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Bernardo Moura

Por que a enquete de Bolsonaro sobre radares não serve para medir a opinião pública

Por Bruno Fávero

13 de dezembro de 2019, 16h18


O presidente Jair Bolsonaro recorreu na última quinta-feira (12) a enquetes no Twitter e no Facebook para mostrar o apoio popular a sua iniciativa de suspender o uso de radares móveis em estradas. Mais de 900 mil votos foram registrados em apenas um dia, em sua maioria a favor de sua decisão. Esse tipo de pesquisa, contudo, não tem validade estatística nem pode ser considerado representativo da população.

A iniciativa veio dois dias depois de a Justiça invalidar um despacho presidencial de agosto que suspendeu o uso desses equipamentos. Em junho, o presidente já havia dito que decidiria sobre a proibição dos radares por meio de uma enquete online.

Antes esnobadas, técnicas de pesquisa de opinião pela internet têm evoluído, mas são menos precisas do que as tradicionais e dependem de ajustes estatísticos complexos, o que enquetes do Facebook e do Twitter não oferecem.

Os algoritmos dessas redes sociais também enviesam os resultados porque tendem a mostrar as pesquisas para quem já segue Bolsonaro — e, presumivelmente, o apoia. Além disso, os resultados podem ser manipulados por robôs.

Veja abaixo como funcionam as pesquisas de opinião e por que as enquetes de Bolsonaro não funcionam para medir a opinião da população sobre os radares.

1. As pesquisas tradicionais

Uma das bases teóricas por trás das pesquisas eleitorais e de opinião é o Teorema Central do Limite, um dos mais importantes do campo da estatística. Sem entrar na explicação matemática, uma de suas consequências é que, obedecidas certas condições, é possível estimar características e opiniões de toda uma população entrevistando uma pequena amostra dela.

Um dos requisitos para que as pesquisas sejam confiáveis é que a seleção de entrevistados seja aleatória. Ou seja, se uma pesquisa pretende mostrar o que os brasileiros pensam sobre determinado assunto, todos os brasileiros devem ter a mesma chance de serem escolhidos para responder às perguntas. Essa técnica é chamada de "amostragem aleatória simples".

Na prática, produzir amostras aleatórias simples de populações grandes é muito difícil e caro, então institutos de pesquisa costumam usam outra técnica chamada "amostragem estratificada".

Antes de ir a campo fazer entrevistas, os pesquisadores pegam dados conhecidos sobre a população brasileira — como gênero e idade, por exemplo — e se asseguram de que a amostra de entrevistados é representativa nesses indicadores. Então, por exemplo, se a população tem 55% de mulheres e 45% de homens, cerca de 55% dos entrevistados serão mulheres e 45% serão homens.

Cada instituto usa uma variação um pouco diferente dessa metodologia, como explicam em suas páginas o Datafolha e o Ibope.

Nos EUA, o mais comum é que as pesquisas sejam feitas por telefone. Nesse caso, um computador seleciona e liga para números aleatórios; correções da amostra podem ser feitas depois da captação dos dados. No Brasil, o DataPoder 360 é um dos institutos que usa essa técnica.

2. Os problemas de pesquisas pela internet

Pesquisas de opinião feitas pela internet têm limitações importantes, embora pesquisadores tenham avançado em estudos sobre como usá-las para fazer inferências mais precisas sobre a população.

O primeiro problema é que nem todo mundo tem internet. No Brasil, cerca de 75% da população tem acesso à rede em casa, segundo o Ministério das Comunicações. Isso pode gerar distorções na amostra, como, por exemplo, deixar de fora a população mais pobre. No jargão estatístico, isso é chamado de "viés de seleção".

A mesma crítica, em menor medida, pode ser feita às pesquisas por telefone. Nem todo mundo tem um número — e algumas pessoas podem ter vários, distorcendo as chances de cada um ser selecionado. Em um evento de 2018 para discutir essas questões, os diretores do Ibope e do Datafolha criticaram o DataPoder 360 justamente com esses argumentos, segundo reportagem do Intercept Brasil.

A diferença, no caso das pesquisas por telefone, é que elas são feitas há décadas (ao menos nos EUA) e contam com uma ampla literatura sobre técnicas estatísticas que podem corrigir essas distorções.

Outro problema das pesquisas pela internet é que elas são de adesão voluntária, ou seja, é o entrevistado que vai até um site e busca o questionário, não os pesquisadores que o abordam. Isso é o que os estatísticos chamam de "amostra de conveniência".

"Não é possível aplicar a esse tipo de amostra técnicas estatísticas que garantam a validade e a confiabilidade das inferências feitas com base nas respostas", diz Ricardo Ceneviva, professor da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).

Por isso, não é possível, por exemplo, calcular a margem de erro dessas pesquisas.

Isso tudo não significa que pesquisa online sejam sempre ruim, mas essa ainda é uma técnica relativamente pouco usada, sobre a qual há menos estudos e que, por isso, é menos confiável.

