Aos Fatos

Marcelo Bertani/Assembleia do RS

O que é fato no que diz Manuela D'Ávila — de assassinatos de trans a investimento estatal

Por Luiz Fernando Menezes

5 de fevereiro de 2018, 17h50


Manuela D’Ávila (PC do B-RS) é uma das presidenciáveis menos rejeitadas, segundo a última pesquisa do Datafolha — ela e o senador Alvaro Dias (Podemos-PR) possuem apenas 13% de reprovação do eleitorado. A deputada estadual anunciou sua pré-candidatura em novembro do ano passado, tornando-se a segunda candidata própria do partido comunista na história.

Nos últimos dias, D’Ávila tem dado entrevistas a portais e jornais tanto nacionais quanto internacionais para falar de sua candidatura. Em vídeos publicados nas redes sociais, ela decidiu abordar assuntos polêmicos — como o assassinato de pessoas trans e a reforma trabalhista — para explicar alguns pontos de sua agenda. Aos Fatos checou algumas de suas declarações.


IMPRECISO

O Brasil é o campeão mundial de assassinato de pessoas trans.

Essa declaração foi feita pela pré-candidata em vídeo publicado nas redes sociais em 29 de janeiro, Dia da Visibilidade Trans. D’Ávila cita como fonte uma pesquisa contínua feita pela ONG Transgender Europe.

De acordo com a última atualização, dos 2.609 homicídios reportados de pessoas trans e de gênero diverso entre o começo de 2008 e o final de 2017, o Brasil realmente apresentou a maior taxa em números absolutos: foram registrados 1.071 assassinatos no país, ou seja, 41% do total. Para se ter uma ideia, o México, segundo colocado, registrou 337 homicídios no mesmo período.

Porém, se levarmos em conta os números relativos (homicídio/milhão de habitantes), o Brasil cai duas posições: Honduras tem o maior índice — 10,77 casos relatados a cada um milhão de habitantes —, seguida de El Salvador, com pouco mais de cinco, e do Brasil, em terceiro lugar, também com um número próximo de cinco.

Aos Fatos considera a frase IMPRECISA já que a pré-candidata não especificou em qual caso — levando em conta números absolutos ou relativos — o Brasil é considerado o campeão mundial de assassinato de pessoas trans e de gênero diverso. Vale ressaltar que essa diferenciação de termos, utilizada pela pesquisa, pode ter sido feita para abarcar diferentes culturas que, por terem um entendimento diferente sobre gênero, não utilizam o termo “transgênero”.


IMPRECISO

A cada 48 horas, uma pessoa trans é assassinada.

Ainda no vídeo do Dia da Visibilidade Trans, D’Ávila cita os dados do Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil, publicados pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) na última semana. O estudo listou os 179 assassinatos que ocorreram em 2017, detalhando o caso, o nome da vítima, o local e até a forma do crime.

O Mapa, entretanto, não faz essa estimativa de tempo. O dado de que “a cada 48 horas, uma pessoa trans é assassinada” foi deduzido pela mídia (já que, se dividirmos o número de dias do ano pelos assassinatos, o resultado é de um assassinato a cada 2,03 dias). A Antra, na pesquisa, ressalta que os dados utilizados foram compilados através de divulgação e que “os números podem ser ainda maiores pela subnotificação dos casos” graças ao desrespeito pela identidade de gênero e/ou nome social.

Além disso, é importante ressaltar que a pesquisa detalhou “casos de assassinatos de travestis, mulheres transexuais e homens trans”, ou seja, não é consenso dizer que todos os dados dizem respeito somente a pessoas trans.


VERDADEIRO

No Brasil, temos cerca de 12 milhões de desempregados. Um quarto dos jovens não estuda nem trabalha.

Segundo a última Pnad Contínua Mensal (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE, o Brasil fechou o ano de 2017 com uma estimativa de 12,3 milhões de pessoas desocupadas.

A taxa de jovens desocupados também é estimada pelo IBGE, só que em outra publicação: a Síntese de Indicadores Sociais. De acordo com a última, divulgada em dezembro de 2017, com os dados até 2016, 25,8% dos jovens brasileiros de 16 a 29 anos não estudam e não estão ocupados, ou seja, um pouco mais de um quarto.

Logo, essa declaração, que foi feita pela pré-candidata em uma entrevista ao portal Avante! no último dia de janeiro, é VERDADEIRA.


IMPRECISO

Vamos falar sobre a Apple. Sabe a Siri? E a tela de touchscreen? Como elas foram criadas? Por forte investimento do Estado! O que fez Steve Jobs? Teve a capacidade de perceber estes fortes investimentos estatais no desenvolvimento de tecnologias e utilizar para criar a Apple, o iPhone e tudo isso que a gente conhece.

Para sustentar essa afirmação, que faz parte de um vídeo intitulado “Desfazendo algumas mentiras que rolam na internet” publicado em suas redes sociais na semana passada, D’Ávila cita o livro “O Estado empreendedor” de Mariana Mazzucato, professora de Economia da Inovação e Valor Público na UCL (University College London), que fez um estudo de caso da Apple em um de seus capítulos. Por mais que o estudo tenha rendido uma palestra do TED e até tenha sido considerado um “memorável estudo de caso” pelo jornal britânico The Guardian, o livro é alvo de várias críticas, tanto pelo seu conteúdo quanto pelo tom da autora.

De acordo com Mazzucato, a Apple “recebeu financiamento do governo desde o início, como também usou ‘engenhosamente’ tecnologia desenvolvida com financiamento público para criar produtos ‘inteligentes’”. Ela cita como exemplo o investimento de US$ 500 mil que a Apple, antes da oferta pública em 1980, conseguiu de uma pequena companhia de investimentos (a Continental Illinois Venture Corp.) licenciada por uma agência federal para investir em empresas pequenas.

Em outro caso, afirma que o investimento que a empresa recebeu via programa de assistência social pode ser comprovado no site da SBA (U.S. Small Business Association).

A autora também argumenta que toda tecnologia por trás do iPhone (como a internet, o GPS, a tela touchscreen e a assistente de voz) foi financiada pelo Estado, ou seja, baseado “em tecnologias na maior parte inventadas em outro lugar”. Mazucatto dá detalhes sobre o investimento estatal, detalhando suas motivações e origens: no caso dos discos rígidos, por exemplo, utiliza a pesquisa de Patrick McCray para explicar que essa tecnologia só foi possível graças aos investimentos estatais para produzir tecnologias de defesa após a Guerra Fria. Entretanto, algumas de suas afirmações sobre essas tecnologias não foram diretamente financiadas pelo Estado: a tela sensível ao toque, por exemplo, recebeu investimento do governo, mas a Apple preferiu utilizar um modelo alternativo para criar seu iPhone.

The Guardian aponta também que, ao focar nas origens das tecnologias do iPhone, Mazzucato esquece que a principal conquista da Apple foi integrá-las, melhorá-las a ponto de se tornarem utilizáveis em formato portátil e ter feito vários acordos para tornar acessível um aparelho que fizesse ligações telefônicas e realizasse o download de músicas.

Outro lado. Procurada para comentar as checagens, a assessoria de imprensa da pré-candidata do PC do B não havia se manifestado até a última atualização desta reportagem.


A reportagem foi alterada às 23h08 de 5 de fevereiro de 2018 para mudar o selo de EXAGERADO para IMPRECISO na última checagem. O selo foi publicado errado. O conteúdo da checagem se mantém.