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Dez frases de Doria e suas contradições sobre a candidatura em 2018

Por Bárbara Libório

14 de agosto de 2017, 17h55


O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), publicou no último domingo (13) um vídeo nas redes sociais ao lado do governador Geraldo Alckmin reafirmando sua lealdade ao padrinho político e ressaltando que nada poderá colocá-los em polos opostos. Doria se refere às especulações que colocam os dois na disputa pela vaga de presidenciável em 2018 pelo partido tucano.

Aos Fatos fez uma retrospectiva com algumas das declarações de Doria sobre o tema e notou ao menos uma contradição: em maio, o prefeito admitiu publicamente disposição de concorrer à Presidência caso seja eleito nas prévias tucanas. A fala foi em resposta a uma pergunta da agência Bloomberg.

Veja, abaixo, o que apuramos.


CONTRADITÓRIO

Não há nada que vá nos dividir, não há nada que vá nos afastar, não há nada que vá nos colocar em campos distintos.

Alckmin foi padrinho de Doria na empreitada à Prefeitura de São Paulo, estreia do empresário na carreira política. Quando disputou as prévias do PSDB com Andrea Matarazzo, ele recebeu apoio do governador, que pediu a líderes tucanos que votassem no empresário. Quando ganhou a eleição em primeiro turno, derrotando o petista Fernando Haddad, em outubro do ano passado, Doria lançou a candidatura de Alckmin à Presidência.

Menos de três meses depois da posse do prefeito paulistano, porém, alas do tucanato já ensaiavam uma onda favorável à sua candidatura ao Palácio do Planalto. A partir de então, o discurso oficial de Doria evoluiu tanto do ponto de vista retórico quanto na prática — desde março, ele já admitiu que concorreria à Presidência, voltou atrás e agora segue em agenda pelo Brasil.

Março

O prefeito negou a ideia de se tornar candidato a presidente da República por diversas vezes, em diferentes lugares. Em março, em coletiva à imprensa na prefeitura da capital paulista, ressaltou que seu candidato à presidência em 2018 é o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Primeiro, não sou candidato a nada, sou candidato a ser prefeito da cidade de São Paulo, a prefeitar, esta é minha obrigação.

Abril

Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, em abril, chegou a admitir que existe uma onda para levá-lo a disputar a Presidência, mas afirmou que ela não é provocada ou acolhida por ele e pelo partido.

O melhor que posso dar para a democracia brasileira é ser um bom prefeito da cidade de São Paulo, é o que tenho feito. Meu candidato para Presidência da República é o Geraldo Alckmin, já reafirmei isso diversas vezes.

O prefeito afirmou ainda que Alckmin confia em sua lealdade e considerou que pode ser candidato a governador em 2018 caso Alckmin assim o peça.

Maio

No entanto, em 15 de maio, numa viagem a Nova York, Doria voltou atrás: não havia mais intenção de ser governador.

Quero deixar claro que eu não sou candidato a presidente da República, não sou candidato a governador, sou candidato a ser um bom prefeito da cidade de São Paulo, para isso fui eleito.

Um dia depois, o prefeito admitiu publicamente pela primeira vez que pode concorrer à Presidência em 2018 caso seja escolhido nas prévias de seu partido para disputar o cargo. Ao defender as prévias, Doria foi questionado pela agência de notícias Bloomberg se aceitaria o desafio caso fosse eleito pelos tucanos. Respondeu:

Respeitando a democracia, por que não?

Junho

Em junho, no entanto, voltou ao discurso de antes. Disse mais uma vez que era candidato a ser o melhor prefeito de São Paulo e que não se candidataria à presidência.

Meu compromisso é fazer uma cidade melhor e um país melhor. Nisso só tem uma bandeira, e ela não é vermelha, é verde e amarela.

Julho

Durante seu programa semanal no Facebook, chamado “Olho no Olho”, Doria afirmou que não há “nenhuma possibilidade” de disputar prévias com Alckmin.

Não existe nenhuma possibilidade. Nenhuma. Eu não disputo contra Geraldo Alckmin. Alckmin é um homem que me ajudou, me apoiou, é meu amigo há 37 anos. Eu jamais faria um ato dessa natureza.

Ele também descartou deixar o PSDB e se filiar a outra sigla para se candidatar.

Enquanto o partido mantiver seu programa e figuras ilustres, não tem a menor hipótese de eu sair do PSDB. Agora, numa situação de debacle absoluto, é uma outra história.

Ao Financial Times, Doria também negou concorrer em 2018. "Eu não sou candidato. Eu sou prefeito da cidade de São Paulo e a minha missão, a minha obrigação, é continuar sendo um bom prefeito. E tudo a seu tempo. 18 em 18", disse na entrevista transmitida por sua página no Facebook.

Agosto

Ao completar sete meses à frente da Prefeitura de São Paulo, o tucano também completou um dia por semana fora do Brasil, em média, nesse mesmo período. Doria também tem viagens a diferentes Estados marcadas para as próximas semanas, como visitas a Palmas (TO), Vila Velha (ES), Campina Grande (PB) e Fortaleza (CE).

Ainda neste mês, porém, após participar, ao lado de Temer, de cerimônia para assinatura de acordo para transferência da União ao município da área do Campo de Marte, na zona norte da capital, Doria voltou a reafirmar que não sairá candidato em 2018.

Eu não sou candidato a presidente da República, sou candidato a ser um bom prefeito da cidade de São Paulo. Essa é a minha responsabilidade, é isso que eu tenho procurado fazer.

Na última semana, o presidente Michel Temer (PMDB) chegou a sugerir que o PMDB está “de portas abertas” à sua filiação para concorrer ao Planalto em 2018. O prefeito admitiu que foi sondado por DEM e PMDB para 2018, mas afirmou que não é hora para tratar do assunto.

Respeito muito o governador Geraldo Alckmin, é uma amizade indivisível, que não depende da política. Não há a menor hipótese divisionista, separatista. E, principalmente, não é o momento de se tratar de chapa nem de candidatura.

O vídeo que motivou esta checagem foi veiculado dois dias depois dessa última declaração.