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As declarações de Lula à ‘Folha’ e ao ‘El País’, checadas

Por Hyury Potter e Bruno Fávero

26 de abril de 2019, 20h38


O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu nesta sexta-feira (26) a primeira entrevista desde que foi preso. Aos Fatos checou suas declarações e já constatou que ele errou ao comentar a respeito de convite aos encontros do G8 e sobre a desigualdade social do Peru. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo e ao site El País, Lula criticou líderes da Operação Lava Jato e fez críticas ao atual governo.

Abaixo, o que foi checado:

1. Lula disse que foi convidado para todas as reuniões do G8, que reúne alguns dos países mais ricos do mundo. Porém, em 2004, o próprio ex-presidente reclamou da ausência de convite para o evento daquele ano.

2. O petista erra ao dizer que, apesar de forte crescimento econômico, o Peru também experimentou aumento da desigualdade nos governos de Alejandro Toledo e Alan Garcia. Em ambos os casos, a alta do PIB veio acompanhada de redução da pobreza, segundo o Banco Mundial.

3. O ex-presidente exagerou o valor da multa da Petrobras aos cofres públicos que seria usado para fundação privada de combate à corrupção.

4. Lula também exagerou ao dizer que, nos governos petistas, 36 milhões de brasileiros saíram da miséria. Estudo do Ipea apontou que foram 8,4 milhões a menos em situação de extrema pobreza entre 2002 e 2012. Já outros 25,3 milhões de brasileiros saíram da condição de pobreza nesse período.

5. É impreciso dizer que a fome foi considerada erradicada no Brasil nos governos do PT. O indicador de desnutrição das Nações Unidas caiu gradualmente desde que o partido chegou o poder até atingir, no período 2008-2010, o nível "abaixo de 2,5%", menor patamar possível na pesquisa e em que também estão os países desenvolvidos. Mas o IBGE apontava, em 2013, que 3,2% da população ainda vivia em grave insegurança alimentar.

6. Lula acerta quando diz que as exportações brasileiras quase quadruplicaram na era petista no governo federal: eram US$ 60,2 bilhões em 2002, último ano de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), e chegaram a US$ 255,9 bilhões, valor 4,2 vezes maior, em 2011, durante o governo Dilma Rousseff (PT).

Veja, abaixo, em detalhes.


FALSO

Eu fui o único presidente a ser chamado para todas as reuniões do G8.

A afirmação é FALSA, uma vez que o próprio ex-presidente reclamou, em 2004, de não ter sido convidado pelo governo dos Estados Unidos para a reunião do grupo em uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. Em 2010, fato semelhante também aconteceu, desta vez no Canadá.

Durante o período que ocupou a Presidência da República, entre 2003 e 2010, Lula não participou de dois encontros do G8: em 2004 e em 2010. O G8 era o grupo de alguns dos países mais ricos do mundo, integrado por Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Canadá e Rússia. Os russos foram excluídos em 2014 e o grupo voltou a ser chamado de G7.

Cabe ao chefe de Estado do país anfitrião decidir quais nações serão convidadas além das que integram o grupo. Em 2003, o Brasil foi um dos convidados da 29ª edição do encontro, realizado na França em junho daquele ano. No ano seguinte, o país não recebeu convite dos EUA, país anfitrião daquele ano. Em entrevista à Folha de S.Paulo, em 31 de agosto de 2004, Lula reclamou da falta de convite:

"Este país já foi a oitava economia mundial. Quando éramos a oitava economia mundial, não tinha o grupo dos oito. Era só o G7. Quando nós caímos para décimo lugar, aí criaram o G8, porque já não era mais o Brasil. Possivelmente não coubesse um país latino-americano no grupo dos países mais ricos. Mas como nós somos brasileiros e não desistimos nunca, este país ainda vai voltar a ser a sétima, a sexta ou a oitava economia do mundo para ver se os mais ricos vão diminuir o grupo dos privilegiados", disse o presidente à Folha.

O então presidente participou de todos os demais encontros do G8, exceto em 2010, quando a reunião ocorreu no Canadá e não teve participação brasileira.

