Aos Fatos

Marcelo Camargo/ABr

Dilma condena corte em programa que ela mesma congelou

Por Bárbara Libório e Tai Nalon

5 de setembro de 2017, 01h30


Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo no último sábado (2), a ex-presidente Dilma Rousseff citou informações equivocadas a respeito de programas do seu antigo governo, a rejeição da denúncia contra o presidente Michel Temer, e o que a delação de Joesley Batista, da JBS, diz sobre ela.

Aos Fatos reuniu três declarações da ex-presidente ao diário e checou a veracidade delas. Dilma se contradiz quando fala do orçamento do Ciências Sem Fronteiras, escorrega ao comparar os votos dos deputados na votação do impeachment e da denúncia criminal contra Temer e se atrapalha ao comentar sua relação com o caso JBS.

Veja, abaixo, o resultado das checagens.


CONTRADITÓRIO

O Ciência Sem Fronteiras é um percentual ínfimo [do Orçamento]. Estamos falando de R$ 3 bilhões.

Questionada se o governo faz autocrítica com relação ao custo de alguns dos programas sociais do seu governo, Dilma defendeu a ampliação dos recursos do Ciência Sem Fronteiras, uma das vitrines de sua gestão. "O Ciência Sem Fronteiras é um percentual ínfimo [do Orçamento]. Estamos falando de R$ 3 bilhões, que é o que gastaram agora comprando voto na Câmara. Qual é a acusação? De que nós exageramos nos subsídios. (...) O subsídio para o povo brasileiro foi bem correspondido. O que não foi bem correspondido foi a redução de impostos da industria", disse.

Dilma não falou, porém, que ela mesma já havia promovido cortes e determinado congelamento de recursos justamente em cima daqueles R$ 3 bilhões mencionados.

Lançado em 2013, o Ciência Sem Fronteiras concedia bolsas de estudo de graduação e pós-graduação no exterior pagas pelo governo, mas foi congelado pouco mais de dois anos depois.

Em 2015, o programa teve dotação de R$ 3,25 bilhões, dos quais R$ 3,16 bilhões foram executados. Nos anos anteriores, o orçamento foi menor: eram previstos R$ 1,2 bilhão e R$ 1,8 bilhão em 2013 e 2014, respectivamente.

Em 2015, no entanto, o Planalto decidiu suspender por tempo indeterminado a oferta de novas bolsas. O orçamento voltou a cair para R$ 1,6 bilhão em 2016 e, em 2017, chegou a R$ 407 milhões.

Em abril deste ano, o Ministério da Educação encerrou o Ciência Sem Fronteiras para cursos de graduação e passou a atender apenas cursos de pós-graduação, como mestrado, doutorado e pós-doutorado.


EXAGERADO

Porque os 267 que o [Temer] livraram [da denúncia] são os mesmos que me condenaram.

Foram 263, e não 267, os deputados que votaram a favor do relatório que rejeitava a denúncia contra Temer. Aos Fatos checou e, desses 263, 211 votaram a favor do impeachment de Dilma em maio de 2016 — ou seja, 80% deles.

Houve 53 deputados, no entanto, que votaram contra o acolhimento da denúncia contra Temer e também contra o afastamento da ex-presidente. É o caso, por exemplo, do peemedebista Aníbal Gomes, do Ceará, cuja justificativa para ambas as posições Aos Fatos mostrou em agosto passado: em 2016, era próximo dos irmãos Cid e Ciro Gomes, aliados de Dilma. Na época, ao defender plebiscito para antecipar as eleições presidenciais, questionou: "É justo afastar a presidente por pedalada fiscal sem afastar o vice-presidente?". Em 2017, entretanto, tudo mudou: o deputado virou vice-líder do governo na Câmara e rompeu com os Gomes.


IMPRECISO

A última coisa que falaram foi que eu e o presidente Lula tínhamos uma conta no exterior. Essa conta era de US$ 150 milhões. Depois mudou para US$ 90 milhões. Depois apresentaram uma conta que pagou o casamento, um apartamento na Quinta Avenida e um iate [do dono da JBS]. É sempre assim.

Na entrevista, Dilma foi instada a comentar o aparecimento de seu nome na delação de Joesley Batista, dono da JBS. A ex-presidente questiona uma sequência de suspeitas relatadas pelo empresário que, segundo ela, foram se alterando ao longo do tempo. No entanto, nesse caso, não houve mudança de versão, conforme Dilma dá a entender.

A sequência de fatos é a seguinte: em sua delação, Joesley afirma que fazia depósitos no exterior para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e depois para Dilma. A conta, segundo ele, estava em nome de uma offshore e acumulava um total de US$ 150 milhões de dólares em 2014.

Conforme revelado em maio por Joesley, foram destinados US$ 70 milhões a Lula e mais US$ 80 milhões em benefício de Dilma. Joesley afirmou que os montantes foram enviados por meio do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e gastos em campanhas com o conhecimento de ambos.

No entanto, foi apenas em julho que, segundo a coluna da Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, soube-se que Joesley comprou com o dinheiro dessa mesma conta um apartamento em Nova York e dois barcos. Também pagou em 2012 sua cerimônia de casamento. Segundo a reportagem, Joesley teria repatriado o dinheiro em 2016 e pago mais de R$ 20 milhões de imposto de renda.

O empresário se explicou: afirmou que depositava nessa conta os recursos destinados a propina e que, quando tinha que financiar o PT, desembolsava dinheiro no Brasil e "descontava" o montante. Para provar a versão, segundo a mesma colunista, entre os novos documentos entregues por Joesley à Procuradoria Geral da República na última semana estariam os comprovantes de depósitos da conta.

Nesta segunda-feira (4), entretanto, o procurador-geral da República, determinou que fosse aberta investigação para apurar se os delatores do caso JBS omitiram informações em seus acordos de colaboração premiada. As provas, segundo Janot, não serão anuladas, mas envolvidos no escândalo já se movimentam para pedir que se tornem inválidas.