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O que significam os quatro anos do Aos Fatos

Por Tai Nalon

5 de julho de 2019, 21h00


Quando lancei o Aos Fatos, em 7 de julho de 2015, trabalhava com a perspectiva de garantir o oxigênio, o dinheiro e a relevância das atividades deste site até as eleições de 2018. Não era necessariamente um tiro curto, mas, para uma empresa que faturou em seus primeiros 24 meses de operação menos de R$ 100 mil, tratava-se de um teste de nervos. Ocorre que as eleições de 2018 foram fundamentais para o próprio Aos Fatos se reinventar. Isso porque, ao mesmo tempo que foi rapidamente alçado à responsabilidade de moderar o debate nacional nas redes sociais, parte da essência deste site também mudou.

Aos Fatos nasceu com a proposta de checar o que diziam políticos de expressão nacional num mundo em que a mentira fazia parte do discurso público, mas ainda não havia sido instrumentalizada como política pública. A repetição de falsidades, comum ao folclore político brasileiro, vem acompanhada, desta vez, da negação dos registros históricos oficiais, da desvirtuação das fontes confiáveis e da destruição de consensos sobre os quais se solidificou a forma de fazer jornalismo. Na novilíngua do poder, desemprego não existe se não há contagem perfeita, desmatamento não é relevante se ainda há alguma árvore de pé, nazismo é de esquerda por ter sido moderadamente anti-liberal.

Nunca foi tão oportuno trabalhar para narrar diariamente como se levanta e como se deita a nova política nacional de erros factuais e distorções da realidade. O discurso dos políticos virou mais uma ilha no arquipélago da desinformação que grassa nas redes. Muitos deles são simultaneamente consumidores e amplificadores de chorume digital e, portanto, têm a função de casar desinformação com política de Estado. É por isso que o presidente da República, na função de maior representante do nosso sistema político, passou a ganhar atenção mais sofisticada no Aos Fatos.

Em sua última contagem, a equipe de repórteres do Aos Fatos mostrou que, em 180 dias como presidente, Bolsonaro deu pelo menos 198 declarações falsas ou distorcidas. Esse tipo de acompanhamento é feito com o objetivo de mostrar em quais temas a desinformação é mais ou menos usada pelo governo e, a longo prazo, quais as consequências de seu uso recorrente.

No Brasil de 2019, a informação de baixa qualidade tenta vestir as roupas surradas do jornalismo profissional, usando sites com notícias falsas e clones grosseiros para oficializar narrativas que se provaram eficientes dentro de redes como o WhatsApp e o Facebook em formatos menos sofisticados. Entre 2018 e 2019, Aos Fatos passou de verificador de conteúdo nas redes para investigador tanto do alcance quanto da origem dessas fábricas de desinformação.

Aos Fatos também demonstrou que a realidade está escondida entre links, memes, áudios e vídeos que circulam orgânica ou algoritmicamente, em espaços abertos ou fechados. Eles são deletérios para quem ambiciona estar bem informado: só durante a campanha eleitoral de 2018, Aos Fatos desbancou 116 boatos que tiveram ao menos 3,84 milhões de compartilhamentos no Facebook. A massa de mentiras no WhatsApp analisadas pelo Aos Fatos repercutiu até no Washington Post. E o problema sequer jaz na mentira patente: esses conteúdos se espalham em versões que não falseiam tanto assim a realidade verificável, às custas de perder lastro na verossimilhança. Não são necessários, afinal, deep fakes sofisticadíssimos para fazer a audiência pirar; basta uma foto sem contexto para tentar pôr uma eleição inteira em xeque.

Por isso, Aos Fatos decidiu importar uma hipótese aventada em 2017 pelo diretor do American Press Institute, Tom Rosenstiel, segundo quem "a unidade fundamental de checagem de fatos não é apenas um fato, mas uma questão". A declaração de um político, por exemplo, é apenas um dos vários elementos do ecossistema da desinformação. Em rede, a declaração de um político fica atrelada a outras percepções mais ou menos equivocadas sobre o mesmo tema. Em resumo: checar apenas a declaração do político é tratar apenas uma parte do problema.

Essencialmente, isso significou para o Aos Fatos ampliar seus métodos editoriais, antes amplamente focados em classificação de declarações por selos. Estruturalmente, demandou a ampliação da equipe de editores, para contemplar diferentes formatos de conteúdo sobre um mesmo tema. Os selos permanecem base fundamental da checagem feita pela equipe deste site, uma vez que está na boca dos políticos o potencial mais deletério da desinformação. Porém, o jornalismo do Aos Fatos também ganha corpo em formato HQ, em gráficos, em transcrições, em peças visuais sofisticadas e em textos preparados especificamente para o formato de mensagem de WhatsApp.

Aliás, era na comunicação privada que Aos Fatos mirava quando lançou, em outubro de 2018, o chatbot Fátima para o Messenger. Criada para ajudar seus usuários a checarem boatos, memes e quejandos, deve ganhar nova atualização para contemplar usuários de WhatsApp e responder às perguntas mais comuns sobre o que é viral nas redes. Essa Fátima também alavancou projeto de mesmo nome para o Twitter, que, desde julho do ano passado, mapeou 21.105 links com desinformação e já avisou 4.479 usuários e influenciadores sobre o problema que é compartilhar conteúdo não verificado.

O próximo ano reserva ao Aos Fatos a consolidação de seu modelo de negócios, com o lançamento, nos próximos meses, de seu programa de membros. Com ele, os projetos de ampliação das equipes de inovação, investigação e monitoramento de desinformação devem ser incentivados. Paralelamente, Aos Fatos trabalha também com a automatização interna do seu trabalho, com a dinamização de seu banco de dados e a preparação para acoplar a robô Fátima a todo o seu repertório. A ideia é que, num futuro próximo, declarações e peças de desinformação sejam identificadas pela inteligência artificial da Fátima, que atestará, a partir do histórico editorial do site, o que pode ser verdadeiro ou não.

Vamos juntos, aos fatos.