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Luiz Fernando Menezes/Aos Fatos

Desenhamos fatos sobre os desafios da checagem

Por Luiz Fernando Menezes

20 de dezembro de 2019, 13h25


Anúncios falsos sobre suspensão de remédios, ligação de criminosos com partidos políticos e golpes virtuais envolvendo benefícios sociais. Ao longo de 2019, Aos Fatos verificou essas e outras 340 peças de desinformação que circularam no Facebook, no Twitter, no Instagram e no WhatsApp e acumularam milhares de compartilhamentos. Algumas delas, por exemplo, foram republicadas mais de 500 mil vezes, como a que dizia que pimentões estavam abrigando vermes mortais.

O volume de checagens, no entanto, não significa que o processo de verificação seja fácil ou rápido: dependendo da publicação, ele pode levar dias (ou até semanas!) e inclui entrevistas com especialistas, consultas a livros, artigos científicos, arquivos físicos e pedidos de informação a entes públicos por meio da Lei de Acesso à Informação.

Para ilustrar os desafios da checagem de fatos, desenhamos e exemplificamos alguns casos enfrentados pela redação durante o ano:

A tarefa de verificar se uma informação é verdadeira ou não muitas vezes é bastante intrincada. Enquanto algumas peças de desinformação apresentam montagens grosseiras, facilmente identificadas como falsas, outras são mais refinadas e entremeiam informações verdadeiras com dados falsos ou distorcidos, citam personagens desconhecidos e descontextualizam fotos reais e difíceis de serem rastreadas.

Portanto, cada peça de desinformação requer um caminho diferente para sua verificação. Às vezes, basta acessar alguns links na internet para cravar que uma publicação é falsa. Outras exigem que os checadores recorram a bases de dados extensas, artigos científicos ou livros.

Um exemplo de checagem mais complexa em 2019 foi a verificação de uma corrente sobre a família real brasileira, que foi deposta em 15 de novembro de 1889. Com difusão principalmente no WhatsApp, a publicação trazia dezenas de informações duvidosas e que levaram duas semanas para serem checadas.

Nesse tempo, Aos Fatos entrevistou historiadores, consultou quatro livros e fez buscas em acervos de museus. Por fim, foram verificadas 18 informações — uma delas, por exemplo dizia que Dom Pedro 2º teria tentado abolir a escravidão em 1848, mas foi impedido pelo parlamento, o que não é verdade.

Também houve casos em que foi necessário recorrer a artigos científicos para desmentir uma publicação. Para verificar uma corrente que afirmava que água quente com abacaxi ajudaria a prevenir e até curar o câncer, o Aos Fatos se baseou em estudos da International Journal of Peptide Research and Therapeutics e da Biomedical Reports, por exemplo.

Em outras ocasiões, principalmente quando são citados os nomes de diversas pessoas, a checagem exige que inúmeros contatos também sejam feitos. Aos Fatos tenta falar com todas as partes envolvidas nas peças de desinformação, desde os seus autores — quando são identificados — até os alvos da publicação.

Para desmentir que o governo Bolsonaro teria suspendido a distribuição gratuita de insulina pelo SUS (Sistema Único de Saúde) em julho deste ano, por exemplo, Aos Fatos primeiro entrou em contato com o Ministério da Saúde. O órgão negou a informação e disse que, na verdade, tinham sido suspensas parcerias com laboratórios, mas que isso não afetava a distribuição do medicamento. Foi então necessário contatar os dois laboratórios envolvidos e a Sociedade Brasileira de Diabetes. Todo o processo de checagem acabou levando três dias, o que é comum quando é preciso aguardar respostas a questionamentos feitos por telefone ou e-mail, inclusive a órgãos oficiais.

Já um caso recente foi quando Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), vereador e filho do presidente Jair Bolsonaro, desativou suas contas nas redes sociais no começo de novembro. Na época, passou a circular uma publicação que dizia que havia sido o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes quem teria mandado excluir os perfis. Para desmentir a informação, Aos Fatos entrou em contato com o Facebook (que também responde pelo Instagram), com o Twitter, com o STF e com a assessoria de Carlos. A checagem só foi publicada após os quatro responderem.

Aos Fatos também tem como protocolo entrar em contato com o autor da peça de desinformação — quando é possível rastreá-lo — ou com página que publicou o conteúdo enganoso para que eles possam comentar a checagem. Muitas vezes não conseguimos, mas há casos em que o autor da desinformação a corrige após ser confrontado com a checagem e pede desculpas a seus seguidores.

Há, ainda, situações nas quais os checadores nem sabem por onde começar a verificação. Algumas peças de desinformação trazem fotos privadas, vídeos que não foram publicados nas redes antes ou citam nomes de pessoas pouco conhecidas. Nessas checagens, o Aos Fatos tem que ser criativo.

Isso aconteceu, por exemplo, com a verificação de uma foto que mostrava Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro supostamente ao lado dos acusados pelo assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ). A busca reversa da imagem não deu nenhum resultado, então tivemos que encontrar pistas na própria publicação.

Aos Fatos identificou que uma das pessoas retratadas na imagem era o deputado estadual Coronel Telhada (PP-SP). Com essa informação, procuramos eventos nos quais Bolsonaro e o deputado estiveram presentes e encontramos uma formatura da APMDFESP (Associação Policiais Militares Deficientes Físicos do Estado de São Paulo) ocorrida em 2017. Na galeria publicada no blog da associação, encontramos a foto usada na peça de desinformação e a identidade dos dois homens indicados: nenhum deles tinha envolvimento na morte da vereadora.

É verdade, no entanto, que algumas publicações são fáceis de serem verificadas. Nesses casos, Aos Fatos encoraja os leitores a checarem as informações com as próprias mãos: temos diversos manuais para ajudá-los nessa tarefa, inclusive um guia em quadrinhos feito em parceria com a IFCN (International Fact-Checking Network).

Mas se a peça de desinformação for complicada, o Aos Fatos está aberto a sugestões e pedidos de seus leitores, que devem ser enviados pelo email ouvidoria@aosfatos.org ou pelo WhatsApp (inscreva-se aqui).

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10)
2. International Journal of Peptide Research and Therapeutics
3. Biomedical Reports