Criado em 1975 pelos seis países mais industrializados do mundo que pretendiam discutir problemas globais como a crise do petróleo do começo daquela década, o grupo virou G7 com a entrada do Canadá no ano seguinte. O grupo se tornaria oficialmente G8 em 1998, quando da entrada da Rússia. Em 2014, os integrantes decidiram retirar a Rússia do grupo após a decisão do presidente Putin de anexar a região ucraniana da Crimeia. Desde então o grupo voltou a ser chamado de G7.


FALSO

... eles [Peru] crescem, mas não tem distribuição de renda. Então, o país cresce a 5% e a miséria cresce a 10%.

Diferentemente do que afirmou Lula, a extrema pobreza caiu no Peru tanto no mandato de Alejandro Toledo (2001-2006) quanto no de Alan Garcia (2006-2011), ex-presidentes do país.

Segundo dados do Banco Mundial, durante a gestão Toledo, a porcentagem da população que vivia com menos de US$1,90 por dia caiu de 17,2% em 2001 para 15,3% em 2006. Já no governo Garcia, o número foi de 15,3% para 5,2% em 2011.

Ainda segundo o Banco Mundial, o PIB do país (em preços de 2010) foi de US$ 86,3 bilhões em 2001 a US$ 113,7 bilhões em 2006 (crescimento de 31% no período) e a US$ 156,9 bilhões (crescimento de 38% desde 2006).


EXAGERADO

… [O procurador Delton] Dallagnol pegando R$ 2,5 bilhões da Petrobras para criar uma fundação para ele.

A declaração foi considerada EXAGERADA porque, embora o procurador do Ministério Público Federal Deltan Dallagnol, que coordenar a força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba, tenha articulado a criação de uma fundação ligada à Operação Lava Jato, ela administraria apenas metade do valor citado pelo ex-presidente.

A Petrobras assinou, em setembro de 2018, um acordo com o Departamento de Justiça dos EUA no qual se comprometeu a pagar uma multa de US$ 853 milhões (R$ 3,35 bilhões na cotação atual) como punição pelas irregularidades cometidas por executivos da empresa. Desse dinheiro, US$ 170,6 milhões (R$ 670,8 milhões ou 20% do total) ficam com autoridades americanas e US$ 682,6 (R$ 2,7 bilhões ou 80%) com as brasileiras. A empresa foi multada pela Justiça americana porque negocia ações na Bolsa de Valores de Nova York.

Em janeiro, quando foi homologado pela Justiça brasileira, o acordo previa que todo o dinheiro fosse depositado em uma conta vinculada à 13ª Vara Federal de Curitiba. Mas metade do valor (R$ 1,3 bilhão) seria usado para eventuais acordos com acionistas brasileiros que foram lesados. A outra parte (R$ 1,3 bilhão) seria usada para a criação de uma fundação privada, administrada pelo MPF, que teria como objetivo o combate à corrupção. O texto foi assinado pelo coordenador da Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol, e por outros 11 procuradores.

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, considerou a iniciativa ilegal e entrou com uma ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) no Supremo Tribunal Federal para cancelá-la. No pedido, ela afirmou que o ato lesava "direitos fundamentais e estruturantes da República".

Em 12 de março, a força-tarefa da Lava Jato anunciou que, "diante do debate social existente sobre o destino dos recursos", desistiu da criação da fundação. Dias depois, o ministro Alexandre de Moraes acatou o pedido de Dodge e suspendeu o acordo firmado pelo MPF com a Petrobras.


EXAGERADO

Tiramos 36 milhões de pessoas da miséria [nos governos do PT].

Esse número tem sido repetido por membros do PT desde o governo Dilma Rousseff, mas está incorreto.

Segundo um estudo do Ipea, baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, o número de brasileiros vivendo em extrema pobreza (renda de até R$ 70 por mês) caiu de 14,9 milhões de pessoas em 2002 (8,8% da população) para 6,5 milhões em 2012 (3,5% da população), uma redução, em números absolutos, de 8,4 milhões de pessoas.

