Aos Fatos

Marcello Casal jr/Abr

Marina erra dados sobre competitividade e emprego em programa de governo

Por Judite Cypreste

28 de agosto de 2018, 07h11


O programa de governo que a chapa presidencial de Marina Silva (Rede) registrou no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) exagera dados sobre empregos na área de energias renováveis e erra dados comparativos sobre a competitividade brasileira em relação ao resto do mundo. A candidata também usa dados imprecisos com relação a proporção de transtornos de depressão no Brasil e posição em ranking de inovação. Com o nome “Brasil justo, ético, próspero e sustentável”, o programa da coligação dos partidos Rede e PV (de onde vem o candidato a vice-Presidência Eduardo Jorge) pode ser lido no site do TSE.

Esta reportagem faz parte de uma série de verificações feita por Aos Fatos com base nos programas de governo protocolados no TSE. Já foram checadas afirmações que constam dos programas do candidato Jair Bolsonaro (PSL) e da chapa do PT. A série ainda contemplará ainda as promessas de outros candidatos: Alvaro Dias (Podemos) e Ciro Gomes (PDT). O candidato Geraldo Alckmin (PSDB) não apresentou programa com dados passíveis de checagem.

Confira abaixo as cinco afirmações checadas por Aos Fatos no programa de governo de Marina Silva.


FALSO

… nos últimos oito anos, o Brasil caiu 17 posições no Global Innovation Index...

O programa de governo usa dados da Global Innovation Index para apontar uma queda do país da relação competitividade econômica do país. Em 2011, o Brasil estava na 47ª posição no ranking mundial de inovação e, neste ano, caiu para o 64º lugar. Entretanto, não é possível comparar a posição do Brasil ao longo de oito anos, pois a metodologia e a lista de países avaliados varia entre os levantamentos. Com critérios diferentes, os levantamentos acabam por ser incomparáveis entre si, como é apontado no próprio relatório da Insead (Instituto Europeu de Administração de Empresas), responsável pelo índice: “inferências sobre desempenho absoluto ou relativo baseadas em variações anuais nos rankings podem ser enganosas”. Como não é possível comparar a posição do Brasil nos dois rankings de anos diferentes, a afirmação foi classificada como FALSA.

A Global Innovation Index mede, através de 80 indicadores, o desempenho relativos a inovação dos países. A pesquisa de inovação explora aspectos relativos a áreas como educação, infraestrutura e ambiente político de cada país. Como explica o relatório do Insead, “cada ranking reflete o posicionamento relativo desse país/economia específico com base na estrutura conceitual, na cobertura de dados e na amostra de economias, elementos que podem mudar de um ano para outro”.

Há oito anos, em 2011, foram 125 países analisados, e o Brasil ficou em 47°. No ano seguinte, o país ficou na 58ª posição, mas houve aumento no número de países analisados para 141. Em 2013, com 142 países analisados, o Brasil ficou em 64º lugar, e, em 2014, com a presença de 143 países, o Brasil ficou na 61º posição. Em 2015, com 141 países, o país ficou na 70º posição.

Em 2016 e 2017, o país permaneceu na 69ª posição. O número de países analisados, no entanto, foram diferentes em cada ano: 128 em 2016 e 127 em 2017. Em 2018, com a presença de 126 países na lista, o Brasil figura em 64º lugar.


EXAGERADO

Em 2017, o país empregou 1,7 milhão de trabalhadores direta e indiretamente na geração de energias renováveis...

Ao falar dos benefícios da adoção de energias renováveis, Marina exagerou os números de novos postos de trabalho criados neste campo no país. A Irena (Agência Internacional de Energia Renovável), em seu estudo deste ano sobre dados de empregos relacionados às energias renováveis, divulgou que o Brasil gerou, de forma direta e indireta na indústria, um total de 1,076 milhão de empregos, e não 1,7 milhão como afirma o programa — mencionando com erro o dado da Irena. Desta forma, a afirmação foi considerada EXAGERADA.

