Aos Fatos

Tony Oliveira/Fotos Públicas

Os erros e acertos de Alckmin no Jornal Nacional e na GloboNews

Por Ana Rita Cunha e Luiz Fernando Menezes

30 de agosto de 2018, 02h30


O ex-governador de São Paulo e candidato à Presidência da República, Geraldo Alckmin, errou ao afirmar que Aécio Neves foi afastado da presidência do PSDB em entrevista nesta quarta-feira (29) ao Jornal Nacional da TV Globo. Na entrevista ao Jornal das 10, da GloboNews, Alckmin errou dados sobre evasão escolar.

Aos Fatos checou seis declarações do candidato em ambos os programas. Veja, abaixo, o resultado.


FALSO

O Aécio Neves foi afastado da presidência do partido. [...] Só fui eleito presidente do PSDB porque ele foi afastado.

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) não foi afastado pelo partido — como afirmou Alckmin em entrevista ao Jornal Nacional — foi ele quem tomou a decisão de deixar a presidência do PSDB em maio de 2017. Após ser afastado do cargo de senador pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Edson Fachin, relator da Lava Jato, o político anunciou a saída da presidência do PSDB. A declaração de Alckmin, portanto, é FALSA.

Aécio é réu sob acusação de crimes de corrupção passiva e obstrução de justiça. Em abril de 2017, a 1ª Turma do STF aceitou denúncia da Procuradoria Geral da República contra o senador. Na ação, o senador é acusado de solicitar, em conversa gravada pela Polícia Federal, R$ 2 milhões em propina a Joesley Batista para poder pagar um advogado para defendê-lo na Operação Lava Jato. Além dele, também estão sendo investigados Andrea Neves (irmã de Aécio), Frederico Pacheco (primo de Aécio) e Mendherson Souza Lima (ex-assessor do senador mineiro Zezé Perrella).

Além de ser réu, Aécio é alvo de outros oito inquéritos. Em três deles há uma organização entre membros de partidos aliados e do próprio PSDB. O primeiro aconteceu durante as eleições de 2010: a Odebrecht, segundo dois delatores, teria repassado R$1,8 milhão em 2009 e R$5,47 milhões em 2010 em vantagens indevidas como pretexto de doações para campanha eleitoral de Aécio e Antonio Anastasia (PSDB-MG). Há um outro caso, de 2010, quando Sérgio Machado, ex-diretor da Transpetro, disse que houve um esquema para “ajudar financeiramente” 50 deputados que garantiriam o apoio à eleição de Aécio para presidência da Câmara, em 2000. O terceiro é de 2014, quando o senador estava fazendo campanha eleitoral para a presidência. De acordo com o delator Benedicto Barbosa da Silva Júnior, Aécio teria pedido R$ 6 milhões via caixa 2 para a Odebrecht a fim de distribuir a quantia para aliados que também eram candidatos.

Em maio, Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), mandou afastar o presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, das funções de senador. Decisão que foi revertida por por liminar, em junho, pelo ministro do STF Marco Aurélio Mello. Em seguida, a 1° Turma do STF decidiu, por três votos a dois, afastar Aécio Neves do mandato de senador e determinar o recolhimento noturno dele em casa, em um processo a que o ele responde por obstrução de Justiça e corrupção passiva.

No entanto, Aécio aguardou ainda a decisão de seus colegas do Legislativo para saber se a imposição ia ou não ser acatada. Em outubro, o Senado julgou o caso de Aécio, que teve o afastamento derrubado por 44 a 26 (você pode conferir como votou cada senador aqui). O PSDB, inclusive, publicou uma nota explicando o voto de seus senadores: “deve-se única e exclusivamente à nossa convicção de que todo e qualquer cidadão tem direito à ampla defesa e ao contraditório”.

Atualmente, Aécio Neves é candidato a deputado federal pelo PSDB em Minas Gerais.


