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Secom/Sergipe

O que se sabe até agora sobre o derramamento de petróleo no Nordeste

Por Ana Rita Cunha e Bruno Fávero

1 de novembro de 2019, 18h00


O derramamento de petróleo no Nordeste já atingiu 286 locais e afetou ao menos 14 unidades de conservação na costa brasileira, matando animais e prejudicando a economia da região.

A Polícia Federal apontou nesta sexta-feira (1) o navio petroleiro grego Bouboulina, da empresa Delta Tankers, como provável responsável pelo desastre. Mas ainda há perguntas não respondidas, como a quem pertencia o petróleo que estava sendo transportado e se o derramamento foi ou não proposital.

Abaixo, veja o que se sabe até agora sobre as manchas de óleo que atingiram o litoral brasileiro.

O principal suspeito

Mais de dois meses desde que as primeiras manchas de óleo foram vistas no litoral brasileiro, a Polícia Federal apontou nesta sexta-feira (1º) o possível culpado: o navio petroleiro Bouboulina, da empresa grega Delta Tankers.

Segundo os investigadores, a embarcação atracou na Venezuela em 15 de julho, onde ficou por três dias, e de lá foi para a África do Sul. Nesse trajeto é que o derramamento teria acontecido, a 700 km da costa brasileira nos dias 28 ou 29 de julho.

A investigação teve três frentes, segundo o juiz que autorizou a operação da PF. Na primeira, foram realizadas análises químicas do petróleo recolhido nas praias. Laudos da Petrobras e da UFBA (Universidade Federal da Bahia) apontaram que o material havia sido produzido em campos da Venezuela. A conclusão levou o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, a insinuar que o governo de Nicolás Maduro poderia ter responsabilidade pelo derramamento, o que a própria Marinha negou.

Na segunda frente, estimou-se onde a mancha teria começado, com base em análise de imagens de satélites e estudos das correntes marítimas feitos com ajuda da empresa Hex Tecnologias Geoespaciais.

Finalmente, essas informações foram cruzadas com dados do tráfego de navios na região, e os investigadores concluíram que o Bouboulina era o único que havia passado no local na data estimada do derramamento.

A investigação ainda não terminou porque ainda restam perguntas sem resposta, como, por exemplo, a quem pertencia o petróleo sendo transportado e se o derramamento foi ou não proposital.

A determinação do culpado é importante, entre outros motivos, porque, segundo a legislação brasileira, cabe a ele pagar pelo prejuízos causados pelo desastre.

Os impactos do derramamento

Até esta sexta-feira (1º), o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) havia registrado a presença de óleo em 286 locais de 98 municípios e nove estados do Nordeste. É a maior área já afetada por um desastre do tipo, segundo o pesquisador e professor da Faculdade de Oceanografia da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) David Zee.

As primeiras manchas apareceram na Paraíba e em Sergipe no fim de agosto e depois se espalharam para os outros lugares. Em ao menos cem dos locais afetados, o óleo havia desaparecido na visita mais recente feita por técnicos.

O derramamento causou danos a ecossistemas da região. O Ibama registrou 110 animais atingidos, dos quais 81 morreram, e recolheu preventivamente mais de 3.400 filhotes de tartaruga da Bahia, Sergipe e Rio Grande do Norte. O ICMbio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) afirmou que 14 unidades de conservação federais foram afetadas.

Atividades que dependem do mar, como a pesca, também foram prejudicadas. O governo liberou o pagamento fora de época de seguro-defeso (benefício pago a pescadores na época de reprodução dos peixes, em que a pesca fica proibida) a trabalhadores das áreas atingidas. Estima-se que até 60 mil pessoas poderão reivindicar o dinheiro, o que representaria um custo de R$ 130 milhões.

Reação lenta

Há indícios de que o governo tenha demorado para responder ao derramamento, embora haja pouca transparência sobre o que foi feito. Um decreto de 2013 prevê que, quando há um derramamento de óleo, Ibama, ANP (Agência Nacional do Petróleo) e Marinha monitorem a situação e decidam em conjunto se deve ser acionado o PNC (Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo), protocolo a ser seguido em vazamentos de grandes proporções.

Essas três entidades formam o chamado GAA (Grupo de Acompanhamento e Avaliação). Segundo o governo, esse grupo foi formado assim que a primeira mancha de óleo foi avistada, na Paraíba, em 30 de agosto. O PNC, no entanto, só foi acionado 38 dias depois, em 8 de outubro, segundo documento obtido pelo jornal O Estado de S. Paulo. Contatados por Aos Fatos, nenhum dos três órgãos se manifestou sobre o porquê da demora.

Em entrevista à GloboNews, o ministro Ricardo Salles afirmou que o acionamento do PNC é apenas uma formalidade e que todas as medidas práticas previstas já estavam sendo tomadas.

É difícil avaliar se a afirmação dele é verdadeira ou não porque o manual do PNC, que detalha os procedimentos a serem adotados nessa situação, nunca foi tornado público, apesar de isso ter sido previsto para 2014, segundo o decreto de 2013.

