Aos Fatos

É falsa a notícia de que Bolsonaro articulou com bispo Macedo mudança na imagem da padroeira do Brasil

Por Luiz Fernando Menezes

16 de outubro de 2018, 12h10


É forjada uma reportagem que mostra que o candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL), e o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, em reunião, conversaram sobre a mudança da imagem da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Além de a história ser um boato, a imagem que vem circulando nas redes sociais para atestar sua confiabilidade falseia a primeira página do caderno Cotidiano da Folha de S.Paulo. A imagem não segue o padrão gráfico do jornal e não passa de uma montagem grosseira.

A página de jornal falsa foi enviada por leitores de Aos Fatos via WhatsApp com pedido de checagem (saiba mais). Para enviar sugestões e receber checagens por meio do aplicativo, adicione o número (21) 99956-5882 na sua lista de contatos e envie uma mensagem com o seu nome.

O boato já foi checado por outros sites como e-Farsas e Boatos.org. Até própria Folha de S.Paulo já desmentiu a montagem.

Veja abaixo o que Aos Fatos checou.

FALSO

Encontro de Bolsonaro com o Bispo Edir Macedo gera polêmica, ao sugerir a troca da imagem da Padroeira no Brasil

Uma página falsa da edição de 11 de outubro deste ano do caderno Cotidiano do diário Folha de S.Paulo traz como manchete um suposto encontro do candidato à Presidência da República pelo PSL, Jair Bolsonaro, com o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus. Nesse encontro, segundo a peça de desinformação, o deputado sugere a troca da imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Na mesma página, há o comentário da “crítica Renata Leal”, que “ressalta”: “acredito que Jair tomará essa postura, não somente pelo tom de pele da Padroeira, e sim para trazer mudança em todos os cenários”. A imagem da padroeira, em sua representação, tem a pele negra.

Nada na página falsa que está circulando pelo WhatsApp, no entanto, é verdadeiro: Bolsonaro não sugeriu trocar a padroeira do Brasil, a crítica Renata Leal não comentou esse suposto ocorrido porque sequer ela existe e os títulos, fotografias e elementos gráficos estão fora do padrão do jornal.

Primeiramente, a manchete da primeira página do caderno Cotidiano do dia 11 de outubro, na verdade, foi uma reportagem sobre a lista de projetos não realizados e a metas não cumpridas pelo ex-prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), que hoje disputa o governo de São Paulo.

É possível perceber também outros erros grosseiros da montagem: a Folha de S.Paulo não usa mais os nomes dos cadernos com blocos coloridos, o nome do jornal não ocupa tanto espaço como foi feito na montagem, a fonte tipográfica dos títulos são serifadas e há erros de pontuação.

Em uma busca pelo acervo da Folha, Aos Fatos encontrou apenas uma matéria que relaciona o candidato com o bispo Edir Macedo: a matéria “Record oferece tratamento diferenciado, mas Bolsonaro não retribui, ainda” traz o anúncio do apoio de Macedo à candidatura de Bolsonaro e a decisão do Ministério Público Eleitoral sobre a entrevista exclusiva do candidato ao programa Domingo Espetacular.

Aos Fatos também não encontrou, em nenhum outro veículo de imprensa registro de uma reunião entre Bolsonaro e Macedo para a sugestão de mudança da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Sobre a “crítica Renata Leal”, também não foi encontrado nenhum resultado.

O deputado Carlos Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) também publicou um vídeo desmentindo o boato, dizendo que seu pai, Jair Bolsonaro, “irá respeitar todas as crenças, inclusive a cristão, que sofre tanto na mão de uma parte da imprensa e agora em relação a essa fake news”.

Uma história parecida foi publicada por sites como Segredos Políticos e Galera Vermelha sobre um “aliado de Bolsonaro” defender um projeto que propunha tirar o título de “Padroeira do Brasil” de Nossa Senhora Aparecida. Houve sim, em 2007, um projeto de lei do deputado Professor Victorio Galli (PMDB-MT) que pedia a mudança da redação da lei que determinava o dia 12 de outubro como feriado nacional. No texto em vigor, Nossa Senhora Aparecida é chamada de “Padroeira do Brasil”. A proposta de Galli (PL 2623/2007) era de mudar essa designação para “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, uma vez que ele acreditava que essa distinção “aproxima mais do espírito constitucional, deixando de, por força de lei, obrigar que todos os brasileiros sejam praticantes do culto à Nossa Senhora Aparecida”. O projeto foi arquivado em 2008 e, como Galli não foi reeleito deputado, não poderá ser desarquivado.