FALSO

Hoje, de cada 100 alunos, 41 não terminam o ensino médio. Tem uma taxa de evasão escolar de 41%.

Alckmin errou, e muito, a taxa de evasão escolar no ensino médio: é, na verdade, de 11,2%. Ou seja, de cada 100 alunos que se matriculam no ensino médio, 11 não concluem os estudos, de acordo com levantamento do Inep, referente aos anos de 2014 e 2015 (dado mais recente). Essa proporção é muito menor do que a apontada pelo candidato do PSDB e, por isso, a declaração foi considerada FALSA.

O ex-governador possivelmente se refere ao levantamento da ONG Todos Pela Educação que aponta que 40,8% dos jovens com 19 anos ainda não terminaram o ensino médio. A pesquisa usa dados da Pnad Contínua, do IBGE, de 2017. Esse dado, no entanto, não quer dizer que 40,8% desses jovens saíram da escola. Na verdade, a informação chama atenção para o alto índice de distorção idade-série. Os dados do Inep com base no Censo Escolar mostram que 32,8% dos alunos matriculados no 1° ano do ensino médio têm dois ou mais anos de atraso — ou seja, entram no ensino médio com mais de 17 anos.

Ao ser questionado a respeito de propostas para a área da educação, Alckmin apresentou o dado para defender a meta de governo de reduzir em 50% a taxa de evasão escolar do ensino médio.


IMPRECISO

[Há] 143 empresas estatais, 43 [foram criadas] só no governo do PT.

Por mais que o primeiro número citado por Alckmin esteja praticamente correto, o segundo — em relação às estatais criadas nos governos petistas — está subestimado.

Na verdade, o Brasil possui 144 empresas estatais ativas segundo o último Boletim das Empresas Estatais do SIEST. Segundo os dados do Ministério do Planejamento, foram criadas 23 empresas estatais no governo Lula e 33 no governo de Dilma Rousseff. Ou seja, na verdade, foram criadas 56 empresas estatais nos anos petistas. Aos Fatoschecou essa informação anteriormente, quando ela foi dita pelo candidato Alvaro Dias.

Esse número também foi citado em agosto de 2016 em uma nota no site do PSDB. O texto indica como fonte da informação um estudo do Instituto Teotônio Vilela, do próprio partido, intitulado “Afinal, para que tanta estatal?”. No entanto, o levantamento aponta ainda um número diferente: 41 estatais petistas.


VERDADEIRO

Você sabe quantos presos em São Paulo? 228 mil presos (...). Nós temos 22% da população brasileira, 35% da população carcerária.

Os números citados pelo ex-governador Geraldo Alckmin durante sua entrevista no Jornal Nacional para argumentar que o Estado de São Paulo prende muito estão bem próximos dos corretos. Portanto, por aproximação, a afirmação é VERDADEIRA.

De acordo com o Infopen 2016 (Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias de junho de 2016), o último divulgado, o estado de São Paulo concentra 33,1% de toda a população prisional do país. Isso significa que o estado possuía, naquela época, 240 mil dos 726 mil presos.

São Paulo, no entanto, não é o estado brasileiro com a maior taxa de aprisionamento do país. Com índice de 536,5 presos para cada 100 mil habitantes, SP registra a quarta maior taxa. O estado fica atrás do Mato Grosso do Sul (696,7), do Acre (656,8) e de Roraima (606,1).

Os números de Alckmin em relação à população total do estado também são bem próximos da realidade. Segundo as Estimativas da População Residente no Brasil do IBGE, o Brasil possui atualmente 208,5 milhões de habitantes. São Paulo reúne 45,5 milhões. Sendo assim, o estado concentra cerca de 21,8% de toda a população brasileira.


VERDADEIRO

O PTC não me apoia. Ele apoia outro candidato.

De fato, o PTC não é da coligação do PSDB para as eleições presidenciais. Compõem a coligação o PTB, o PP, o PR, o DEM, o Solidariedade, o PPS, o PRB e o PSD. O PTC, na verdade, apoia a candidatura de Alvaro Dias, do Podemos, junto com os partidos PRP e PSC.

