Aos Fatos

Pixabay

Não é verdade que foi encontrada a cura para diabetes tipo 2

Por Luiz Fernando Menezes

17 de julho de 2018, 01h30


A informação de que pesquisadores da UAB (Universidade Autônoma de Barcelona) teriam encontrado a cura para a diabetes tipo 2 não é verdadeira. O texto usa um estudo existente, mas falseia as informações dos resultados encontrados.

Publicado em 9 de julho pelo site Saúde Online e em 11 de julho pelo Portal Enf, ambas as vezes sem autoria, o texto mistura informações verdadeiras com outras falsas: os pesquisadores realmente tiveram sucesso em eliminar a redução da resistência insulínica em roedores sem nenhum efeito secundário aparente. No entanto, não houve testes em humanos nem há a previsão de quando eles serão realizados. Também não há qualquer confirmação de que o tratamento será eficaz, tampouco há provas de que “é possível curar a doença apenas com uma sessão de terapia genética”.

Juntas, as duas matérias já somam mais de 35 mil compartilhamentos no Facebook. O conteúdo do Saúde Online foi publicado pelas páginas Histologia, Fisiologia & Anatomia Humana e Sociedade Racionalista, enquanto o do Portal Enf foi compartilhado por páginas como O Farmacêutico Gestor e GRUPO DE APOIO AO DR SÉRGIO MORO- JUIZ DA OPERAÇÃO “LAVA JATO E FFAA. Os links para esses textos foram denunciados como notícia falsa por usuários do Facebook (entenda como funciona).

Veja, abaixo, o que Aos Fatos checou.


FALSO

Foi encontrada a cura para a diabetes tipo 2

A informação de que a cura para a diabetes tipo 2 foi encontrada é FALSA por três motivos: 1. a pesquisa citada realizou o tratamento apenas em ratos; 2. não é possível afirmar que ele possa ser aplicado a humanos; e 3. o título não condiz com o conteúdo do texto.

O início dos textos do Portal Enf e do Saúde Online já contradiz a informação do próprio título: “Dia histórico para a medicina. Foi encontrada a cura para a diabetes tipo 2”. Já no primeiro parágrafo, as publicações dizem que os resultados do tratamento com apenas uma sessão de terapia genética foram registrados apenas em ratos e que os testes em humanos “devem começar dentro de cinco anos”.

Segundo o texto, o estudo foi conduzido na UAB e liderado pela professora Fátima Bosch. A pesquisa, intitulada “FGF21 gene therapy as treatment for obesity and insulin resistance” realmente existe e foi publicada na revista EMBO Molecular Medicine (revista Open Acess bem qualificada no Scimago Journal & Country Rank) e reportada também pelo Science Daily. Os pesquisadores utilizaram injeções do gene FGF21 para que os roedores passassem a produzí-lo de maneira contínua e, assim, reduzirem seu peso e também a resistência à insulina que causa o desenvolvimento do diabetes tipo 2.

O texto do portal, que não possui assinatura, cita uma declaração da pesquisadora Verónica Jiménez, também da UAB: “esta é a primeira vez que se consegue contrariar a obesidade e a resistência à insulina mediante a administração de uma única sessão de terapia genética naquele que é o modelo animal cuja obesidade e diabetes tipo 2 mais se assemelha aos humanos. Os resultados demonstram que é uma terapia eficaz”. Jiménez é a primeira autora da pesquisa e essa frase foi retirada do release da própria universidade, publicado no dia 9 deste mês.

Ao contrário do que o texto diz, não há, nem no estudo e nem no release, menção aos futuros testes em humanos. Na verdade, a própria pesquisa afirma que “resta determinar se a terapia genética, que leva à produção constante da proteína e níveis circulantes estáveis, pode melhorar a glicemia e a sensibilidade à insulina em humanos”.

No release também se lê que “investigadores dos Estados Unidos já realizaram ensaios clínicos em humanos para testar o efeito de outras proteínas semelhantes ao gene FGF21 e os resultados foram promissores, mas requer administrações periódicas de terapia e podem levar a problemas imunológicos, porque o corpo pode não reconhecer essas proteínas como se fossem suas”.

Segundo Fátima Bosch, professora que liderou o estudo, o próximo passo será “testar essa terapia em animais maiores para, depois, começar com os ensaios clínicos em pacientes”. Ou seja, por mais que o tratamento testado pela equipe da UAB não tenham apresentado complicações secundárias nos roedores, eles não fizeram nenhum teste em humanos e não há estimativas de quando os farão. Portanto, não há cura alguma.

Tratamento atual. A diabetes não insulinodependente — ou “diabetes tipo 2” e “diabete do adulto” — é o caso mais comum da doença, correspondendo a 90% dos casos. Causada por maus hábitos alimentares, sedentarismo e stress, se dá quando o organismo não consegue usar adequadamente a insulina que produz ou quando o corpo não produz insulina suficiente para controlar a taxa glicêmica. Caso a pessoa com diabetes não faça acompanhamento médico, as altas taxas de glicose podem gerar complicações como doenças renais, neuropatia (dano nos nervos, principalmente dos pés), feridas na pele e maiores chances de desenvolver certos tipos de doenças oculares, como glaucoma e catarata.

Ricardo Cohen, coordenador do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, diabetes explica que “é uma doença que não tem cura, ela pode ser colocada em remissão”.

Atualmente, segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, quem tem a doença consegue levar uma vida normal, desde que faça o acompanhamento corretamente. O tratamento pode ser feito com medicamentos como a metformina, que melhora a sensibilidade das células à ação da insulina; as sulfonilureias, que aumentam a produção de insulina pelo pâncreas; drogas antidiabéticas, que aumentam a excreção de glicose pelo rim; e até a introdução da própria insulina.

Caso o paciente não apresente melhoras com o tratamento com remédios, é possível que o médico peça uma cirurgia metabólica, que são intervenções no tubo digestivo para controlar a doença.