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Marcos Corrêa/PR

Desde a posse, Bolsonaro deu 400 declarações falsas ou distorcidas

Por Ana Rita Cunha

17 de outubro de 2019, 18h49


Em pouco mais de dez meses de mandato, o presidente Jair Bolsonaro já deu 400 declarações falsas ou distorcidas, uma média de 1,4 por dia. De um total de 702 falas do presidente analisadas por Aos Fatos desde janeiro, 57% tinham informações enganosas ou imprecisões e 43% eram verdadeiras (302). Bolsonaro errou mais durante entrevistas do que em transmissões ao vivo ou em publicações nas redes sociais. Já os temas mais abordados por ele no período foram economia e meio ambiente.

O erro mais recente de Bolsonaro foi sobre a sua participação na atual crise política do PSL. Segundo o presidente, ele não estava “tumultuando a relação com o partido” e se mantinha “calado sobre esse assunto”. Foi, no entanto, uma declaração de Bolsonaro que desencadeou a crise: no dia 8 de outubro, ele disse a um apoiador para "esquecer" o PSL e pediu para não ter o nome divulgado junto com o do presidente do partido, o deputado federal Luciano Bivar (PSL-PE), pois ele estaria "queimado para caramba".

A contabilidade das declarações é feita diariamente pela equipe do Aos Fatos — que mapeia canais oficiais, redes sociais e meios de comunicação — e publicada nesta base de dados. A organização deste agregador de declarações parte de uma ideia concebida originalmente pelo Fact Checker, tradicional coluna de checagem do jornal americano Washington Post.

Os temas mais mencionados. O assunto mais abordado por Bolsonaro é a economia, com 184 declarações checadas: 55% verdadeiras e 45% falsas ou distorcidas. A última imprecisão do presidente sobre o tema foi em um tweet sobre feitos do governo na segunda semana de outubro. Bolsonaro comemorou que o Brasil subiu de posição no Ranking de Competitividade do Fórum Econômico Mundial (de 72º em 2018 para 71º em 2019). No entanto, o mérito não é unicamente da sua gestão, pois o ranking também se baseia em dados dos anos anteriores.

O segundo tema que mais apareceu nas falas checadas do presidente foi meio ambiente, com 80 declarações, 70% falsas ou distorcidas e 30% verdadeiras. Esse assunto passou a ganhar destaque nas manifestações do presidente a partir de julho, quando ele questionou os dados de desmatamento divulgados pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), e continuou em evidência com as respostas de Bolsonaro às críticas ao aumento da queimadas na Amazônia, em agosto.

Uma das declarações enganosas repetidas por Bolsonaro sobre meio ambiente é que a Amazônia estaria “quase totalmente preservada”. Essa afirmação é falsa, porque a Amazônia perdeu 18% de área de floresta entre 1985 e 2017, o que dá cerca de 36 milhões de hectares, de acordo com a análise feita pelo Mapbiomas.

Quando o presidente erra mais. A maior parte das falas de Bolsonaro classificadas como falsas ou distorcidas ocorreu em entrevistas. O presidente cometeu erros em 65% das declarações passíveis de checagem concedidas à imprensa. Em agosto, por exemplo, ele errou ao comentar dados sobre terras indígenas: disse que havia 400 pedidos de demarcação de reservas, mas, de acordo com a Funai (Fundação Nacional do Índio), são 118 pedidos pendentes de demarcação.

Nas entrevistas, Bolsonaro tem intensificado as críticas à imprensa, solicitando mais divulgação dos fatos positivos do governo. O presidente, no entanto, já usou dados da imprensa para criticar a omissão dos fatos positivos. Em junho, ele citou um levantamento feito por jornalistas do portal de notícias G1, o Monitor da Violência, para falar sobre a queda nos homicídios, mas se contradisse afirmando que “a imprensa não falou [sobre a redução da violência no primeiro trimestre]”.

Já as redes sociais são onde Bolsonaro comete menos erros. No Twitter e no Facebook, apenas 35% das declarações checadas foram falsas ou distorcidas. Um dos padrões de publicação de Bolsonaro é a reprodução de dados divulgados pelos ministérios. Quando foge desse tipo de postagem, no entanto, o presidente comete mais erros. Um exemplo recente é um tweet desta semana no qual comenta sobre medida provisória que institui uma 13º parcela para beneficiários do Bolsa Família e diz que ela seria paga com recursos oriundos do combate às fraudes no programa. Essa afirmação é exagerada, porque os benefícios irregulares correspondem a apenas 1,04% da folha de pagamento mensal do programa, segundo auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União).

Outro padrão de publicação de Bolsonaro nas redes sociais é a divulgação de balanços de feitos do governo. Nesse caso, um erro comum do presidente, que já foi investigado por Aos Fatos, é atribuir ao próprio governo feitos de gestões anteriores. No final de setembro, em um tweet, Bolsonaro afirmou que criou o programa Rota 2030, que institui regras como etiquetagem de veículos e novas obrigatoriedades de equipamentos. No entanto, o programa foi sancionado pelo ex-presidente Michel Temer em novembro de 2018.

Os erros mais repetidos. Qual a parcela do território brasileiro ocupada por terras indígenas? Em sete ocasiões, Bolsonaro usou o dado impreciso de 14%. De acordo com dados da Funai (Fundação Nacional do Índio), há atualmente 440 terras indígenas regularizadas e outras seis interditadas (com restrição de uso e entrada de terceiros, para proteção de tribos isoladas), o que corresponde a 12,6% do território nacional.

Para chegar ao valor de 13,7%, mais próximo ao apresentado pelo presidente, é preciso incluir na conta as reservas que ainda estão em estudo ou que aguardam a sanção presidencial. Chama atenção o erro do presidente considerando que ele já afirmou que não demarcaria terras enquanto estivesse no cargo.

Outro erro muito repetido por Bolsonaro é a afirmação de que “as Forças Armadas sempre estiveram ao lado da democracia e da liberdade”. Essa declaração foi dita ao menos cinco vezes pelo presidente. Diferentemente do que afirma Bolsonaro, porém, nem sempre as Forças Armadas defenderam a democracia.

Em 1964, o marechal Humberto Castelo Branco assumiu a Presidência por eleição indireta com compromisso de convocar nova eleição presidencial em 1965. Castelo Branco não só não convocou as eleições como cassou políticos opositores e funcionários públicos, determinou que as eleições fossem indiretas, criando a oportunidade da instituição de um período de ditadura militar no país.

É importante destacar que as Forças Armadas não são homogêneas e em vários momentos da história nacional houve divergência entre setores militares legalistas e golpistas. Além disso, os militares tiveram atuações em favor da manutenção democrática, quando, em 1956, por exemplo, o general Henrique Lott atuou para garantir a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek, em um período de conspirações golpistas após o suicídio de Getúlio Vargas.

Menções a Israel são frequentes nas falas de Bolsonaro e em cinco momentos ele errou ao afirmar que o país é menor do que Sergipe. O país tem uma área 143 km² maior do que o território sergipano, o equivalente a 20 mil campos de futebol.

Outro erro recorrente do presidente é mencionar que não há indicação política na sua equipe de ministros. Apesar de não ter recorrido a alianças com partidos no Congresso, a montagem do ministério de Bolsonaro seguiu, sim, critérios políticos na escolha de nomes, como dos ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Teresa Cristina (Agricultura), ligados à bancada ruralista no Congresso Nacional.

Referências:

1. G1
2. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3 e 4)
3. Washington Post
4. Valor Econômico