Apesar de não participar da chapa à Presidência, o PTC está coligado ao PSDB em quatro estados. Em Alagoas, o PSDB é vice na chamada de Fernando Collor que concorre ao governo do estado. Em outros três estados é o PTC quem faz parte da coligação de candidatos do PSDB como: Eduardo Amorim, candidato do PSDB ao governador de Sergipe, Antonio Anastasia, candidato ao governo de Minas Gerais, e João Doria, candidato ao governo de São Paulo.

A declaração do tucano veio em resposta a um questionamento da apresentadora do Jornal Nacional sobre as alianças do PSDB. Segundo o jornal, há contradição quando Alckmin diz que só trabalha com “bons quadros” dos partidos, mas é apoiado pelo PTC, partido do ex-presidente Fernando Collor de Melo. Após a confusão, Renata Vasconcellos se corrigiu: na verdade ela se referia ao apoio do PSDB à candidatura de Collor ao governo de Alagoas, e não o contrário.

De fato, o PSDB de Alagoas não lançou candidatura ao governo e está apoiando Fernando Collor de Melo. Inclusive, os tucanos indicaram um vice à chapa: Kelmann Vieira, vereador de Maceió desde 2012. O apoio foi uma determinação dos partidos do centrão e chegou a gerar repercussões dentro do próprio PSDB: Thereza Collor, candidata à deputada federal pelo PSDB, disse lamentar a aliança: “É muito triste para mim, que cortei da própria carne para combater esquemas nefastos para o Brasil, ver meu próprio partido, ao qual estou filiada há 20 anos, se aliar regionalmente à esta candidatura ao governo de Alagoas”.

Aos Fatos não encontrou declarações de Alckmin sobre essas articulações antes da entrevista no Jornal Nacional. Nesta quarta-feira, durante o programa jornalístico da TV Globo, ele disse que essa aliança "nada tem a ver" com ele e que se trata de “um assunto local”.


VERDADEIRO

Nós subimos, em São Paulo, quase o dobro do Brasil [na nota do Pisa]. O Brasil subiu 11, nós subimos praticamente 22 [nos últimos nove anos].

A nota de São Paulo no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), exame trienal de avaliação da formação educacional básica coordenado pela OCDE, subiu 22 pontos de 2006 a 2015 (resultado mais recente disponível), como afirmou Alckmin. O candidato do PSDB também acertou a variação da nota nacional, que subiu 11 pontos.

Em 2006, a média das notas de São Paulo em matemática, leitura e ciências — as três áreas testadas no Pisa — foi de 382 pontos. Essa média passou para 404 pontos em 2015. Em 2009 e 2012, a média de São Paulo no Pisa foi de 409 e 414 pontos, respectivamente. Isso indica que apesar do crescimento ao longo dos últimos 9 anos, a nota paulista na prova teve queda entre 2012 e 2015. De 2006 a 2015, as notas de matemática do estado tiveram alta de 16 pontos, enquanto as de leitura e ciências subiram 25 e 24 pontos, respectivamente.

No Brasil, a média das notas de matemática, leitura e ciências ficou em 384 pontos em 2006, saltando para 395 pontos em 2015. Em 2009, a média nacional foi de 401 pontos e alcançou 402 pontos em 2012. Assim como no caso paulista, a nota do Brasil também teve queda entre 2012 e 2015. As notas nacionais em matemática cresceram sete pontos, as de leitura, 14, e as de ciências, 11 pontos entre os exames de 2006 e 2015

O Pisa é um exame aplicado de forma amostral a estudantes matriculados a partir do 7º ano do ensino fundamental na faixa etária dos 15 anos. As provas de 2018 foram aplicadas em maio deste ano, mas os resultados só devem ser divulgados no segundo semestre de 2019.