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É falso que polícia concluiu que Marielle foi morta pelo tráfico de drogas

Por Luiz Fernando Menezes

20 de fevereiro de 2020, 15h07


Publicações que circulam nas redes sociais enganam ao afirmar que as investigações do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) concluíram que ela foi morta pelo tráfico de drogas como queima de arquivo (veja aqui). A informação é falsa, pois: 1) o principal inquérito que apura o crime ainda está aberto e corre em sigilo na Polícia Civil do Rio de Janeiro e há outros em andamento na Polícia Federal e no Ministério Público; 2) o envolvimento de traficantes não foi citado até agora nas investigações existentes.

Até o momento, a Polícia Civil aponta os ex-policiais Élcio Queiroz e Ronnie Lessa como autores do assassinato, mas ainda tenta descobrir quem foi o mandante do crime. O inquérito da Polícia Federal indica um possível envolvimento do ex-conselheiro do TCE-RJ (Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro) Domingos Brazão. Questionada, a corporação disse não comentar investigações em andamento.

No Facebook, a peça de desinformação circula em posts com ao menos 900 compartilhamentos nesta quarta-feira (19) e, no Instagram, a mesma publicação já foi vista ao menos 15 mil vezes. As postagens foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação do Facebook (saiba como funciona).


FALSO

Nenhuma das informações publicadas até agora sobre as investigações da morte de Marielle Franco apontam que ela teria sido morta pelo tráfico de drogas, como sustentam publicações nas redes sociais. Tampouco os inquéritos em andamento hoje na Polícia Civil, na Polícia Federal ou no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro informaram que o assassinato teria sido "queima de arquivo" e que a psolista teve a campanha financiada por traficantes.

A Polícia Civil do Rio, que toca o principal inquérito do caso, informou ao Aos Fatos que a investigação continua e corre em sigilo. A Polícia Federal disse que, por ainda estar em andamento, não poderia comentar a sua apuração do caso. As respostas das instituições indicam que são falsas as informações dos posts checados, que sugerem que as investigações já teriam sido encerradas, quando ainda estão em curso — e sigilosas.

O que se sabe até agora é que a Polícia Civil apontou como autores do crime Élcio Queiroz, que teria dirigido o carro, e Ronnie Lessa, que teria feito os disparos. Os ex-policiais foram denunciados pelo MP-RJ (Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro) em março de 2019 pelos assassinatos de Marielle e do seu motorista, Anderson Gomes. Na ação penal, não houve citação ao tráfico de drogas, muito menos a “grupos rivais”, como cita a peça de desinformação. A motivação sugerida pelo próprio MP-RJ foi “repulsa de uma reação de Ronnie Lessa à atuação política de Marielle na defesa de suas causas”.

Um relatório de investigação do caso pela Polícia Federal indicou Domingos Brazão, ex-conselheiro do TCE-RJ (Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro) e ex-deputado estadual fluminense pelo MDB, como mentor dos assassinatos. O documento, de setembro do ano passado, vê o político como “principal suspeito de ser autor intelectual” do crime e que ele teria tentado afastar a investigação de si. Na época, a então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, chegou a apresentar ação penal contra Brazão por “obstrução da Justiça, falsidade ideológica e favorecimento pessoal”.

Financiamento de campanha. Também não é verdade que a campanha de Marielle à Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro em 2016 tenha sido financiada pelo tráfico. De acordo com os dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ela obteve receita total de R$ 92.123. Do total, cerca de R$ 18 mil vieram da direção municipal do PSOL, R$ 7 mil do deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ), R$ 3,2 mil de recursos próprios e o restante de doações pessoais. Aos Fatos checou todas as outras 26 pessoas que doaram mais de R$ 1 mil para a campanha da vereadora e não encontrou evidências de que alguma delas tenha relação com o tráfico. Boa parte, inclusive, é ligada a institutos federais de ensino.

Desinformação semelhante circula nas redes desde o assassinato da vereadora e foi checada pelo Aos Fatos na época. Essa relação também foi sem provas sugerida por uma desembargadora do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro), Marília Castro Neves. Hoje, Neves responde a uma queixa-crime no STJ (Supremo Tribunal de Justiça) movida por familiares de Marielle.

Referências:

1. BBC Brasil
2. Ministério Público do Rio de Janeiro
3. G1 (Fontes 1 e 2)
4. Estadão
5. TSE
6. Aos Fatos (Fontes 1 e 2)