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Shealah Craighead/White House

Do grampo de Obama à interferência russa, as declarações falsas de Trump mais relevantes do ano

15 de dezembro de 2017, 18h30


Parceiros de Aos Fatos por meio da IFCN (International Fact-Checking Network), Washington Post e PolitiFact anunciaram nesta semana as maiores declarações incorretas de 2017 — ou, vá lá, a maiores mentiras, a depender da linha editorial do veículo. Em ambas as publicações, o vencedor da inglória disputa foi o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Para a coluna Fact Checker, do Washington Post, a afirmação falsa do ano diz respeito à acusação feita por Trump de que seu antecessor, Barack Obama, grampeou suas conversas. No PolitiFact, por sua vez, a maior mentira de 2017 foi a declaração do presidente americano que negava a interferência russa nas eleições de 2016.

Aos Fatos traduziu para o português parte das conclusões de ambos os veículos. Veja abaixo o resultado.


FALSO

Obama me grampeou.

A despeito da vasta gama de informações qualificadas comumente à disposição de um líder de um país poderoso, Trump decidiu reproduzir em 4 de março deste ano uma declaração sem fundamento baseada num texto do site americano Breitbart News, que, por sua vez, distorceu um relatório britânico. Até mesmo o repórter do artigo original afirmou que o Breitbart errou em sua interpretação.

A coluna, assinada pelo jornalista Glenn Kessler, afirma que procurou a Casa Branca para saber quais outras fontes de informação foram usadas para subsidiar a afirmação de Trump. Segundo a apuração, além do Breitbart, foram relacionados veículos como a BBC e o jornal The Guardian, que especulavam como Obama poderia ter comandado um esquema de espionagem, já que um presidente americano sozinho não tem poder para autorizar grampo de qualquer cidadão americano sem qualquer tipo de justificativa oficial. Por isso, para a alegação ser verdadeira, o esquema deveria envolver possivelmente outro país.

Diante disso, apenas um artigo, de origem britânica, relatou que uma autorização da Fisa (Tribunal de Vigilância de Inteligência Estrangeira, responsável por fiscalizar o cumprimento da Lei de Vigilância da Inteligência Estrangeira) foi expedida em outubro de 2016 para examinar uma eventual atividade entre dois bancos russos e um computador na Trump Tower — onde o grampo foi feito, segundo Trump. Essa informação não foi confirmada por nenhum veículo americano. Além disso, nenhuma reportagem ou artigo fazem a conexão entre a ordem de Obama e o grampo telefônico de Trump.

As especulações acerca da autorização da Fisa para espionagem foram negadas por James Clapper, ex-diretor de inteligência nacional do governo Obama. O diretor do FBI, James B. Comey, também disse que a acusação feita por Trump não era verdadeira.

Embora Trump goste de gritar "notícia falsa" e criticar reportagens rasas, ele nunca voltou atrás em sua declaração, mesmo sem qualquer evidência que a endosse.

Leia a íntegra da checagem em inglês aqui.


FALSO

Essa coisa da Rússia com Trump é uma história inventada. É uma desculpa dos democratas por terem perdido as eleições.

Tanto em relatórios públicos quanto em documentos classificados, as agências de inteligência do governo americano afirmaram que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, operou para interferir nas eleições presidenciais de 2016. Dentre essas ações estavam crimes cibernéticos como o roubo de dados confidenciais, o patrocínio de propaganda contra certos candidatos e um esforço geral para desacreditar publicamente o processo democrático americano.

Congressistas democratas e republicanos participaram nos últimos meses de audiências públicas e privadas para averiguar se houve, de fato, intervenção russa. As investigações ainda estão em curso.

Facebook, Google e Twitter também investigaram suas próprias redes e concluíram que suas plataformas foram usadas pela Rússia numa tentativa de influenciar as eleições americanas. Veículos russos como RT e Sputnik disseminaram notícias falsas e suspeitas durante as eleições com o auxílio de trolls e robôs na internet.

Em julho de 2016, o Wikileaks publicou uma série de e-mails roubados do comitê nacional do Partido Democrata americano. Um dos desdobramentos foi o afastamento da conselheira do partido Debbie Wasserman Schultz após acusação de ter favorecido a ex-senadora Hillary Clinton nas prévias do partido contra Bernie Sanders.

Tanto oficiais da inteligência quanto especialistas em cibersegurança concluíram que o vazamento tinha indícios de autoria russa. Em outubro, o Wikileaks publicou e-mails do chefe de campanha de Hillary, John Podesta.

Hackers russos também tentaram penetrar no sistema de computadores de oficiais eleitorais locais. Os ataques nunca acessaram os sistemas de votação, segundo as agências de inteligência federais. No entanto, o governo federal alertou oficiais locais para reforçar a segurança de seus sistemas.

Parece pouco provável — embora não impossível — que a Rússia tenha interferido no resultado das eleições. Da mesma forma que há indícios de interferência russa, não há evidência de impacto no desfecho do pleito.

Trump poderia reconhecer que a interferência russa aconteceu, mas que isso não tira a legitimidade de sua eleição e de sua presidência. No entanto, ele se recusa a isso. Às vezes, ele diz com segurança que "não houve conluio" entre sua campanha e a Rússia, numa admissão implícita de que pode ter havido algum tipo de interferência em algum grau inferior a isso. Noutras vezes, porém, ele afirma que qualquer tipo de interferência aconteceu.

Leia aqui a íntegra da checagem em inglês.