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Perfis falsos de jornalistas criam rede sincronizada de desinformação no Twitter

Por Luiz Fernando Menezes

11 de janeiro de 2019, 22h00


Perfis no Twitter que satirizam jornalistas e veículos de comunicação tornaram-se vetores de difusão de notícias falsas nas redes sociais especialmente após a ascensão de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência da República. Nesta semana, Aos Fatos analisou 40 desses perfis e pôde observar que, além de terem muitas semelhanças entre si, os propósitos de tais contas são mais sérios do que uma sátira.

Além de seguidores assíduos do presidente e de sua família, do apresentador Danilo Gentilli e de outras páginas e personalidades identificados com a direita, os perfis analisados têm outras similaridades. A maioria foi criada a partir de novembro, após a vitória de Bolsonaro nas urnas, usa linguagem que imita a do veículo ou jornalista que emula e twittam quase sempre em horários parecidos.

O Twitter não monitora conteúdo nem remove tweets sem que haja violação dos termos de serviço, mas exige que contas de paródia indiquem claramente que não são reais — seja com um breve alerta na biografia ou no nome do perfil. Isso, no entanto, não impede que usuários denunciem as contas caso acreditem que foram enganados por informações distribuídas por perfis falsos.

Somente na semana analisada por Aos Fatos, 18 dos 40 perfis monitorados foram suspensos ou removidos do Twitter por violações às regras do site. A ação da rede social fez com que responsáveis pelas páginas se organizassem no Gab, uma rede social de extrema-direita, para manter ativas contas que fazem paródias da imprensa ou de figuras da esquerda, alvos contumazes de Jair Bolsonaro e apoiadores.

Confira abaixo as principais conclusões do nosso monitoramento.

Criação recente. A maioria dos perfis fake foi criada no mesmo período: quatro deles entraram na rede social em novembro de 2018, 16 deles em dezembro do ano passado e cinco neste mês. Os que mais destoam desse aspecto são as páginas Falha de S.Paulo, criada em janeiro de 2012, e o The IntercePT Brasil, que está no Twitter desde outubro de 2013. No entanto, é necessário levar em conta que os perfis podem ter trocado de nome em algum momento e não terem sido criadas como páginas de sátira.

Mesmo que não seja uma regra, boa parte dos perfis publicam cerca de três a cinco tweets diários, geralmente fora do horário comercial — no começo da manhã e depois das 18h. Os retweets também seguem uma lógica: como todas as contas seguem outras paródias, elas acabam compartilhando conteúdos parecidos.

Mesmos seguidores. As coincidências não param por aí. Aos Fatos também analisou os 20 primeiros perfis seguidos pelas 40 contas e percebeu que há padrões nas preferências: além das contas oficiais da família Bolsonaro, integrantes do governo e personalidades como o apresentador Danilo Gentilli e o jornalista Felipe Moura estão entre os primeiros a serem lembrados pelas contas de sátira.

Além de perfis oficiais e verificados, há também contas anônimas que se repetem nas preferências desses perfis fake. O Ódio do Bem, que aparece entre os primeiros seguidos de 14 dos monitorados, diz “mostrar a hipocrisia das pessoas que diziam combater o ‘discurso de ódio’, mas que destilavam ódio gratuito contra aqueles que julgavam ‘merecer’”. Ele é marcado pela publicação de contradições de outros perfis do Twitter quando o assunto é discurso de ódio. O presidente Jair Bolsonaro, inclusive, já replicou conteúdo deste perfil.

Outro perfil que aparece com frequência na lista de seguidos é o do STF Oficianal, também com 14 resultados. A conta publica, diariamente, diversas postagens que se assemelham aos comunicados oficiais do STF (Supremo Tribunal Federal). Por exemplo, o tweet que dizia que Patrícia Campos Mello, repórter da Folha de S.Paulo, teria sido condenada a pagar R$ 200 mil ao presidente Jair Bolsonaro por acusá-lo de “propagar fake news”, acabou viralizando em outras redes sociais e chegou a ser desmentido pelo próprio jornal.

O perfil Isentões também é seguido por dez das contas que monitoramos. Claramente pró-Bolsonaro, é bem ativo na rede social e sempre responde veículos de imprensa e figuras da esquerda. Em algumas publicações, no entanto, prefere omitir ou distorcer informações para defender seu posicionamento, como ocorreu no caso dos jornalistas que tiveram sua atuação profissional restringida durante a posse presidencial.

