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Fotos antigas são compartilhadas como se fossem de protestos atuais no Chile

Por Amanda Ribeiro

24 de outubro de 2019, 17h02


Fotos que retratam cenas de violência policial em manifestações ocorridas entre 2004 e 2018 têm sido veiculadas nas redes sociais (veja aqui) como se mostrassem os atuais protestos no Chile. Uma das imagens sequer foi registrada no país, mas na Venezuela e há cerca de 15 anos. Em comum, as fotografias exibem pessoas feridas, sendo arrastadas e assediadas por agentes da polícia e são acompanhadas por mensagens curtas, que apenas citam o Chile como cenário.

O reajuste nas passagens de metrô foi o estopim para a eclosão de protestos violentos naquele país na última sexta (18). Desde então, 18 pessoas morreram e foram registrados saques e incêndios em diversas cidades chilenas. O governo estabeleceu toque de recolher, e o Exército está nas ruas.

As imagens fora de contexto foram enviadas por leitores do Aos Fatos no WhatsApp como sugestão de checagem (inscreva-se aqui). Devido à natureza da rede social, não é possível verificar com precisão o alcance da desinformação. No Facebook, publicações com igual teor somavam 28 mil compartilhamentos nesta quinta-feira (24) e foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de monitoramento da rede social (entenda como funciona).

Abaixo, explicamos o contexto original de cada uma das imagens.


Venezuela, 2004

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Esta foto foi registrada por Andrew Alvarez, da AFP, na Venezuela há cerca de 15 anos, quando uma passeata durante a cúpula do G-15 em Caracas terminou em confronto com a polícia em 27 de fevereiro de 2004. Na ocasião, as tropas atiraram bombas de gás e balas de borracha contra os manifestantes, que protestavam contra o governo do presidente Hugo Chávez.

Na época, a oposição havia recolhido assinaturas por um referendo pela permanência ou não do presidente no cargo. Os confrontos do dia 27 de fevereiro desencadearam uma série de protestos nos dias seguintes.


Chile, 2009

A cena foi extraída de um vídeo gravado pela emissora chilena Canal 13 em 2009 e registra a agressão do membro da comunidade indígena mapuche Caros Curiñao. Momentos antes, ele havia questionado os policiais sobre a situação de outros indígenas detidos em uma operação da polícia em Ercilla, no sul do país.


Chile, 2011

Em 2011, uma série de protestos tomou as ruas de cidades da região metropolitana da capital Santiago. Conduzidas especialmente por estudantes secundaristas e universitários, que mais tarde tiveram o apoio de movimentos sindicais, as manifestações pediam pela reformulação do sistema educacional do país e foram consideradas, à época, as maiores mobilizações populares desde o fim da ditadura militar no Chile (1973-1990).

As imagens que agora vêm sendo compartilhadas fora de contexto mostram, em sua maioria, estudantes sendo alvo de violência policial. Apesar de suas origens não terem sido efetivamente comprovadas por Aos Fatos, as fotos 1 e 3 circulam nas redes desde 2011 em reportagens relacionadas àquelas manifestações. Já a foto 2, tirada por Eliseo Fernandez, da Reuters, retrata o último protesto do ano, quando foram lançados bombas de gás lacrimogêneo e jatos de água contra os estudantes.

A imagem 4, por sua vez, foi difundida pela rede de televisão chilena UCV e mostra policiais inserindo o cano de uma arma dentro das calças de um manifestante em Valparaíso.


Chile, 2012

A partir de março de 2012, os estudantes chilenos voltaram a ocupar as ruas por melhorias na qualidade da educação pública. Como já havia ocorrido no ano anterior, as marchas foram palco de conflitos entre manifestantes e policiais. Oficiais foram flagrados agredindo e imobilizando jovens, caso da imagem 1.

Apenas no primeiro protesto, em 16 de março daquele ano e registrado na imagem 4, cerca de 50 estudantes foram detidos. Apesar de não ter tido sua origem exata localizada por Aos Fatos, a foto 3 passou a circular nas redes por volta de agosto. Já a foto 2 foi é 13 de outubro e registra um dos últimos protestos do ano.

Em outro episódio ocorrido ainda em 2012 e retratado na foto acima, manifestantes entraram em confronto com a polícia durante evento em Santiago em homenagem ao ditador Augusto Pinochet (1915-2006).

