passava por graves problemas de segurança, e contava apenas com 20 seguranças. “Além disso, não há sistema contra incêndio, apenas alguns extintores”, disse Azevedo na ocasião.

novembro de 2004

O museu vai pegar fogo

Em novembro de 2004, o então secretário estadual de Energia, Indústria Naval e Petróleo, Wagner Victer, em entrevista veiculada pela Agência Brasil, alertou para os sérios riscos de incêndio que o Museu Nacional já corria. Após uma visita ao local, o secretário afirmou: "o museu vai pegar fogo. São fiações expostas, mal conservadas, alas com infiltrações, uma situação de total irresponsabilidade com o patrimônio histórico”. Tal previsão veio a se concretizar 14 anos depois.

janeiro de 2006

Museu Nacional ainda conta com 42 gravuras e nove livros desaparecidos

Dois anos depois, em 2006, nove obras roubadas do Museu Nacional haviam sido recuperadas. Algumas foram enviadas através dos correios por colecionadores e outras apreendidas pela Polícia Federal. Um dos responsáveis chegou a roubar pelo menos 15 outras instituições de arte no país e tentou estagiar no Museu Nacional, segundo informou a O Globo o diretor do Museu Nacional em exercício na época, Ruy Valka. Ainda segundo Valka, apesar de seu histórico, o criminoso teria permanecido apenas seis meses preso.

março de 2011

Museu Nacional anuncia descoberta do maior dinossauro carnívoro do Brasil

Em 2011, foi a vez de outra descoberta significativa: Oxalaia quilombensis, o maior dinossauro carnívoro brasileiro. Anunciada por pesquisadores do Museu Nacional, a espécie conseguiu ser identificada após 12 anos de estudo de fósseis encontrados na Ilha do Cajual, no Maranhão. Segundo disse a pesquisadora Elaine Machado, a descoberta era de grande interesse por se tratar de uma espécie com características diferentes de outros dinossauros carnívoros. “E, por ter sido uma das estrelas do filme Jurassic Park, ele chama muita atenção”, completou a pesquisadora na época.

setembro de 2013

Museu Nacional da Quinta da Boa Vista ganha exposição permanente com 2 mil invertebrados

Após quatro anos de revitalização, a exposição Conchas, Corais e Borboletas retornou ao museu em 2013. Com dois mil exemplares de animais invertebrados, a reforma custou R$ 500 mil, com recurso do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), da Caixa e da Associação dos Amigos do Museu Nacional.

outubro de 2013

É 'muito pouco provável' conseguir o financiamento

No mesmo ano, uma grande reforma de ampliação do museu foi prometida para a chegada do bicentenário, comemorada neste ano. Na promessa, estavam três edifícios em anexo, que seriam os responsáveis por abrigar o arquivo e laboratórios da UFRJ. O antropólogo Luiz Fernando Dias Duarte, então diretor do comitê do segundo centenário do museu, afirmou que estava lutando pelo financiamento do projeto por ocasião do aniversário da instituição. Para os responsáveis do museu, esta conquista era ‘pouco provável’

agosto de 2014

É uma construção incrível

Os problemas estruturais do prédio, voltaram a ser destaque na imprensa. Em reportagem de O Globo, o então arquiteto e chefe do escritório do museu, Ricarte Linhares Gomes, afirmou que o prédio passava por problemas estruturais há muitos anos. De acordo com ele, a edificação guardava técnicas quase bicentenárias de construção e seriam necessários R$ 125 milhões para restaurá-la. Desde 1995, o paço estava sendo restaurado, com tentativas de acabar com cupins, recuperação dos telhados e modernização das instalações e sistemas de segurança.

Para a historiadora Maria Paula, a importância se dava em vários sentidos: “para a história da arte, da arquitetura, da engenharia e até dos costumes sociais”. “É uma construção incrível”, acrescentou.

janeiro de 2015

Museu Nacional, o mais antigo do Brasil, fecha por falta de dinheiro

Em 2015, por falta de repasses de verbas para o pagamento de funcionários, o Museu Nacional fechou as portas para o público. Sem dinheiro para pagamento de serviços de limpeza e vigilância, um aviso de fechamento por tempo indeterminado chegou a ser fixado no portão histórico do museu.

Uma nota divulgada pela UFRJ dizia: “Naquela que deveria ser a 'Pátria Educadora', conforme promessa da Presidente Dilma Rousseff em sua posse, a UFRJ não tem recebido os recursos que lhe cabem, inclusive para pagamento das empresas que prestam serviços de limpeza e portaria ao Museu Nacional.”

