Aos Fatos

Deputado que discute com mulher em vídeo não é do PT nem ofereceu dinheiro por gravação

Por Luiz Fernando Menezes

17 de outubro de 2018, 14h58


Um vídeo de agosto do ano passado que mostra a discussão entre o deputado estadual Paulo Ramos (PDT-RJ) e a ex-funcionária de um abrigo municipal para animais tem sido compartilhado no Facebook como se ele fosse um parlamentar do PT que “visita escolas e oferece dinheiro para que as professoras façam um vídeo falso”. Não é verdade.

Na época em que o vídeo foi gravado, Ramos era filiado ao PSOL. Ele visitava o Centro de Proteção Animal, na zona oeste do Rio, para apurar denúncias de maus tratos na instituição. A mulher com quem o deputado gritou é apresentada no vídeo como uma ex-funcionária do centro, e foi alvo da ira do deputado após dizer que não iria “fazer parte do circo”. Ao gesticular e gritar, Ramos chega a derrubar o celular da mulher no chão.

Até a tarde desta quarta-feira (17), o post do vídeo com as informações enganosas já tinha alcançado mais de 78 mil compartilhamentos no Facebook. O conteúdo foi denunciado por usuários da rede social e marcado por Aos Fatos como FALSO na ferramenta de verificação (veja como funciona).

Veja abaixo, em detalhes, o que checamos:


FALSO

Abuso! Deputado do PT do Rio de Janeiro visita escolas e oferece dinheiro para que as professoras façam um vídeo falso. Veja o que aconteceu

As cenas mostradas no vídeo que foi publicado em post no Facebook nada tem a ver com o PT, e nem com oferta de dinheiro a professoras em troca de um vídeo. A gravação é, na verdade, de agosto de 2017, quando os deputados estaduais do Rio de Janeiro Paulo Ramos — na época do PSOL, hoje no PDT — e Carlos Roberto Osório (PSDB) visitaram o Centro de Proteção Animal para apurar denúncias de maus tratos, e não uma escola. A mulher que aparece nas imagens é apontada como uma ex-funcionária do local, um abrigo público para animais.

O vídeo começa com o deputado Osório falando que estava “ali para fazer uma visita” e que as mulheres, entre elas a ex-funcionária do abrigo, “podem nos acompanhar, não tem problema nenhum”, em uma tentativa de resolver “um mal-entendido que houve lá no início”. A mulher concorda e então responde: “houve um mal-entendido, mas nós não vamos fazer parte do circo, não!”.

Nesse momento, Paulo Ramos responde, levantando a voz: “que circo, porra?”, e tem início a discussão entre os dois. Em dado momento, ao gesticular exaltado, o parlamentar acerta sem querer a mão da mulher, derrubando seu celular no chão. A gravação termina com Ramos gritando para que a mulher se retire porque “não faz parte da minha visita aqui”.

Em setembro deste ano, em seu Facebook, Paulo Ramos voltou a falar sobre o episódio e afirmou que a discussão ocorreu porque as mulheres “tentaram desqualificar o trabalho dos parlamentares, agredindo a todos da equipe, inclusive funcionários da instituição, xingando os deputados de palhaços, e a visita de circo, o que provocou uma reação indignada” por parte do deputado.

Na época, ao jornal O Dia, o deputado assim justificou sua postura: “duas mulheres aproveitaram a visita para tentar desviar o foco. Elas é que fizeram provocações. Eu não agi. Eu reagi. E não reagi violentamente. Reagi veementemente, como, aliás, faço com frequência. Não admito determinados tipos de desrespeito. Agora, se alguém interpretar que ‘porra’ é palavrão, não vai poder nem ligar a televisão. Sobre a visita à Fazenda Modelo, sou atuante na área. Tenho várias leis no sentido de proteger os animais".

Paulo Ramos é oficial da reserva da Polícia Militar e advogado, foi deputado constituinte e federal e, desde 1998, exerce mandato na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, sempre pelo PDT. Em 2013, migrou para o PSOL, de onde foi expulso no fim de 2017, após votar contra a cassação do presidente da Alerj, Jorge Picciani (MDB), que havia sido preso.

O vídeo com a discussão entre o deputado e a ex-funcionária do abrigo foi retirada de contexto para gerar outros boatos: corrente que circulou no WhatsApp já usou as imagens para acusar Ramos de ofender professoras (história desmentida por ele mesmo em discurso na Alerj) e também de oferecer dinheiro para que as mulheres do vídeo fizessem campanha contra Jair Bolsonaro, como checaram o Fato ou Fake e o Boatos.org.