De acordo com o periódico argentino Clarín, ativistas de direitos humanos e familiares de desaparecidos durante a ditadura tentaram impedir que pessoas que compareceram ao ato entrassem no teatro onde ocorreria a exibição de um documentário. Um grupo de jovens mascarados também atirou garrafas contra os agentes de segurança, que responderam com bombas de gás lacrimogêneo.


Chile, 2013

Imagens de protestos realizados no Chile em 2013 (foto acima) também estão entre as compartilhadas como se fossem das atuais manifestações. A imagem foi registrada por Ivan Alvarado, da Reuters, em uma marcha realizada em Santiago no Dia do Trabalho e que também gerou confrontos com a polícia. De acordo com a AFP, grande parte dos manifestantes percorreu de maneira pacífica uma das principais avenidas da capital, mas, em determinado momento, grupos encapuzados passaram a saquear lojas e atirar coquetéis molotov contra a polícia, que respondeu com canhões de água e bombas de gás lacrimogêneo. Seis agentes ficaram feridos e cerca de 60 pessoas foram detidas, de acordo com as forças de segurança.

Outra foto mostra o estudante secundarista Pedro Aguilera, que foi espancado por policiais em uma manifestação estudantil em junho de 2013, também em Santiago. As agressões foram registradas em um vídeo, que mostra oficiais arrastando o adolescente pelas pernas e os braços, completamente sem reação.


Chile, 2015

Desalojan sede la Conadi en Temuco tomada por comuneros mapuche

Uma imagem de uma ação policial que desmontou uma ocupação na cidade de Temuco, no sul do Chile, também vem sendo compartilhada fora de contexto. Na foto, um homem com o rosto ensanguentado é carregado por oficiais de segurança. Ele era um dos indígenas mapuche que haviam ocupado a sede da Corporação Nacional de Desenvolvimento Indígena. Na ocasião, a invasão policial se deu de forma violenta e vários indígenas saíram feridos do edifício. Todos foram encaminhados primeiro à delegacia, e depois ao hospital.


Chile, 2016

Em 2016, mais uma marcha de estudantes chilenos terminou em confrontos, e uma das imagens compartilhadas agora mostra, na verdade, a agressão em Valparaíso de um repórter fotográfico que registrava uma das pessoas detidas pelos policiais. “Eu me aproximei para tirar uma foto de um detido e ele me segurou com o escudo. Expliquei que era da imprensa e ele continuou me segurando”, explicou Pablo Ovalle, da Agência UNO, em matéria do portal Bio Bio Chile.


Chile, 2018

A maior parte das fotos que vêm circulando fora de contexto em mensagens do WhatsApp e posts no Facebook retrata manifestações de estudantes ocorridas no ano passado. Um dos protestos, realizado em 28 de março em frente ao Ministério da Educação do Chile, repudiava uma decisão do Tribunal Constitucional do país, que havia eliminado um artigo da então reforma educacional que proibia lucros no ensino superior. Dentre as imagens acima, a 1 e a 2 mostram cenas desse conflito.

Já a foto 3 retrata uma das cenas de um protesto que ocorreu na cidade de Temuco durante a visita do presidente Sebastián Piñera. Apesar de Aos Fatos não ter encontrado a data exata da manifestação que originou a imagem 4, é possível verificar que ela começou a circular nas redes em maio de 2018, em uma matéria que critica a forte repressão policial a marchas de estudantes e grupos feministas.

Já a imagem acima foi registrada em uma manifestação de repúdio ao assassinato do indígena mapuche Camilo Catrillanca, de 24 anos, por forças policiais quando voltava para casa. Na versão da polícia, ele havia se envolvido em uma troca de tiros durante uma operação.

Durante uma manifestação em homenagem a Catrillanca, a estudante Eloísa González, que aparece na imagem acima, foi presa, torturada e vítima de violência sexual por parte de oficiais.

Referências:

1. BBC Brasil (Fontes 1 e 2)
2. O Globo (Fontes 1, 2 e 3)
3. Getty Images
4. Folha de S.Paulo
5. Servindi
6. Chingada News
7. El Mostrador (Fontes 1, 2 e 3
8. Todos con Chile
9. G1 (Fontes 1 e 2)
10. Taringa
11. La Patria en Linea
12. Radio Exito
13. Clarín
14. 24 Horas
15. Bio Bio Chile
16. El Desconcierto (Fontes 1, 2 e 3)
17. ADN Radio
18. The Clinic
19. Diario U Chile

20. BBC