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Não há evidência científica de que auto-hemoterapia cure a Covid-19

Por Luiz Fernando Menezes

23 de março de 2020, 15h48


A auto-hemoterapia, procedimento no qual uma pequena quantidade de sangue é extraída e injetada novamente no corpo da mesma pessoa, não consta entre as medidas de prevenção ou tratamento ao novo coronavírus recomendadas por autoridades de saúde nacionais e internacionais. Além disso, documentos de entidades médicas e da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) publicados antes da pandemia de Covid-19 já alertavam para os riscos da prática, que não tem respaldo científico e pode oferecer riscos à saúde.

A indicação da auto-hemoterapia contra o novo coronavírus foi feita em vídeo que circula nas redes sociais em que um homem afirma que foi curado da infecção ao adotar a prática (veja aqui). No Facebook, posts com a gravação já reúnem ao menos 200 mil compartilhamentos e foram marcados com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (saiba como funciona). O conteúdo enganoso também se espalhou pelo WhatsApp, tendo sido enviado por leitores como sugestão de checagem (inscreva-se).


FALSO

Vítima do coronavírus foi curado com seu próprio sangue fazendo Auto-hemoterapia.

Não há estudos, pesquisas ou qualquer evidência científica de que extrair o próprio sangue e injetá-lo novamente no corpo, a chamada auto-hemoterapia, previna ou cure infecções causadas pelo novo coronavírus. Pelo contrário, a literatura científica existente, anterior à atual pandemia, já alertava para os riscos à saúde da prática, segundo Aos Fatos constatou. O método tampouco está listado entre as recomendações de prevenção ou tratamento à Covid-19 divulgados por autoridades de saúde nacionais e internacionais.

Um parecer de 2007 do CFM (Conselho Federal de Medicina) — reforçado em 2015, antes da atual pandemia, portanto — afirma que “não existem evidências confiáveis em revistas científicas de elevado padrão de que a auto-hemoterapia seja efetiva para qualquer doença em seres humanos. Não existem estudos que demonstrem sua segurança. Da mesma forma, não há sequer pesquisas em animais que informem acerca de algum parâmetro farmacológico de interesse clínico”.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), em nota técnica publicada em 2017, classifica a auto-hemoterapia como uma “prática clínica não reconhecida pelos conselhos de classe profissional, o que configura risco iminente à saúde”. No documento, o órgão regulador alerta ainda que “acrescido o risco de transmissão de doenças infecciosas devido à manipulação de material biológico, a prática coloca em risco a saúde de pacientes, tornando-os vulneráveis às promessas de cura e, em muitos casos, impossibilitando o acesso a recursos terapêuticos eficazes”.

Nesta segunda-feira (23), a agência reforçou sua nota de 2017 dizendo que a auto-hemoterapia não é reconhecida no Brasil e que o fundamental é " que as pessoas sigam as orientações oficiais sobre o Covid-19 e não utilizem qualquer promessa milagrosa". A Anvisa lembra também que a venda ou promoção de terapias ou medicamentos sem autorização legal pode ser classificada como crime hediondo no Brasil .

A ABHH (Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular) também não reconheceu, em nota publicada em 2014, a eficácia do procedimento na cura de doenças: “por não existirem informações científicas sobre o referido procedimento, são desconhecidos os possíveis efeitos colaterais e complicações desta prática, podendo colocar em risco a saúde dos pacientes a ela submetidos”.

Leonardo Weissmann, consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Imunologia), afirmou nesta segunda-feira (23) ao Aos Fatos que, até hoje, não existem evidências científicas de que a auto-hemoterapia seja efetiva para o tratamento da Covid-19 e de outras doenças: “é um método sem validação e que não apresenta segurança na sua realização, podendo causar infecções, em vez de curar”.

Luiz Gustavo de Almeida, do Instituto Questão de Ciência, complementa: "O uso de sangue extraído previamente do próprio paciente é uma forma de terapia alternativa popular na Alemanha, onde é promovida há anos para uma série de condições de saúde, mas sem nenhum estudo sério para confirmar as diversas alegações de benefício. A ideia de que a reinjeção do próprio sangue fortalece o sistema imune não faz sentido, já que os anticorpos presentes na seringa são os mesmos que já circulam no sangue da pessoa. Os únicos modos de fortalecer o sistema imune são uma dieta equilibrada, dormir bem, evitar estresse e se manter em dia com as vacinas", disse em mensagem ao Aos Fatos.

Bases de dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) e da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) que reúnem pesquisas científicas sobre a nova doença também não contam com estudos acerca de cura ou tratamento de doenças por meio de auto-hemoterapia. Também não há nada sobre o assunto no NCBI (National Center for Biotecnology Information), órgão dos EUA que reúne informações sobre pesquisas em medicina.

A indicação do método contra o novo coronavírus surgiu nas redes sociais em vídeo em que um homem afirma ter se curado da infecção ao usar uma seringa para extrair doses de seu sangue e aplicá-las novamente no tecido muscular. Até a publicação desta checagem, Aos Fatos não havia conseguido identificar quem são as pessoas na gravação. No Facebook, a peça de desinformação reunia ao menos 200 mil compartilhamentos até a tarde desta segunda-feira (23).

Até o momento, a OMS e o Ministério da Saúde indicam como medidas de prevenção da Covid-19 lavar as mãos frequentemente com água e sabão, higienizar superfícies, ficar em casa e evitar aglomerações. Também não existe nenhum medicamento ou tratamento específico para a infecção.

Referências:

1. CFM (Fontes 1 e 2)
2. Anvisa
3. ABHH
4. OMS
5. Fiocruz
6. NCBI
7. Aos Fatos


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