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O que se sabe, até agora, sobre o ataque a Bolsonaro

Por Alexandre Aragão, Bernardo Moura, Judite Cypreste e Luiz Fernando Menezes

6 de setembro de 2018, 17h50


O candidato do PSL, Jair Bolsonaro, foi esfaqueado nesta quinta-feira (6) em Juiz de Fora (MG), durante um evento de campanha. Aos Fatos está separando o que já foi confirmado oficialmente do que ainda não foi, para evitar a disseminação de teorias conspiratórias e desinformação.

Veja, abaixo, o que é fato e o que é ficção ou não foi confirmado em relação ao atentado. Esta reportagem está sendo atualizada ao longo da noite desta quinta-feira (6).


O QUE É FATO

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Em nota, a Polícia Federal confirmou que o responsável pelo ataque a Bolsonaro foi Adelio Bispo de Oliveira, 40, que confessou o crime. Ele está preso em Juiz de Fora, na delegacia da PF, que informou ainda que Bolsonaro “contava com a escolta de policiais federais quando foi atingido”.

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Bolsonaro foi encaminhado para a Santa Casa da Misericórdia de Juiz de Fora. Em comunicado, o hospital afirmou que o candidato “deu entrada no hospital por volta das 15h40 com uma lesão por material perfurocortante na região do abdômen.”

Jair Bolsonaro foi atendido na urgência, passou por um exame de ultrassonografia e estaria, até as 18h07 desta quinta-feira, no centro cirúrgico.

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Os médicos do hospital participaram de uma coletiva de imprensa às 21h e atualizaram o estado de Bolsonaro. Segundo o médico Luiz Henrique Borsato, o candidato sofreu “uma lesão única, mas profunda” que atingiu uma veia e outros órgão abdominais. Depois de uma cirurgua de “aproximadamente duas horas”, “o paciente está internado em uma unidade intensiva de tratamento, um quadro grave pela natureza da lesão, mas ele está estável”. Ainda segundo Borsato, Bolsonaro está respirando normalmente, recobrou a consciência e reconheceu os filhos.

O médico afirmou que ainda não tem uma previsão do tempo de hospitalização, mas que é esperado "pelo menos uma semana, no mínimo".

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Após a cirurgia, Jair Bolsonaro gravou um vídeo, publicado nas redes sociais na madrugada desta sexta-feira (7) pelo senador Magno Malta (PR), em que descreve o momento do ataque e agradece à equipe médica pelo atendimento prestado. "Senti apenas uma pancada na boca do estômago. A dor era insuportável. Parecia que tinha algo mais grave acontecendo".

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Na manhã de sexta-feira (7), o candidato foi transferido da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora para o hospital Albert Einstein, em São Paulo. Segundo o boletim médico do hospital israelita, Jair Bolsonaro deu entrada às 10h43 e está internado na Unidade de Terapia Intensiva, onde realizou exames laboratoriais e de imagens e foi avaliado por equipe multiprofissional. O tratamento iniciado anteriormente em Juiz de Fora foi continuado.


O QUE NÃO É FATO

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Uma corrente de WhatsApp afirma que "Adélio Bispo de Oliveira é o nome do petista que tentou matar Jair Bolsonaro hoje em Juiz de Fora. Ele é filiado ao Partido dos Trabalhadores”. Isto, no entanto, é FALSO.

Não foi encontrado na relação de filiados divulgada pelo TSE o nome “Adélio Bispo de Oliveira” ligado ao Partido dos Trabalhadores no Estado de Minas Gerais. É FALSA afirmação de que o agressor esteja ligado ao PT.

É verdade, no entanto, que houve um “Adélio Bispo de Oliveira” filiado ao PSOL de Minas Gerais. Segundo os dados do TSE, consta que ele se filiou ao partido em maio de 2007, mas ele pediu a desfiliação em dezembro de 2014. Abaixo, está o registro de sua filiação nas bases do TSE.