O jornal O Globo teve acesso a uma versão do manual – que, segundo a reportagem, foi compartilhado apenas entre as cúpulas do Ministério do Meio Ambiente, do Ibama, da Marinha e da ANP – e concluiu que o governo federal violou ao menos oito procedimentos previstos no documento.

Outros fatos sugerem que o governo teve uma reação lenta. A Marinha só passou a fazer atualizações regulares sobre a situação das praias do Nordeste a partir de 8 de outubro. Já o Ibama, a partir de 25 de setembro – e só no dia 24 de outubro é que o órgão publicou um panfleto com instruções básicas para voluntários, como os cuidados necessários para manipular o óleo.

O esforço dos governos

O governo federal diz que 3.919 servidores e mais de 5.000 militares estão atuando nas áreas afetadas. Isso inclui funcionários do Ministério do Meio Ambiente, da Petrobras, da Marinha, do Exército, da ANP, universidades, entre outros.

Além de remover o petróleo das praias afetadas, esses órgãos trabalham patrulhando a costa com embarcações e aeronaves à procura novas manchas de óleo. Além do pessoal, ainda segundo o governo, foi disponibilizada uma frota de dez navios, sete aviões, seis helicópteros e dezenas de veículos para ajudar nos trabalhos.

Há ainda uma investigação criminal, na qual a Polícia Federal está envolvida, para tentar chegar ao responsável pelo derramamento.

Prefeituras e governos dos estados afetados também trabalham, mas não há números centralizados sobre suas atuações. Pernambuco, por exemplo, abriu um edital de R$ 2,5 milhões para medir o impacto ambiental do desastre e disponibilizou 400 funcionários para ajudar nos trabalhos. Já a Bahia Pesca, órgão estadual, anunciou que está fazendo um estudo com 200 peixes para determinar se é seguro consumi-los.

O papel das ONGs

De novo, o governo Bolsonaro se voltou contra ONGs (Organizações Não Governamentais) durante uma crise ambiental, como já havia acontecido durante os incêndios na Amazônia.

Sem apresentar evidências, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, chegou a insinuar em tweet que um navio do Greenpeace poderia ter responsabilidade pelo desastre, pois um barco da ONG "estava justamente navegando em águas internacionais, em frente ao litoral brasileiro bem na época do derramamento de óleo venezuelano". Depois, voltou atrás e disse que a ONG tinha um navio perto do local onde foram encontradas manchas de óleo e "não se prontificou" a ajudar.

Em todo caso, o Greenpeace, outras organizações não governamentais e redes de voluntários locais estão atuando na resposta ao desastre ambiental. Abaixo, há uma lista com nove organizações, compilada por Aos Fatos, com atividades programadas nas regiões afetadas.

1. Bahia:
Guardiões do Litoral

2. Pernambuco:
Salve Macaraípe
Xôplastico
Recife sem Lixo

3. Rio Grande do Norte
ONG Oceânica

4. Alagoas
Projeto Praia Limpa
Instituto Biota

5. Ceará
Instituo Verde Luz

6. Atuação geral
Atados

O destino do óleo

Não há um número preciso de quanto petróleo já foi coletado do litoral nordestino. O governo federal fala que já recolheu cerca de 1.000 toneladas do óleo, mas o governo de Pernambuco, por exemplo, afirma que já foram mais de 1.400 toneladas só no litoral do estado. Ao jornal O Globo, o governo de Alagoas informou já ter retirado 726 toneladas do até sexta-feira (25).

O destino de todo o óleo recolhido depende de cada estado. A UFBA, por exemplo, tem um projeto para transformar os rejeitos em carvão. Já Pernambuco está encaminhando o material para um aterro, onde ele é processado, refinado e transformado em combustível para caldeiras.

Em nota, a Marinha afirmou que estava em contato com o Sindicato Nacional das Indústrias de Cimento (SNIC) e com a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) para avaliar o uso do óleo em coprocessamento. Esse nome é dado ao processo pelo qual rejeitos são reaproveitados na fabricação de novos produtos. A técnica pode ser usada, por exemplo, para alimentar fornos na fabricação de clínquer, base do cimento, segundo resolução do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente).

Referências:

1. Aos Fatos
2. Ibama (Fontes 1 e 2)
3. MPF
4. Diário Oficial da União
5. UFBA
6. Marinha (Fontes 1 e 2)
7. Twitter (@rsallesmma) (Fontes 1, 2 e 3)
8. OEC
9. Pronunciamento Oficial
10. Twitter (@tvbrasilgov)
11. Planalto
12. Estado de S. Paulo
13. G1
14. O Globo (Fontes 1 e 2)
15. Governo Federal
16. Semas-PE (Fontes 1, 2 e 3)
17. Bahia Pesca
18. Guardiões do Litoral
19. Salve Maracaípe
20. Xô Plástico
21. Recife Sem Lixo
22. ONG Oceânica
23. Coletivo Praia
24. Instituto Biota
25. Instituto Verde Luz
26. Atados
27. UOL
28. MMA