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Posts distorcem pesquisa CNI/Ibope para sugerir que houve fraude nas eleições

Por Luiz Fernando Menezes

19 de dezembro de 2018, 13h56


A última pesquisa CNI/Ibope não traz evidências de que houve fraude nas eleições, como sugere uma montagem que circula nas redes sociais. A peça afirma que o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) ganhou as eleições com 55% dos votos válidos “e agora sua aprovação é de 75%”, o que, segundo a publicação, só poderia ser explicado de duas maneiras: ou esses 20% saíram do eleitorado do adversário Fernando Haddad (PT) ou houve fraude nas eleições.

Há, porém, duas distorções evidentes neste argumento:

1) A pesquisa CNI/Ibope não apontou que Bolsonaro tem 75% de aprovação. O levantamento perguntou aos entrevistados se eles achavam que as propostas da equipe do novo presidente estavam ou não no caminho certo, e 75% deles responderam positivamente. Pesquisas de popularidade geralmente utilizam cinco opções (Ótimo, Bom, Regular, Ruim e Péssimo);

2) A pesquisa é feita por amostragem com perguntas cujos resultados não podem ser comparados com o número total de votos das eleições, que é divulgado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Assim, por distorcer o resultado da pesquisa e realizar uma comparação que não pode ser feita, as publicações foram marcadas por Aos Fatos com o selo DISTORCIDO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona). Um post denunciado por usários do Facebook com este conteúdo já reúne 9.500 compartilhamentos e um tweet que traz argumentação semelhante já foi compartilhado cerca de 1.800 vezes desde 15 de dezembro.


DISTORCIDO

Bolsonaro ganhou as eleições com 55% e agora sua aprovação é de 75%, ou seja, houve um aumento de 20%. Mas fica a pergunta; 20% dos eleitores de Haddad mudaram de opinião ou houve fraude nas eleições?

Segundo os dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), de fato, Jair Bolsonaro teve 55,13% dos votos válidos do segundo turno das eleições, contra 44,87% de Fernando Haddad. Em números absolutos, o presidente eleito recebeu 57,7 milhões de votos, cerca de 10,7 milhões a mais que seu concorrente. Vale lembrar que 11 milhões de eleitores anularam ou votaram em branco e 31,3 milhões sequer compareceram.

Já sobre a aprovação do presidente eleito, o post faz referência à última pesquisa da CNI/Ibope, publicada no dia 13 de dezembro, que mostrou que 75% da população acredita que o presidente e sua equipe estão no caminho certo em relação às decisões que estão tomando até agora. A pesquisa entrevistou 2 mil pessoas em 127 municípios entre os dias 29 de novembro e 2 de dezembro.

Portanto, a publicação analisada erra em quatro pontos:

1) O CNI/Ibope mediu a expectativa em torno do novo governo (foram dadas duas opções: “No caminho certo” e “No caminho errado”) e não a aprovação (geralmente com cinco opções que variam de “Ótimo” a “Péssimo”);

2) Enquanto os dados da CNI/Ibope são estimativas baseadas em pesquisas, os do TSE são o resultado, em números absolutos, do segundo turno. Esse é o primeiro ponto que não permite comparação;

3) A pesquisa CNI/Ibope foi feita com amostragem de 2 mil pessoas, cerca de 0,001% do eleitorado das últimas eleições. Esse é outro aspecto que não permite comparações entre os números, uma vez que as amostras não são comparáveis com o resultado final;

4) A montagem também distorce os resultados do segundo turno e exclui os eleitores que preferiram não votar nem em Bolsonaro nem em Haddad. Como dito acima, cerca de 11 milhões de pessoas anularam ou votaram em branco e 31,3 milhões sequer compareceram às urnas. Isso significa que 28% do eleitorado optou por não escolher nenhuma das duas opções.

A assessoria do Ibope Inteligência, contatada por Aos Fatos, confirmou que o argumento da montagem erra ao comparar números que não podem ser comparados, já que não é possível relacionar respostas de perguntas com resultados de eleições. Além disso, a organização atestou que a pesquisa não mediu a aprovação de Bolsonaro, uma vez que ele ainda não assumiu a Presidência da República, mas sim se a população aprova as propostas anunciadas por sua equipe.

Boatos de uma fraude eleitoral contra Bolsonaro circularam com frequência nas redes sociais nestas eleições. Nos últimos meses, Aos Fatos já desmentiu, por exemplo, que o diretor da OEA (Organizações dos Estados Americanos) tinha identificado adulterações de resultados por parte do PT; que Antonio Palocci teria afirmado que houve encomendas para fraudar urnas eletrônicas; e que existiam urnas programadas para autocompletar o número 13, de Fernando Haddad.