Mesmo se for considerada a redução na pobreza (renda de até R$ 140 por mês), os números não chegam aos mencionados por Lula. Nesse caso, a redução é de 25,3 milhões, passando de 41 milhões, em 2002, para 15,7 milhões em 2012.

Em 2014, a Folha de S. Paulo registrou que o governo Dilma chegou à conta dos 36 milhões calculando o número de beneficiários do Bolsa Família que estariam na miséria se não recebessem o benefício, e não fazendo uma comparação entre quantos estavam na extrema pobreza antes e depois do programa.


IMPRECISO

Acabamos com a fome [nos governos do PT].

Durante o período em que o PT esteve no poder (2003-2015), a prevalência da fome no Brasil caiu para níveis de países desenvolvidos, mas não foi eliminada. Desta forma, é IMPRECISO dizer que os governos do partido acabaram com o problema.

Segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), 8,7% da população brasileira era subalimentada na média do triênio 2001-2003 (os estudos são feitos a cada três anos). O indicador caiu gradualmente até atingir, no período 2008-2010, o nível "abaixo de 2,5%", menor patamar possível na pesquisa e em que também estão os países desenvolvidos.

O órgão define subalimentação como a condição "em que uma pessoa não consegue consumir comida suficiente para atingir requisitos dietéticos diários mínimos".

Em 2010, em reconhecimento por seu trabalho nessa questão, Lula recebeu da FAO o prêmio de "Campeão Mundial da Luta contra a Fome". Em 2014, o órgão anunciou que o Brasil saiu do "Mapa da Fome".

O índice de subalimentação no Brasil se manteve o mesmo até 2017, quando o último levantamento foi divulgado. Vale mencionar que, mesmo antes de Lula assumir o poder, esse indicador já estava em queda – foi de 11,9% no triênio 1999-2001 (primeiro dado disponibilizado pela FAO), para 8,7% em 2001-2003.

Contudo, não é possível atestar que houve erradicação completa do problema. Segundo um estudo do IBGE, 3,2% dos brasileiros viviam problema grave de insegurança alimentar em 2013. Em 2004, esse número era de 6,9%.


VERDADEIRO

Quase quadruplicamos as nossas exportações [nos governos do PT].

Segundo dados do Ministério da Economia, as exportações brasileiras somaram US$ 60,2 bilhões em 2002, último ano do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Em três anos durante o governo Dilma Rousseff, esse número foi pelo menos quatro vezes maior: 2011 (US$ 255,9 bilhões), 2012 (R$ 242,2 bilhões) e 2013 (US$ 241,9 bilhões).

O número caiu em 2014 (US$ 225 bilhões), 2015 (US$ 190,9 bilhões) e 2016 (US$ 185,2 bilhões), voltou a subir a partir de 2017 (US$ 217,7 bilhões) e, no ano passado, chegou a US$ 239,9 bilhões.

As importações no período 2003-2014 também aumentaram significativamente, o que levou a uma queda no saldo comercial brasileiro. Em 2002, o Brasil teve um resultado positivo de US$ 13,1 bilhões; em 2014, um negativo de US$ 4,1 bilhões.

Fontes:

1. The Guardian

2. Folha de S.Paulo

3. G8 2010

4. Banco Mundial

5. Petrobras

6. Bloomberg

7. Bloomberg

8. MPF

9. MPF

10. MPF

11. Folha de S. Paulo

12. Ipea

13. Folha de S. Paulo

14. FAO

15. G1

16. Folha de S. Paulo

17. Ministério da Economia


*Este texto foi alterado às 10h23 de 30 de abril de 2019 para corrigir informações sobre a balança comercial brasileira. Os valores de exportações e importações inicialmente usados para comparar o último ano do governo FHC com os anos PT eram relativos apenas ao período de janeiro a março, não ao ano todo. Os números foram corrigidos, mas não alteraram o selo VERDADEIRO conferido à declaração.

*Esta checagem foi alterada às 16h de 30 de abril de 2019 para incluir dados do IBGE sobre insegurança alimentar. Tais informações fizeram com Aos Fatos reavaliasse o selo de classificação da declaração de Lula de VERDADEIRO para IMPRECISO.