Em entrevista à Folha, o presidente do PSOL, Juliano Medeiros, disse que o partido não deve responder pelo ataque: "queremos que ele seja julgado no rigor da lei. Parece que é uma pessoa bem confusa. Se fosse ligado ao PSOL, seria minha responsabilidade. Como não é filiado, não acho que seja da nossa alçada".

Atualização 23h02: diferentemente do que informamos, Adélio Bispo de Oliveira pediu a desfiliação em 2014 e não em 2017. No ano passado ocorreu o processamento de sua saída.

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Circulam nas redes sociais fotos (as originais estão aqui e aqui) e vídeos de Jair Bolsonaro andando normalmente por corredores de um local que parece ser um hospital. Junto a essas fotos, um comentário: "Foto mostra o candidato que sofreu uma tentativa de homicídio entrando a pé no hospital". Isso é FALSO, já que essa foto não retrata o real momento em que Bolsonaro deu entrada no hospital após o atentado. Apenas um dos vídeos com a informação enganosa já acumula cerca de 3.000 compartilhamentos no Facebook.

No registro, pessoas estão vestidas com uniformes de centro cirúrgico, mas a imagem se refere a um evento anterior ao atentado, realizado na entre o fim da manhã e o início da tarde na Associação Feminina de Prevenção e Combate ao Câncer de Juiz de Fora, a Ascomcer.

O UOL, republicando material da Agência Estado, narrou detalhes desse ato de campanha.

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É uma montagem e, portanto, FALSA, uma imagem que retrata o responsável pelo ataque a Bolsonaro num ato político do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (veja a montagem aqui). A imagem original é de autoria do fotógrafo Ricardo Stuckert, do Instituto Lula, e consta de uma série de reportagens de vários sites e jornais, como O Globo e Gazeta.

Um rápida busca pela ferramenta de pesquisa de imagem reversa do Google traz a fotografia original, reproduzida abaixo. Ela foi feita em Curitiba (PR), em 5 de maio de 2017, quando Lula prestou depoimento ao juiz Sérgio Moro.

A imagem adulterada coloca o rosto do agressor, Adélio Bispo de Oliveira, no lugar onde originalmente estava um homem de óculos próximo a uma bandeira verde, no canto direito da foto.

Veja abaixo como foi feita a alteração, a partir de imagem enviada a Aos Fatos por leitores:

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É FALSO que o agressor era filiado ao PDT. A afirmação faz uma confusão com os nomes de um filiado ao PDT e o autor do ataque. Quem atacou Bolsonaro e já está preso tem o nome “Adelio Bispo de Oliveira”. Já “José Adelio Bispo de Oliveira” é outra pessoa, também de Minas Gerais, e filiado ao PDT desde 1992. Ou seja, trata-se de uma confusão apenas porque o nome de ambos é muito parecido.

Como explicado por Aos Fatos em outra reportagem, o único “Adélio Bispo de Oliveira” que consta das filiações do TSE é o que foi filiado ao PSOL de 2007 a 2014.

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Circula em aplicativos de mensagens a informação de que a Polícia Federal, junto às agências de inteligência das Forças Armadas, teriam descoberto um esquema no qual estariam envolvidos militantes do PT, PSOL, e PC do B, para o assassinato do candidato Jair Bolsonaro. Segundo o texto enganoso, "os investigados já vinham sendo monitorados através de escutas telefônicas e redes sociais", o que é FALSO, segundo a própria Polícia Federal.

O texto também cita uma afirmação fictícia do general Villas Bôas, comandante do Exército brasileiro: "sabíamos que iriam agir, mas não sabíamos onde nem quando". O general de fato se manifestou contra o ataque, mas não deu qualquer declaração nesse sentido.

Em nota, ele disse que "repudia veementemente o ato de violência extrema perpetrado contra a vida do deputado Bolsonaro", "defende a manutenção da serenidade, o combate aos radicalismos e a confiança nos órgãos de segurança pública, para que todos juntos ultrapassemos esse desafio à nossa democracia e à paz social" e "solidariza-se com a família do deputado neste momento de apreensão, desejando pronta recuperação".