Alguns trabalhos acadêmicos mostram que elas até podem ser acuradas, mas precisam usar modelos estatísticos complexos para corrigir as distorções na amostra. Num artigo publicado em 2014, pesquisadores da Universidade de Columbia e da Microsoft conseguiram prever com razoável precisão a intenção de votos dos americanos usando dados de usuários do videogame Xbox.

Em 2013, um amplo levantamento da Associação Americana de Pesquisa em Opinião Pública apontou que pesquisas não baseadas em probabilidade, como é o caso das conduzidas pela internet, "frequentemente tiveram bom desempenho para medir intenção de votos, mas sua precisão é menos clara em outros domínios".

Ainda assim, diversos levantamentos, como este feito na Suécia, apontam que pesquisas pela internet são mais enviesadas do que as feitas por métodos tradicionais.

3. A bolha das redes sociais

Usar o Facebook ou o Twitter para uma pesquisa de opinião agrava todos os problemas que se aplicam à internet em geral.

Primeiro, uma parcela ainda menor da população usa essas redes sociais — até o ano passado, eram cerca de 127 milhões de usuários do Facebook no país, segundo a Folha de S. Paulo. O Twitter não divulga números por país, mas a rede é, no mundo, menor do que o Facebook — tinha 326 milhões de usuários em 2018 contra 2,2 bilhões do concorrente.

Para piorar, o algoritmo que decide o que é mostrado para cada usuário tende a dar mais destaque para conteúdos com os quais ele tem afinidade. Ou seja, quem já segue Bolsonaro — e, pode-se deduzir, tem simpatia por suas propostas — tem uma chance maior de ver uma enquete feita em sua página oficial.

As redes ainda permitem que um usuário crie mais de uma conta, o que acbre a possibilidade que pesquisas sejam manipuladas por robôs, programas de computador usados para automatizar tarefas.

Esse recurso passou a ser usado para inflar o alcance de campanhas políticas nas redes sociais (como mostra reportagem da Agência Pública), mas também pode ser aplicado para manipular enquetes.

"É uma técnica mais sofisticada do que automatizar o disparo de tweets, mas um bom programador que tenha à disposição um número expressivo de contas falsas pode fazer isso sem grandes problemas", avalia Danilo Carvalho, coordenador de redes da Dapp-FGV (Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas).

O problema é ainda pior do que no caso do tweets porque é impossível auditar o resultado de uma enquete. Isso porque as redes sociais só disponibilizam o número de votos totais que cada opção da enquete recebeu, mas não quem foram os usuários que participaram. Assim, é impossível usar detectores de robôs para descobrir se a enquete pode ter sido manipulada.

4. A importância da pergunta

Por fim, outro aspecto importante é a elaboração das perguntas, que pode influenciar as respostas dos entrevistados.

Um exemplo disso aconteceu em uma pesquisa realizada em 2003 nos EUA pelo Pew Research Center. Quando o instituto perguntou à população americana se ela era "a favor ou contra de uma ação militar no Iraque para acabar com o domínio de Saddam Hussein", 68% dos entrevistados se declararam a favor da ação.

As respostas mudaram quando a pergunta foi se eles seriam "a favor ou contra uma ação militar no Iraque para acabar com o domínio de Saddam Hussein mesmo que isso signifique que o exército dos EUA poderia perder milhares de vidas". Apenas 43% se disseram favoráveis nesse caso.

Nas pesquisas eleitorais aqui no Brasil, cuidados com a redação das perguntas também costumam ser tomados. Em pesquisas eleitorais presenciais, é comum, por exemplo, pôr os nomes dos candidatos em um disco, para evitar que a ordem dos nomes influencie os entrevistados, como mostra este post do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados.

Em junho, ao anunciar ao vivo no Facebook que faria uma enquete para decidir sobre o uso de radares móveis, Bolsonaro deixou clara sua posição sobre o assunto. "Vamos lançar uma pesquisa para vocês opinarem se devemos ou não acabar com os radares móveis. Sabe o que é radar móvel? É aquela multa que você não estava esperando e chega. [...] Se você gosta de pagar multa você vai votar a favor, eu vou votar para acabar com o radar móvel."

Logo antes de publicar a enquete na quinta (12), Bolsonaro também postou um vídeo em que o jornalista Alexandre Garcia critica a decisão judicial que obrigou a volta dos radares móveis.

Referências:
1. Twitter (@jairbolosnaro)
2. Folha de S. Paulo 1 e 2
3. Imprensa Nacional
4. O Globo 1 e 2
5. Khan Academy
6. Datafolha
7. Ibope
8. Poder 360
9. MCTIC
10. The Intercept Brasil
11. Microsoft
12. Journal of Survey Statistics and Methodology
13. Political Studies Association
14. Agência Pública
15. Pew Research
16. Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados
17. Facebook (Jair Bolsonaro)