Após o ocorrido, o MEC liberou R$ 4 milhões para a UFRJ, o que, segundo o ministério, seria o suficiente para a solução do problema. Ainda de acordo com o ministério, os recursos poderiam ser aplicados de acordo com as necessidades da universidade, que possui autonomia para a aplicação dos gastos.

agosto de 2017

Há morcegos e gambás nos forros

No relatório anual do Museu Nacional, publicado em 2017 com dados de 2016, os problemas de infraestrutura do prédio foram mais uma vez evidenciados. De acordo com o documento, enquanto aguardava pela liberação dos recursos por parte do BNDES para a então reforma e ampliação prometida nos anos anteriores, o museu sofria com problemas que iam de goteiras e infiltrações a animais, como morcegos e gambás, nos forros do prédio. A segurança do acervo foi mais uma vez discutida, tendo sido feito um alerta para o mau funcionamento do circuito de TV e câmeras do prédio.

Ainda de acordo com o relatório, a produtividade da biblioteca foi reduzida por ocasião das Olimpíadas e da greve dos técnicos-administrativos em protesto, principalmente, contra a aprovação da PEC 241, que congelou gastos públicos por 20 anos.

fevereiro de 2018

‘Só temos verba para medidas paliativas’, diz diretor do Museu Nacional

Em fevereiro deste ano, o paleontólogo e atual diretor, Alexander Kellner, reclamou, em entrevista ao jornal O Globo, da falta de interesse da iniciativa privada em patrocinar o Museu Nacional. Ao ser questionado sobre os problemas que foram apontados no relatório de 2016, o diretor afirmou que o maior deles eram as goteiras. Ele disse ainda que a verba disponível servia apenas para medidas paliativas de prevenção.

No carnaval carioca, a instituição foi tema do desfile da escola Imperatriz Leopoldinense. Com o samba-enredo “Uma noite real no Museu Nacional”, a escola figurou em oitavo lugar.

junho de 2018

Museu Nacional recebe R$ 21 milhões para revitalizar prédio e acervos

No dia do aniversário de seu bicentenário, o então aguardado empréstimo do BNDES para o Museu Nacional foi assinado. Estavam previstos repasses de R$ 21,7 milhões, destinados para o plano de revitalização do prédio histórico, seu acervo e espaços de exposição. “Eu estou extremamente otimista porque o Museu Nacional está completando dois séculos de existência e isso não é algo trivial para um país tão jovem como o nosso. A gente precisa mostrar isso para a população”, defendeu na época Kellner, diretor da instituição.

Em reportagem da Folha de S.Paulo sobre a ocasião no aniversário, a informação era que 10 das 30 salas de exposição do Museu estavam fechadas e não havia previsão para a abertura das mesmas.

"O maior acervo é este prédio, um palácio de 200 anos em que morou d. João 6º, d. Pedro 1º, onde foi assinada a Independência", diz Kellner. "A princesa Isabel brincava aqui, no jardim das princesas, que não está aberto ao público porque não tenho condições", disse o diretor.

Aos Fatos checou nesta segunda-feira (3) que esse valor ainda não havia sido repassado pelo BNDES à administração do museu.

setembro de 2018

Incêndio destrói o Museu Nacional, na zona norte do Rio, com acervo com 20 milhões de itens

Por volta das 19h do último domingo (2), um incêndio, ainda sem causas conhecidas, tomou conta do Museu Nacional. Sem informação de feridos até o momento, quatro vigilantes que estavam no local conseguiram escapar.

Até o início da noite desta segunda-feira (3), a notícia é que ao menos o meteorito Bendegó, o maior do Brasil e exposto desde 1892, está intacto. O artefato foi levado para a instituição em 1888, por ordens do Imperador Dom Pedro II e lá permaneceu.

Nos bairros vizinhos ao parque, o cheiro de fumaça e restos de documentos sobrevoam o ar. Com um acervo de mais de 20 milhões de itens, não há ainda informações sobre o que foi salvo das chamas.

A repercussão internacional da tragédia indicam a dimensão da perda. O presidente da França, Emmanuel Macron, no Twitter, disse que o incêndio foi um tragédia e ofereceu ajuda de especialistas do país para a reconstrução do prédio. O jornal inglês The Guardian destacou que o museu “preservava uma insubstituível coleção de objetos dos indígenas brasileiros”. O jornal New York Times noticiou que o incêndio “ameaça centenas de anos de história”. A National Geographic lembrou a perda de importantes coleções de insetos do museu.