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Haddad atribui derrota em 2016 a divisão de votos com Marta, mas conta não fecha

Por Julianna Granjeia

27 de setembro de 2017, 18h00


Em entrevista ao jornalista Kennedy Alencar, no SBT, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) afirmou na última segunda-feira (25) que um dos motivos de não ter disputado o segundo turno das eleições de 2016 com João Doria (PSDB) foi o "efeito Marta". Segundo ele, o fato de a senadora Marta Suplicy (PMDB) ter saído do PT e disputado uma candidatura de oposição foi decisivo para a sua derrota nas urnas.

Aos Fatos checou essa ponderação e demais afirmações do ex-prefeito, cuja avaliação é que o resultado da eleição de 2016 "teve um efeito PT nacional, teve um efeito Marta" e teve os seus erros, "porque todo governo erra". Veja, abaixo, o resultado.


VERDADEIRO

Em primeiro lugar, reconhecer: o PT perdeu 60% dos votos no Brasil entre 2012 e 2016.

Nas eleições municipais de 2012, quando Haddad foi eleito prefeito de São Paulo, o PT recebeu 17.448.801 votos em todo o país, segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Em 2016, a votação do partido nos municípios brasileiros ficou em 6.822.964 — ou seja, 60,9% menos do que na disputa anterior.

A legenda que mais cresceu na última eleição foi o PSDB, que obteve 17.612.606 de votos no Brasil, 25% a mais do que no pleito passado.


FALSO

Em São Paulo, nós [o PT] perdemos 40% [dos votos].

Em 2012, quando Haddad disputou e foi eleito para a prefeitura de São Paulo, o PT teve 1.776.317 votos no primeiro turno. Em 2016, o petista recebeu apenas 967.190 votos — totalizando uma redução de 46%. Os dados são do TSE.

Haddad se tornou prefeito após derrotar José Serra (PSDB) no segundo turno com 3.387.720 votos contra 2.708.768 do então candidato tucano. No entanto, não é recomendável traçar parelelos entre turnos diferentes de eleições diferentes, já que a quantidade de candidatos é também diversa.

João Doria (PSDB) foi eleito no primeiro turno ano passado com 3.085.187 votos.


FALSO

Se você considerar os votos que eu e ela [Marta] tivemos em 2016, dá exatamente os votos que eu tive em 2012, mais ou menos.

Nem aproximadamente, muito menos exatamente: em 2012, Haddad teve 1.776.317 votos no primeiro turno. Em 2016, ele e Marta somados tiveram 1.554.410. A diferença é de 12%.

Segundo Haddad, "no Brasil, não tinha uma Marta Suplicy concorrendo com os candidatos do PT". "A Marta saiu do partido, foi para o PMDB, garantiu o voto contra a Dilma, pela legenda, e concorreu comigo", continuou. Então, disse que a quantidade de votos dados a Marta no ano passado dá "exatamente", "mais ou menos", a diferença em relação à eleição anterior.

Marta Suplicy saiu do PT em 2015, após divergências com o comando da legenda nas eleições de 2014. Na ocasião, o partido disputou o governo do Estado de São Paulo tendo como cabeça de chapa o ex-ministro Alexandre Padilha. Dois anos antes, Marta havia sido preterida pelo PT na corrida pela prefeitura paulistana.

A senadora disputou as eleições em 2016 pelo PMDB com forte discurso contra o PT e obteve 587.220 votos. Somados aos votos do petista, temos 1.554.410 — ou seja, 221.907 votos a menos do que Haddad recebeu no primeiro turno de 2012.

Haddad atribui a Marta a fuga de votos, mas também esquece do fator Doria: o tucano só perdeu em duas das 58 zonas eleitorais — Grajaú e Parelheiros, na zona sul da capital paulista, antigo reduto do PT. Nas duas regiões, que somam 400.048 eleitores, foi Marta quem venceu com 91.646 votos, enquanto Haddad obteve 48.913 e Doria recebeu 77.898. Ou seja, em seu principal reduto, o PT perdeu não só para Marta, mas para Doria também.


A reportagem foi alterada às 18h44 de 27 de setembro de 2017 para corrigir a percentagem em relação aos votos perdidos por Haddad entre 2012 e 2016 na segunda checagem. A apuração se mantém.