Aos Fatos entrou em contato com a PF, que, por e-mail, afirmou que “monitora toda e qualquer situação potencialmente perigosa” e que “não havia sido identificada qualquer ameaça concreta a algum dos candidatos”.

Diante do ocorrido na última quinta-feira, um inquérito policial foi instaurado para investigar todas as circunstâncias do ataque ao candidato. A PF, no entanto, por política de comunicação, informou que não comenta investigações em andamento.

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Na quinta-feira (6), o pastor e presidente da Assembleia de Deus e Vitória em Cristo, Silas Malafaia, afirmou em seu Twitter que o responsável pelo atentado ao candidato Jair Bolsonaro seria militante do PT e assessor da campanha da ex-presidente Dilma Rousseff ao Senado em Minas Gerais. A informação é FALSA.

Como já desmentido por Aos Fatos, não foi encontrado na relação de filiados do PT divulgada pelo TSE o nome “Adélio Bispo de Oliveira”. É verdade, no entanto, que houve um “Adélio Bispo de Oliveira” filiado ao PSOL de Minas Gerais. Segundo os dados do TSE, consta que ele se filiou ao partido em maio de 2007, mas ele pediu a desfiliação em dezembro de 2014.

Além disso, não há registro de ligação entre Adélio Bispo de Oliveira e a campanha de Dilma em Minas Gerais. Aos Fatos entrou em contato com a assessoria da ex-presidente, que negou qualquer vínculo. "Silas Malafaia mente. Não há qualquer vínculo da campanha com o sujeito responsável pelo ataque", afirmou a assessoria.

Por meio de seu Twitter oficial, Dilma anunciou que entraria com processo "por injúria, calúnia e difamação contra o senhor Malafaia".

Na sexta-feira (7), procurado pelo BuzzFeed News, o pastor Malafaia afirmou que sua afirmação foi baseada no que leu a respeito nas redes sociais. "Tá na mídia, em todos blogs, em tudo que é lugar", disse. “Que o cara trabalhava, não que ele fosse funcionário dela, nada disso. Não tem nada a ver com [ser] funcionário dela. Não é funcionário dela, mas tava ajudando na campanha porque ele é esquerdopata. Tava ajudando. Tá aí, todo mundo fala”.

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São montagens e, portanto, FALSAS, duas imagens que circulam nas redes sociais e que retratam o responsável pelo ataque a Bolsonaro, Adélio Bispo de Oliveira, ao lado de Lula. As duas fotos originais são de autoria do fotógrafo Ricardo Stuckert, do Instituto Lula e foram alteradas digitalmente para colocar o rosto do agressor no lugar de outras pessoas.

Uma delas foi publicada pelo PT no Facebook, em 6 de abril, e mostra Lula ao lado de lideranças do PC do B: a deputada federal Jandira Feghali, a deputada estadual Manuela D’Ávila e o ex-ministro Orlando Silva, cujo rosto foi substituído pelo de Adélio na montagem.

Veja a diferença entre a foto original e a montagem abaixo.

A segunda imagem, também de Stuckert, aparece no site oficial do ex-presidente Lula em uma publicação de 1º de setembro, antes do ataque à faca contra Bolsonaro.

Uma busca reversa no Google Imagens mostra que a foto original circula pelo menos desde março de 2016. A montagem coloca o rosto de Adélio no lugar do rosto de um segurança do petista, que o acompanhava em uma agenda de rua.

Veja, abaixo, a comparação entre ambas as fotos.

A versão adulterada da foto teve mais de 7.000 compartilhamentos no Facebook desde a última sexta-feira (7) e, a partir dos comentários, é possível perceber que muitos usuários acreditaram que a foto fosse verdadeira. Não é.

Colaboraram Ana Rita Cunha, Bárbara Libório e Tai Nalon