No estudo, lançado em maio deste ano, a informação é que o Brasil figura entre as nações responsáveis por 70% dos empregos na área. A China, Estados Unidos, Índia, Alemanha e o Japão também figuram entre os maiores empregadores de energia renovável do mundo.


VERDADEIRO

… com destaque para 795 mil empregos na área de biocombustíveis.

O programa da chapa encabeçada por Marina destaca a criação de empregos no Brasil na área dos biocombustíveis. O país foi líder na criação de empregos no setor no mundo em 2016 e 2017. A estimativa, de acordo com estudo sobre empregos em energias renováveis da Irena, é de 795 mil empregos criados na área. Assim, a afirmação foi classificada como VERDADEIRA.

Sozinho, o país é responsável por 41% do total de empregos na área de produção de biocombustíveis, a maior parte no processo agrícola (plantação e colheita de matéria-prima).

Os Estados Unidos são o segundo colocado, com um número bem menor: foram 299 mil empregos criados (16% do total). No ranking, aparecem também a China, com 51 mil empregos, Índia, com 35 mil (3%), Alemanha com 24 mil (1,3%) e Japão, com apenas 3 mil empregos criados na área (0,15%).


VERDADEIRO

Hoje o Brasil é o líder mundial no ranking em transtornos de ansiedade...

Em seu programa, Marina afirma que no SUS uma das suas prioridades vai ser a saúde mental como atendimento básico. Contextualizando a sua diretriz, o programa afirma que o Brasil é líder mundial em transtornos de ansiedade. Na pesquisa Depression and other common mental disorders: global health estimates, produzida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e divulgada no ano passado, com dados de 2015, o país de fato figura em primeiro lugar entre os países com transtornos causados por ansiedade. A declaração que consta do programa da candidata, portanto, é VERDADEIRA.

Os dados levam em consideração a proporção entre os casos das doenças e a população dos países. No ranking internacional da OMS, o Brasil (com 9,3%), fica à frente do Paraguai (7,6%) e Noruega (7,4%) em incidência de transtornos causados por ansiedade (veja no gráfico). Em números absolutos, foram mais de 18,6 mil casos registrados no Brasil em 2015, ano abordado pelo estudo.


IMPRECISO

… e o quinto em depressão.

Ainda em relação à prometida prioridade da saúde mental no SUS, o programa de governo de Marina cita os dados da OMS para afirmar que o Brasil figura em quinto lugar no ranking mundial de transtornos causados por depressão. No entanto, apesar de acertar na proporcionalidade equivalente aos transtornos de depressão no país (“a depressão afeta 5,8% da população” - afirma corretamente o programa) a classificação do Brasil na quinta posição do ranking de países com depressão é IMPRECISA. A realidade é ainda pior: o país ocupa uma posição mais alarmante do que o dito no programa da candidata, figurando na terceira posição.

Em análise da pesquisa Depression and other common mental disorders: global health estimates, é possível averiguar que, de acordo com as proporções de casos, o Brasil está na terceira posição. A Ucrânia aparece em primeiro, com 6,3%. No segundo lugar, empatados com 5,9%, aparecem Austrália, Estônia e Estados Unidos.

Mesmo considerando números absolutos, o país aparece em quarto lugar, com 11,5 mil casos. Em primeiro lugar aparece a Índia, com 56,6 mil casos, seguida pela China, com 54,8 mil e Estados Unidos com 17,4 mil. Todos os dados apresentados são de 2015.

Em e-mail, a OMS afirma não trabalhar com rankings entre países, mas confirma que o Brasil figura, por exemplo, em segundo lugar em casos de depressão na América, atrás dos Estados Unidos.

Outro lado. Aos Fatos entrou em contato com a assessoria da candidata Marina Silva para que ela pudesse comentar as checagens. Até a última atualização desta reportagem, no entanto, não havia recebido retorno.