Segundo o perfil, os repórteres estavam reclamando de tortura ao “seguir regras em um ambiente climatizado”. Como Aos Fatos mostrou, na verdade, diversos profissionais de veículos de comunicação nacionais e internacionais informaram problemas como longo tempo de espera para o credenciamento; impedimentos na circulação livre pelas áreas do evento; confisco de frutos redondos; proibição de ingresso com garrafas d’água, entre outras limitações.

Outro ponto interessante é que, mesmo dizendo que são sátiras dos jornais e jornalistas, apenas oito das 40 contas analisadas seguiram, em um primeiro momento, os perfis de quem imitam. Antes, optaram por seguir outras contas que igualmente se denominam como satíricas, como @Estabão_Parodia (10 resultados), @Reginaldoazedo (7 resultados) e @andreiasadifa (7 resultados).

Vale ressaltar também que duas contas não escondem que estão relacionadas. A @EzameRevista e a @RevistaEcoca seguiram as mesmas 20 primeiras pessoas em ordem igual: após @jairbolsonaro, foi escolhida uma lista idêntica de outros perfis de sátira e páginas e personalidades de direita.

Linguagens. Uma breve análise do conteúdo twittado por essas contas já permite concluir que elas vinculam-se a um pensamento de direita, com viés humorístico. São recorrentes as piadas com PT (“Astronauta e Ministro, Marcos Pontes quer realizar expedição para o mundo da Lua; Dilma diz que não precisa ir para estar lá”), Venezuela (“Nicolás Maduro não convida @jairbolsonaro para sua posse, Bolsonaro responde, ‘não vai ter comida, vou fazer o que lá’”) e pautas como feminismo e direitos LGBTI (“Mãe descobre que filha será feminista ao não ver o cérebro no ultrassom”).

Há ainda aqueles perfis que existem claramente para confundir os usuários. Perfis como @JornalOClobo, @GoboNews e @andreiasadifa usam nomes parecidos e twittam com linguagem similar à da imprensa, com fotos e até links falsificados pelo Bit.ly ou Goo.gl. Esses perfis nem mesmo indicam que são sátiras e isso não fica claro nas publicações ou nas hashtags utilizadas.

E, ainda nos casos em que os perfis declaram-se como sátira, não é raro que usuários acreditem e compartilhem seus posts como se reais fossem. Na última semana de dezembro de 2018, por exemplo, o perfil @monicabengamo (que acabou sendo suspenso) publicou um tweet dizendo que o PT teria entrado com uma liminar para anular o projeto de dessalinização proposto por Bolsonaro. Mesmo sendo mentira, a postagem foi compartilhada até fora do Twitter, virou corrente de WhatsApp e até hoje é publicada nas redes sociais como se fosse real.

O candidato pelo PDT à Presidência nas eleições passadas, Ciro Gomes, também foi enganado recentemente por um perfil de sátira. Em novembro do ano passado, o candidato mencionou uma declaração falsa do ministro Paulo Guedes como se fosse verídica: "Quem está dizendo bobagem a três por quatro é o Guedes. Posso repetir aqui uma coisa escatológica? A jornalista perguntou para ele quais eram as empresas prioritárias para a privatização. Ele disse que são aquelas envolvidas no cu dos curiosos". A frase, no entanto, nunca foi dita por Guedes e não passa de uma invenção do perfil Falha de S.Paulo.

Organização. Os perfis que se autointitulam como sátiras estiveram em evidência nesta semana, quando o Twitter começou a suspender e excluir diversas contas. Para os perfis, isso configuraria uma “censura” da grande mídia, que teria ficado “assustada com a popularidade das sátiras”. Após as suspensões e exclusões, as contas passaram a compartilhar a #ParódiaNãoÉFake e algumas chegaram a migrar para o Gab, rede social popular entre a direita.

Mesmo com a autodenominação, é possível perceber perfis que se passam pelas contas reais. Exemplos são os @Grugachato (atualmente suspenso), em alusão ao jornalista Guga Chacra, e @Gilbertojumento, em referência a Gilberto Dimenstein, que já comentaram em publicações de outros perfis oficiais como se fossem as contas oficiais.

Aos Fatos entrou em contato com o Twitter para que eles pudessem emitir um posicionamento oficial sobre o assunto. Por e-mail, a rede social informou que:

“No intuito de proteger a experiência e a segurança das pessoas que utilizam a plataforma, o Twitter tem regras que estabelecem os conteúdos e comportamentos que permitimos. Quando tomamos conhecimento de potenciais violações a essas regras, como conduta de spam ou evasão de suspensão, fazemos uma análise e adotamos as medidas cabíveis de acordo com nossas regras e termos de serviço”.