Aos Fatos

Lula afirma ter cooperado com a Justiça e omite recentes recuos

Por Tai Nalon

4 de março de 2016, 17h04


Após ser levado pela Polícia Federal para prestar depoimento em mais um desdobramento da Operação Lava Jato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, nesta sexta-feira (4), que "sempre" foi prestar esclarecimento às autoridades quando requisitado.

Aos Fatos relembrou quando isso ocorreu e verificou que, sim, Lula colaborou com a Justiça por duas vezes em 2015 — antes, porém, de as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público efetivamente ficarem mais próximas de sua esfera pessoal, com quebra de sigilo e acordos para delação premiada. A partir de então, atuou para que não fosse obrigado a prestar depoimento.

Veja o que checamos.


EXAGERADO
Se o juiz Moro ou o Ministério Público quisessem me ouvir, era só ter me mandado um ofício, que eu iria. Como sempre fui prestar esclarecimento.

O ex-presidente, de fato, já prestou esclarecimentos à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal por duas vezes: a primeira, em dezembro passado, como informante para a força-tarefa da Lava Jato; a segunda, em janeiro, como colaborador da Operação Zelotes, que investiga suspeita de venda de medidas provisórias durante os governos petistas.

Da primeira vez, o pedido da PF foi enviado ao STF, já que, dentre os suspeitos de participação na organização criminosa que atuou em fraudes em contratos da Petrobras, há políticos com mandato. Àquela época, tal como nesta sexta-feira (4), já havia a suspeita de que Lula poderia ter se beneficiado, direta ou indiretamente, dos desvios na estatal.

Na Operação Zelotes, o elo é seu filho, Luís Cláudio Lula da Silva, suspeito de ter recebido R$ 2,5 milhões de um lobista que, segundo apuração do Ministério Público, pode ter atuado no governo Lula e no Congresso para pagar pela aprovação de medidas provisórias.

O que Lula não diz é que, conforme as investigações foram avançando, a disposição do ex-presidente em cooperar com as autoridades foi minguando. Em fevereiro, Lula e sua mulher, Marisa Letícia, dariam depoimento ao Ministério Público de São Paulo. O objetivo era prestar esclarecimentos sobre a procedência de um apartamento tríplex no Guarujá (SP), que, segundo as investigações, está em nome da OAS e foi reformado pela empreiteira com a finalidade, suspeita-se, de favorecer Lula.

Porém, uma decisão liminar do CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) suspendeu a audiência, sob a alegação de que o caso do tríplex está sendo apurado na 5ª Vara Criminal do Foro Central Criminal de São Paulo, sendo que a 1ª Promotoria de Justiça é que é a responsável pelos casos dessa área.

Depois de julgada a decisão e autorizada a convocação do casal, a defesa de Lula pediu ao Tribunal de Justiça de São Paulo um habeas corpus preventivo para que eles não fossem novamente obrigados a depor. A ideia era impedir o que aconteceu nesta sexta-feira, que o ex-presidente fosse levado, por meio de condução coercitiva, a dar novas explicações. Em vão.

Desse modo, por ter empregado o termo "sempre" em sua declaração, mas ter contrariado recentemente o que disse fazer e o que efetivamente vinha fazendo, Aos Fatos classifica a afirmação de Lula como EXAGERADA.